O drama natalício

14 Giotto Nativity 1310s Fresco North transept, Lower Church, San Francesco, Assisi....Web Gallery Of Art

Estamos muito perto do Natal.

Este é o último Domingo de Advento. Se lermos o Evangelho deste ano e do próximo, pela mesma altura, verificamos que o anúncio do Nascimento de Jesus deste ano, 2016, vem através da experiência de José e do próximo ano, 2017, vem com a de Maria.

Perante o convite a participar na realização do plano de Salvação, José e Maria passam por um primeiro grande momento, um pouco caótico e dramático. Apesar de serem os predilectos de Deus, não quer isto dizer que não tenham de passar por uma luta interior para conseguirem ser colaboradores do extraordinário acontecimento do Filho de Deus feito menino e ao qual foi dado o nome de Jesus. A revelação deste mistério divino – a Encarnação – obviamente, que ultrapassa toda e qualquer das suas capacidades. Não é de admirar, portanto,  o drama íntimo dos dois à procura de sentido.

«José, filho de David, não temas em receber Maria, tua esposa» está escrito no Evangelho de São Mateus. Na narrativa de São Lucas pode ler-se: «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo. Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus». Perante o Anjo, o mensageiro de Deus, ambos têm, em primeiro lugar, medo. O seu coração está profundamente perturbado.

Segundo. Tudo aquilo que ouvem ou está a suceder é algo que vai para além da sua compreensão e imaginação. A sua inteligência não está clara.  José,  porque não entende como «Maria, (sua) noiva, antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida». Quanto a Nossa Senhora, o texto evangélico declara: «Ela  ficou perturbada com estas palavras (do anjo) e pensava que saudação seria aquela».

Por isso e em terceiro lugar, um e outro não sabem que fazer. Qual a decisão a tomar? Mas esta é a situação de todo o ser humano perante o desafio de uma realidade  nova.  Sempre se passa pela perturbação do coração, pela falta de clarividência no pensar, e, finalmente, pela indecisão ou pelo titubear na acção. Experimentamos algo de dramático. Entramos, mesmo,  na angústia.

Mais  ainda, para  homens e mulheres, crentes em Deus,  piedosos e sempre à procura de fazer a vontade de Deus, é muito doloroso encontrarem-se em tal cicunstãncia.  Podemos, assim, entender Maria e José a entrar naquilo que alguns santos chamam  a experiência da ‘noite escura’. Não esqueçamos, que mais tarde, o próprio Jesus vai passar pela ‘angústia mortal’, essa terrível ‘noite escura’, a aparente ausência de Deus.

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Eis o segundo grande momento da experiência de José e Maria. De José, conta-nos São Mateus que «José fez como o o anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu  (Maria)  sua esposa». Quanto a Maria, o texto de Lucas termira com as palavras humildes daquela que foi chamada a ser a mãe de Jesus, nosso Deus: «Eis escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra».  Mais tarde, sua prima Isabel  exclamará,  possuída pelo Espírito Santo, dizendo: «Bem-aventurada aquela que acreditou no cumprimentoe de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor».

Há que reconhecer, no entanto, que, antes dessa aceitação, uma experiência muito concreta e profundamente humana se deu e, direi, com a assistência de Deus. O coração com os seus muitos sentimentos acalmou-se. As ideias e pensamentos ordenaram-se com lógica e inteligência. A resposta ou a acção consequente tornou-se equilibrada, coerente e segundo os planos de Deus.

Para tomar, seja com quem for, boas decisões  ou procurar seguir sempre a vontade de Deus é necessária, infalivelmente,  uma grande integração, equilíbrio e harmonia entre a afectividade,  a racionalidade e  a vontade e,  por fim, um apurado sentido de Deus.

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Neste episódio de preparação para o Nascimento de Jesus, há um aspecto que me chama  muito a atenção.  José discerne a vontade de Deus e  toma as suas decisões sempre depois dos sonhos. Por exemplo, receber  Maria,  fugir para o Egipto, voltar para Israel,  ir para Nazaré. Já no Antigo Testamento, José, filho de Jacob, era ‘o homem dos sonhos’. Mas, depois salvou os irmãos,  toda  a família   e todo o povo hebreu.

Os sonhos, fundamentalmente, revelam o mais profundo de nós mesmos que, conscientemente,  não somos capazes de enxergar ou tocar. Quanta coisa agradável, cheia de esperança e rica de valor se descobre no nosso mundo onírico!  Igualmente e em particular os pesadelos ou os nossos filmes de terror quando dormimos, são espaços de descoberta de dores,  angústias e  memórias, escondidíssimas e soterradas, há muito tempo,  no nosso inconsciente ferido, mas que constituem verdadeiros caminhos que nos conduzem à  liberdade e à expressão mais bela e perfeita do nosso ser!

O mundo do inconsciente foi criado por  Deus. A descoberta do inconsciente e sub-consciente constitui, sem dúvida, um dom da Ciência do século XX para a Humanidade actual. Penso que – embora mais falada do que antes – a Psicologia de Profundidade continua a não ser suficientemente integrada na Vivência da nossa Humanidade, em geral,  mas  também, direi, na Educação e na Formação Humana, Moral e Espiritual,  muito em particular.

Estou convencido, que a via de equilíbrio para enfrentar a Velocidade do Mundo de hoje está na Profundidade de Ser e de Vida.

Faltam-nos Homens e Mulheres de Profundidade e de Pensamento.

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

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