A rebelião dos eleitorados

O homem é levado por natureza a desprezar quem o bajula

e a admirar quem não se mostra condescendente.

Tucídides

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Os últimos tempos não têm sido famosos para os simpatizantes das ideias da esquerda. Uma onda de populismo tem varrido o mundo, começando com a vitória do Brexit na Grã-Bretanha, passando pela vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e acabando na difícil vitória do candidato do centro-esquerda nas presidenciais da Áustria.

‘Acabando’ é uma força de expressão. Se as razões dos eleitores que Churchill chamou ‘os povos de língua inglesa’ se repetirem nas eleições previstas para 2017, assistiremos a uma guinada à direita nas eleições alemães e francesas, colocando-se como hipótese possível a vitória. Se Marina Le Pen ganhar as eleições presidenciais em França, será a primeira vez que a direita nacionalista governará um país do centro da Europa, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Num curto espaço de tempo, eleitores dos dois lados do Atlântico deixaram veementemente expresso o seu repúdio pela forma como as elites –  o ‘establishment’ –  tem governado o destino dos seus países, e permitido que os efeitos da globalização se façam sentir em toda a sua extensão. Levando ao encerramento de muitas empresas, à perda de postos de trabalho, à erosão do sentido de comunidade, em troca de aleatórias políticas de inclusão que tratam o que é diferente como idêntico.

Os últimos vinte e cinco anos de desenvolvimento da Europa e dos Estados Unidos assentaram em três ideias essenciais: economia livre e sem proteccionismos, livre circulação de pessoas, bens, capitais e ideias e um modelo de democracia liberal de pendor universal. É sobretudo à dimensão económica dominante nas duas primeiras que os eleitores disseram basta. Daí ao discurso anti-imigração foi um passo.

É importante reconhecer que as pessoas têm alguma razão para estarem revoltadas. Foram as elites que levaram à guerra do Iraque, foram as elites que trouxeram a crise financeira, foram as elites que conduziram o processo de integração europeia a um pântano.

O populismo que se instalou, entretanto, tem um sabor dual: um sabor esquerdista e um sabor direitista. Nos Estados Unidos vimos o sabor esquerdista com a candidatura de Bernie Sanders às primárias democratas. Vimos o sabor direitista com a candidatura de Donald Trump e a sua vitória impressiva sobre a candidata do ‘establishment’ Hillary Clinton. Uma vitória contra todas as previsões que catalogaram Trump como o presidente improvável.

Estes tipos de políticos são familiares à história do Ocidente. Como lembrava o historiador Niall Ferguson numa conferência recente em Nova Iorque, encontramos personalidades deste jaez no fim do século XIX fazendo o mesmo tipo de discurso anti-globalização e anti-imigração, captando apoios significativos em eleitorados descontentes com o status quo. Só no fim desse século tivemos volumes de imigração tão significativos como os que temos neste momento. E isso perturba naturalmente as pessoas criando medo e desconfiança e levando as pessoas a usar a única arma que têm para punir os políticos: o voto.

Tomá-lo como regresso ao fascismo da década de 1930 é contudo perigoso e incorrecto. Porque iliba de responsabilidades quem nos trouxe até aqui. Porque confunde realidades que são axiologicamente diferentes: o nacionalismo e o fascismo. O nacionalismo propugna a identidade singular da nação, a defesa das indústrias do país, a preferência pelo produto nacional, a redução das importações e o proteccionismo económico e comercial. O fascismo defende uma cultura de uniformes, de paradas militares e populares, de rearmamento, de vingança de humilhações do passado e a tempo o aventureirismo militar.

Os políticos nacionalistas não são militaristas e belicistas. Os populismos não estão interessados nisso. Querem isolacionismo, impor taxas aos produtos estrangeiros, sair de acordos de comércio livre que entendem lesivos do interesse nacional, acabar com alianças militares que têm custos proporcionalmente elevados e punir as elites beneficiárias da globalização.

Entrámos num território essencialmente desconhecido.  De um lado do mundo temos a máxima “America First”, do outro “Concretizar o rejuvenescimento da grande nação chinesa”. Ambos os motes apontam para o regresso a glórias passadas. Só não sabemos com que consequências.

Robert Kagan, ouvido numa das Comissões do Senado norte-americano, neste mês de Dezembro, classificava este momento como o regresso `a era de rivalidades entre as Grandes Potências. É evidente que ele se referia à China e à Rússia perante a hegemonia benigna dos Estados Unidos. Mas se nos lembrarmos da última que vez que a acrimónia e a desconfiança ditou as relações entre esses Grandes Poderes tivemos a um passo, a um pequeno passo de embarcar numa nova Guerra Mundial.

 

Arnaldo Gonçalves, jurista e professor de Ciência Política. Escreve neste espaço às quintas-feiras.

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