Imprevisibilidades: O ano do “Cisne negro”

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O recuso à metáfora do “Cisne negro” celebrizada na obra de Nassim Nicholas Taleb, pareceu-me bastante adequada para este ano que finda. O autor remete-nos para a possibilidade de acontecimentos altamente improváveis poderem acontecer reunindo três características principais: ser imprevisível; produzir um enorme impacto; e, após a sua ocorrência, todos terem uma explicação, tornando-o menos aleatório e mais previsível do que aquilo que é na realidade. Ou seja, ninguém acreditava que pudesse haver cisnes negros, até ao dia em que viram um, baseado numa velha crença dos europeus em 1697, que acreditavam apenas na existência de cisnes brancos, até que nesse ano avistaram pela primeira vez, um cisne negro na Austrália. O “Cisne Negro” explica assim tudo aquilo que sabemos acerca do que não sabemos.

 

Correndo o risco de entrar em assuntos um pouco fora da minha orla de análise, não resisto também à tentação de tecer algumas consideração de reflexão sobre o ano que agora finda, talvez pela forma como nos tocou a todos sem que disso nos apercebêssemos, tentando também aqui resvalar e extrapolar algumas suposições para a emergência de uma nova ordem mundial que vai emergindo sob a batuta da Republica Popular da China e que à boa maneira oriental aposta no tempo e numa estratégia que nem sempre é descodificada pelo mundo ocidental.

 

O ano de 2016 é talvez aquele que consagra a imprevisibilidade no domínio dos prognósticos, raras foram as sondagens e previsões que acertaram nos resultados esperados. No topo delas salienta-se o caso Trump e o Brexit com as consequências daí decorrentes ainda por verificar.

 

No primeiro caso estamos perante a possibilidade de uma total inversão – ou confusão –  no domínio da política externa dos EUA que pode vir a marcar o rumo futuro da ordem internacional, o protagonismo dos EUA no mundo actual perde logo à partida um dos seus pontos aliciantes: o da sua simpatia e empatia pelo mundo em geral. Quer se queira ou não somos todos colocados perante uma grande “trumpalhada” que de alguma forma coloca a grande potencia de referência do mundo Ocidental num quase auto isolamento perante o seu papel na cena internacional.

 

Por outro lado, a saída do Reino Unido da União Europeia reflecte a fragilidade do projecto europeu e da sua incapacidade para tomar as “rédeas” de uma alternativa substantiva ao poderio americano no contexto do Ocidente, prevendo-se eventualmente novas fracturas que venham a por em causa um futuro congregador dos princípios enunciados.

 

O mundo Ocidental fica assim quase sem referências aglutinadoras de um “modo de vida” (way of life) que se desejava globalizável em termos mundiais, transformado “o sonho colectivo” das sociedades que se queriam modernizar (ou ocidentalizar) em algo de inconsistente e volátil.

 

Ora estas fracturas nas grandes referencias do mundo Ocidental, em que o “american way of life” começa a desvanecer e o sonho de uma Europa unida é cada vez mais inconsistente, permitem ao novo “jogador global” (a República Popular da China) a possibilidade de se apresentar como modelo alternativo da potencia mundial que pode garantir a paz e a estabilidade no Mundo actual, trilhando uma diplomacia económica, cultural e cientifica baseada numa estratégia de “soft power” que o Ocidente não tem sabido aplicar.

 

As recentes declarações de Donald Trump sobre a questão da China Unida (no caso de Taiwan) são bem reveladoras de uma ausência – ou desconhecimento – das regras diplomáticas nas questões internacionais por parte dessa Administração, antecipando um eventual isolamento em que os EUA se colocam por iniciativa própria, abrindo assim o percurso para uma China cada vez mais globalizada e que tem sabido traduzir esses propósitos na sua política externa baseada em parcerias adaptáveis a cada espaço geográfico por forma a acentuar e a manter a sua influência. O tempo nos dirá até que ponto irão ter sucesso.

 

No que toca a imprevisibilidades, nós por cá também não estamos mal servidos, para nós portugueses, o ano em si não foi tão mau de todo, apesar desta “nuances” internacionais, sempre temos uma “geringonça” que vai funcionando, um título de campeão da Europa em futebol, um Secretário-geral nas Nações Unidas, sem esquecer (talvez a mais previsível) a dita 4ª Bola d’Ouro, mais que merecida do nosso Cristiano.

 

Ficamos então à espera de 2017 para ver se ainda há “cisnes negros” para descobrir. Até lá aproveitem o tempo que se avizinha para usufruírem da quadra festiva que agora se celebra. BOAS FESTAS a todos os leitores.

 

 

 

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(o texto não segue o acordo ortográfico em vigor)

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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