O doce torpor da ilusão

bn-dd128_histor_p_20140606143631

 

Os prognósticos feitos em tempos de transição e viragem têm o risco de nos colarem ao presente tomando o transitório pelo perene e vendo nas novas tendências um fluxo de mudança que, afinal, soçobra perante as vontades adversas.

Há vinte e três anos escrevi nas páginas deste jornal[1] que o último quartel do século vinte assistira ao fim da ordem mundial que conduziu à Guerra Fria, à extinção dos blocos geopolíticos e à crise das ideologias que foram o seu esteio aglutinador. As mudanças que ocorriam na Europa – ao tempo que escrevia a crónica – a queda do Muro de Berlim, a libertação da Europa de Leste, a tentativa fracassada de reforma do regime comunista da União Soviética, o fim do Pacto de Varsóvia foram de molde a desencadear uma onda de optimismo e voluntarismo que coincidia com os novos tempos.

Mas ainda assim aditava um elemento de precaução. Dizia que ainda que as novas circunstâncias permitissem erradicar a ameaça de um novo conflito militar alargado subsistiam interrogações quanto ao rumo que a ordem internacional tomava. Concluía o argumento dizendo que o debate sobre as ideologias e o Estado não era um capítulo encerrado e arrumado, como afirmavam, os liberais, no armário da História. A crítica dirigia-se ao precipitado diagnóstico feito por Francis Fukuyama num livro marcante de 2002,”O Fim da História e o Último Homem”[2].

Nele, Francis Fukuyama afirmava, na sequência de um artigo publicado no Verão de 1989, no jornal National Interest, que verificava-se um ‘notável consenso relativamente à legitimidade da democracia liberal como sistema de governo que emergia em todo o mundo vencendo ideologias rivais como a monarquia hereditária, o fascismo e o comunismo’. Esse ‘notável consenso’ permitia que a democracia liberal se afirmasse como o ‘ponto final da evolução ideológica da Humanidade’ e a ‘forma definitiva do governo humano’.  Constituía, assim, o ‘fim da história’. Fim, no sentido de que enquanto outras formas de governo padeciam de graves deficiências e irracionalidades que conduziram ao seu colapso, as democracias liberais estariam livres dessas contradições internas. ­

O transcorrer das últimas duas décadas veio mostrar que este diagnóstico foi profundamente errado. Mais, conduziu a Humanidade a um sentimento de prostração e abulia perante ameaças e convulsões que se agitavam nos interstícios da vida internacional. Na verdade, a ilusão da paz perene é a mais perigosa das ameaças à consciencialização colectiva, no quadro de um povo ou de um colectivo de povos. Sedutor, esse torpor inebriante conduziu à emergência de um pensamento nas relações internacionais, alinhado com o liberalismo e a esquerda americanas, que desapetrechou os grupos de reflexão e os órgãos governamentais responsáveis pela política externa de instrumentos de análise indispensáveis à compreensão do que se passa no mundo.

Robert Keohane e Joseph Nye davam corpo, em 1997, a esse romantismo ‘retardé’ de clara inspiração kantiana, em “Poder e Interdependência”[3] onde diziam que o impacto de questões transnacionais como o comércio, as relações monetárias e a política dos oceanos conduzia à assunção que os avanços prefigurados pelas tecnologias e as trocas económicas e sociais conduziriam a um novo mundo em que os Estados e o seu monopólio sobre a força deixaria de ter importância. No ocaso dos Estados, novos poderes emergiriam no âmbito das organizações internacionais, das corporações multinacionais, das organizações não-governamentais, dos poderes inorgânicos da sociedade civil. Neste magnífico ‘happening’, de pendor woodstockiano, os actores da vida internacional multiplicariam consensos, interdependências e promessas de amor eterno.

Este mundo cor-de-rosa era irrealizável. No campo económico e comercial, apesar das promessas advindas da criação da Organização Mundial de Comércio em termos de uma efectiva concorrência e comércio livre, as últimas rondas negociais embatucavam. A preocupação dos líderes mundiais com a defesa das indústrias, das empresas e dos postos de trabalho dos seus países, vieram pôr em destaque que a nova divisão de trabalho imposta pelos novos campeões da globalização, era inimiga de um equilibrado desenvolvimento nacional. No campo da consolidação democrática, novas formas autoritárias de governança afirmaram-se no centro da Europa e na Rússia, na Ásia e na América Latina, minando a probabilidade de transições democráticas pacíficas.

No campo das relações bilaterais e multilaterais, tomou protagonismo a ameaça do terrorismo, primeiro nos Estados Unidos, depois no centro da Europa, corroendo o desígnio de um mundo com menos fronteiras onde a circulação de pessoas, bens e capitais predispusesse a um progresso humano partilhado. E se o económico ocupara o centro das atenções dos gestores políticos e empresariais, nas últimas décadas do século passado, a segurança tornou-se a ‘buzz-word’ do discurso político, acoplada ao medo que tomou conta do corpo colectivo, sobretudo na Europa.

O populismo e a fácil retórica dos demagogos, sempre presente em momentos de crise grave, afirmou-se em eleições sucessivas na América Latina, na Europa, nos Estados Unidos. Um populismo transversal que se afirma tanto à esquerda como à direita, seduzindo os eleitores com soluções rápidas, totais, indolores mas mentirosas.

O mundo tornou-se menos livre e seguro. Recordando-nos que não há refúgio incólume para a tempestade que se anuncia no horizonte.  Por isso o requiem era imprudente.

 

 

Arnaldo Gonçalves é jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais. Escreve neste espaço às quintas-feiras.

[1] Requiem pela velha Ordem Internacional, 22 de Outubro de 1993.

[2] Francis Fukuyama (1992). O Fim da História e o Último Homem. Lisboa: Gradiva.

[3] Robert O. Keohane e Joseph S. Nye Jr (2011). Power and Interdependence [4a edição]. Londres: Longman Classics.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s