O Sopro de Pak Tai: As persianas verdes de Cupão

 

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Kupang – Cupão das crónicas portuguesas – é hoje o único centro urbano das Sundas Meridionais. Ao fundo do arquipélago indonésio e na parte ocidental de Timor, numa época em que o controlo administrativo se cingia às zonas costeiras, esta cidade foi portuguesa.

As primeiras expedições comerciais dos portugueses à Insulíndia Oriental datam de 1512 e dirigem-se às Molucas. É pouco provável que tenham passado por Timor, onde havia sândalo em abundância. A chegada dos portugueses a esta ilha terá ocorrido por volta de 1514. Timor dividia-se então em diversos reinos dominados por dois poderosos chefes tradicionais, os liurais.

A partir da vizinha ilha de Solor, António Taveira, em 1556, inicia o processo de missionação nas ilhas Flores, Savu, Adonara e Timor. Graças ao papel dos dominicanos, diversos régulos convertidos ao cristianismo ficaram sob a alçada do poder português.

A dita “Igreja dos Portugueses” de Kupang mais faz lembrar uma igreja mexicana, daquelas que víamos nos western spaghetti. Os factos históricos, contudo, comprovam uma existência mais antiga. Hoje o sinal mais português que apresenta é um nome imortalizado numa lápide: “in memorium Mgr. Gregorius Manteiro, SVD”. Manteiro, (Monteiro), bispo de Larantuca.

Rodeia o templo um interessante amontoado de pedras e de coral onde cresceram árvores. Percorro ruas em busca de pistas e tudo o que encontro são graffiti. Mais graffiti com apelidos portugueses: Bento. Sarmento. Costa. Nomes que perduram no imaginário colectivo, quiçá com alguma carga simbólica. No meio destes, escrito a vermelho em parede branca, o nome Figo.

Em 1646, os portugueses edificaram em Kupang uma fortaleza que seria conquistada pelos holandeses em 1652. Face a este cenário, o poder transfere-se definitivamente das Flores para Lifau, no enclave de Oécussi, que será a primeira capital de Timor-Leste.

A divisão da ilha entre Portugal e a Holanda é feita pelo tratado de 1859 que atribui ao primeiro os reinos dos Belos, cabendo à segunda os de Servião.

O forte Concordia é actualmente um aquartelamento militar com dois canhões à entrada pintados a preto e vermelho. O benteng – na perspectiva dos jovens militares que aí habitam com as famílias – reduz-se a uma lápide funerária com uma frase em holandês. Da estrutura da fortaleza, só mesmo os restos da muralha visíveis do paredão em frente ao bar do Teddy, onde de manhã anda pessoal uniformizado a enterrar o lixo queimado na areia porque à noite o local vai receber uma distinta convidada: a mayor de Darwin, cidade gémea da capital da província de Nusa Tengara. Ultimam-se pormenores junto ao retrato do governador da província – um militar vestido a preceito – e o da autarca australiana, em cuja cabeça, com a ajuda do photoshop, foi enfiado um chapéu tradicional da ilha de Rote. As bandeiras e o aprumo visíveis por aqui, contrastam em absoluto com o estado de degradação em que o centro da cidade se encontra.

Um canhão de comprovada origem portuguesa encontra-se numa outra instalação militar. Faz parelha com réplicas de um míssil e de uma granada feitas em cimento, orgulho do regimento de infantaria ali destacado.

Tomada de assalto pelas ruidosas bemos que circulam à razão de uma por segundo, Kupang tem um ar pouco cuidado. Pouco resta da cidade antiga. Os edifícios, em péssimo estado, são em tudo iguais aos de congéneres, como Malaca, Pukhet e do que resta da velha Macau. Os mesmos azulejos verdes. Os mesmos telhados. Os mesmos arcos. As mesmas portas. As mesmas persianas de madeira. As mesmas paredes esventradas a revelar tijolos ou pedaços de ripas. A mesma roupa a secar. Tudo à espera de mais uns anos ou de um bupati menos corrupto e mais empreendedor, sempre novo-rico de mentalidade, para que tudo se desvaneça.

Vendedores de tabaco e de bétel abrigam-se numa das vielas mais características, não muito longe do edifício cor de laranja do terminal. Parte da zona ribeirinha foi construída em cima das rochas de coral.

No canal, barcos poisados no areão e no lixo acumulado aguardam a maré para se fazerem ao mar. Na margem oposta ergue-se um templo taoista que está à guarda de um simpático e nada comum casal. Ele, orang asli de Kupang. Ela, chinesa, gordinha e sorridente. Os frutos dessa união são perfeitos: encantadoras crianças como que a comprovar que quanto mais se misturam as raças mais belas são as criaturas que se geram.

Ao cair da tarde, na praça ribeirinha, jovens inventam acrobacias e “varrem” o chão com as suas calças à boca de sino, enquanto os vendedores puxam carretas de madeira cheias de laranjas. Da praia, imagina-se a fortaleza que praticamente já não existe e olham-se os pescadores que escolhem o peixe que vale a pena pôr a secar sobre placas de zinco e os que limpam o lodo das embarcações com a ajuda da areia. Por detrás deles, as casas, encavalitadas nos rochedos de coral, mais parecem embarcações, essas, viradas ao mar alto.

 

 

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

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