A liberdade afectiva

 

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Durante a semana, a Liturgia celebra a Festa da Sagrada Família, enquanto que  neste Primeiro Domingo do Ano de 2017 se celebra a Solenidade de Maria, Mãe de Deus. As leituras da Sagrada Escritura, com Maria e José, constituem uma afirmação inequívoca da unidade e harmonia do matrimónio, na linha de pensamento daquelas outras palavras do Antigo e Novo Testamentos que proclamam «que não separe o Homem o que Deus uniu».

Perante tal afirmação da unidade e da indissolubilidade do casamento, então, como crente, que dizer da questão do ‘divórcio’ ou separação civil ou legal, tão comum nos tempos actuais? Mesmo entre católicos!  Reconheço que é uma realidade complexa, muito controversa e toca, muito facilmente, a sensibilidade de cada um. Contudo, o diálogo, em verdade e respeito, é necessário. Creio também que o silêncio e o recolhimento, a escuta profunda de si mesmos e a oração, isto é, colocar-se humildemente diante de Deus continua a ser imprescindível na busca de uma melhor compreensão e fidelidade ao ensinamento do Senhor.

Na minha reflexão, direi que, primeiro de tudo, Deus não se engana nem nos quer enganar. O Homem, porém, é limitado, tem defeitos, pode-se enganar e engana-se, de facto. Deus afirma a unidade, a harmonia e a indissolubilidade. E é verdade, não mente. Assim, a dificuldade está na Humanidade, Homem ou Mulher. Mas onde?

No meu ministério sacerdotal, foi-me dada a possibilidade de percorrer todos os continentes e acompanhar mulheres e homens de tão diferentes raças, línguas e culturas. Talvez por características pessoais e no contexto de actividades de formação, fui sempre mais  levado a estabelecer o encontro do muito humano com o muito espiritual e divino. Tentar criar continuamente uma interacção entre a psicologia de profundidade e a espiritualidade como via de chegar, intimamente, ao ‘encontro pessoal’ com Deus.

 

Neste caminho tão delicado quão profundo, fui descobrindo quanto ‘o coração’ era complexo, mas riquíssimo em possibilidades, tanto para o bem como para o mal. Sempre se comportando com uma lógica interna finíssima e de grande rigor. E, mais uma vez, tanto para o torto como para o direito. Em poucas palavras, o nosso coração tem inúmeras ‘máscaras’ que superam as do Carnaval  de  Veneza ou as da Ópera de Pequim.; faz, de igual modo,  ‘projecções’ em pessoas, em circunstâncias e até em Deus que são autênticas fotocópias ou filmes em três dimensões daquilo que lhe vai no íntimo. E, finalmente, o nosso coração é capaz de reproduzir de maneira incrivelmente semelhante no presente aqueles ‘padrões ou esquemas de atitudes’ que vêm do nosso passado, armazenado no inconsciente.

Aplicando este conhecimento do ‘coração humano’ ou do mundo psico-afectivo, ao matrimónio, depara-se que as ditas ‘crises’ que precipitam o casal para o ‘divórcio’ são, fundamentalmente e na sua altíssima percentagem, motivadas por  razões humanas, do foro do inconsciente afectivo. Em termos simples, é uma questão de falta de maturidade afectiva. Repito, maturidade afectiva. Não se trata, e que fique bem claro, de maturidade física, intelectual ou de capacidade de decisão e de agir. Os ditos ‘adultos’, homens ou mulheres, casados ou solteiros, padres ou freiras, têm imensa dificuldade em aceitar a realidade de que, externamente, parecem adultos e maduros, mas, interna e afectivamente, manifestam-se muito mais frágeis e pequenos.

Acompanhando tantas e tantas pessoas, mulheres e homens, pelo mundo fora, torna-se para mim por demais evidente, e sem ofensa a quem quer que seja e sem deixar  ninguém a sentir-se envergonhado ou humilhado, não posso evitar de afirmar que a razão mais forte e profunda, ainda que negada e até desprezada, no meu entender continua ser o apego, infantil e inconsciente, aos pais. Leva-se toda a carga afectiva e o mesmo tipo de  relação  com os  pais  para dentro do casamento. Aí, onde deve, apenas e acima de tudo, existir a relação de Homem-Mulher. É uma completa ilusão quere amar como se ela fosse uma ‘mãezinha’ ou ele como um ‘paizinho’ Estes ‘ jogos afectivos’ tão frequentes, mas tão inconscientes, são tão enganadores. A curto prazo, podem ser muito agradáveis e até parecerem um grande amor. A longo prazo, porém, terminam em ilusão e num doloroso vazio. Dai romper … e preparar nova aventura.

Assim, se pode compreender que ‘a pedagogia do coração´, do encontro com o nosso ‘eu’ mais profundo,  continua a não ser suficientemente integrado tanto na nossa formação  básica  como  na nossa vida quotidiana. Não admira, também e consequentemente, que um momento tão particular na nossa existência histórica como na nossa vida em sociedade, como seja o casamento, ele continue a não incluir essa formação mais completa e integral que permitirá maior estabilidade na constituição da Família e promoverá maior solidariedade, justiça e harmonia na Humanidade e no Mundo

Mas, também se pode perguntar: onde estão ‘os Mestres do coração’? Aqueles ou aquelas que com delicadeza, sabedoria e espírito crítico são capazes de mergulhar nas cavernas profundas do coração humano e nos becos escondidos da existência humana e aí descobrir ‘tesouros’ de Liberdade e Felicidade?

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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