O Sopro de Pak Tai:O fado dos mardijkers

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O mercado municipal de Bukkitingi, no oeste da ilha de Samatra, fica mesmo ao lado do término dos fiacres puxados por póneis, uma das especificidades da cidade, transporte público de eleição. Nesse labirinto de tendas e tendinhas – onde em tempos eram muito requisitadas T-shirts com o busto de Bin Laden – depararia com um relevante vestígio da lusa passagem por aquelas paragens. Numa banca com uma variedade impressionante de cassetes e VCd, sobretudo de música tradicional, reparei num tema recorrente em muitas das bandas: o kaparinyo, canção inicialmente popularizada na costa oeste de Samatra e posteriormente divulgada em todo o arquipélago. Ora bem, o kaparinyo provém do lagu cafrinyo, tema de origem portuguesa, ainda hoje cantado no bairro dos luso-descendentes de Tugu, nos subúrbios de Jacarta, e que se insere num estilo musical denominado kroncong, que a etnomusicóloga Margret Kartomi define da seguinte forma: “Kroncong é ao mesmo tempo um conjunto e um reportório musical, caracterizado principalmente por um estilo vocal em que se canta de uma maneira sentimental, com um acompanhamento instrumental em que são utilizadas harmonias europeias.”

Na sua forma original, os tempos e contratempos do kroncong eram tocados em viola apropriada, com corpo de madeira ou casca de coco, hoje praticamente obsoleta. São três os tamanhos das violas kroncong: macina (maior e mais grave), bordong (tom e tamanho médios) e prounga (mais pequena e de som mais agudo). Actualmente, os agrupamentos que mantêm vivo esse estilo musical substituíram as violas kroncong pelos cavaquinhos e bandolins eléctricos, podendo eventualmente integrar a orquestra o violino, a flauta e vários tipos de percussões.

Mestiços e escravos africanos, indianos e malaios com carta de alforria, os denominados mardijkers –  ou “portugueses negros” – como também eram conhecidos, foram os primeiros intérpretes deste género musical, que, de certa maneira, podemos associar ao fado. Durante o domínio holandês, essa gente, entretanto classificada como portugi, logrou obter um pedaço de terra, fundando a colónia de Tugu, ainda hoje existente. Distingue-os o crioulo e o kroncong, cujos intérpretes, em Java e no sul de Samatra, são conhecidos como tanjidores.

A maior parte das famílias de Tugu emigrou para a Holanda, já na década de 1970, tendo as restantes ido viver para o centro da cidade, deixando o bairro praticamente abandonado. Não obstante, os que resistiram continuam a manter vivas as suas tradições e há ainda quem se lembre do patuá local, socorrendo-se de deliciosas expressões como “tem genti qui quere bir casa” sempre que anunciam a chegada de um forasteiro.

A pouco quilómetros de Bukkitingi, a aldeia de Maniju estende-se ao longo das margens de um lago com o mesmo nome, na cratera de um vulcão extinto há milhares de anos. Em certos pontos desse extenso lençol de água, a profundidade chega a atingir os 480 metros. Maniju é um lago Toba em ponto pequeno e um desses sítios ideais para quem busca isolamento e sossego, por consequência, candidato à minha lista de escolhas.

Havia, contudo, um outro motivo para uma deslocação a Maniju. Fabricavam-se na aldeia os famosos tambores de caixilho utilizados em toda a Samatra e que, como comprovam as investigações de Margret Kartomi, têm origem nos tambores de caixilho do Norte de Portugal: “Desde os primórdios do império, os portugueses trouxeram para Malaca e outros centros coloniais imensos instrumentos musicais, tais como violas, tambores de caixilho e cordofones de arco, possivelmente violinos altos, que eram chamados viola em português e em malaio biola.

Estes instrumentos eram tocados ao estilo europeu por escravos de várias origens nas grandes casas senhoriais dos portugueses e, mais tarde, nas dos holandeses. Obviamente, essa tradição cedo chegou à próspera cidade do Santo Nome de Deus. O historiador Charles Boxer recorda que, em 1637, em Macau, um jantar sumptuoso preparado pela mão-de-obra escrava seria acompanhado por “boa música, incluindo voz, harpa e viola”. Lembra ainda o historiador que, em 1689, uma noiva de Batávia, proprietária de cinquenta e nove escravos, numa carta, afirmava que alguns deles tocavam harpa, violas e fagote durante as refeições. Ao “juntarem-se às grandes casas senhoriais”, tornando-se, desse modo, cristãos, esses “portugueses negros”, essencialmente escravos africanos e asiáticos, esperavam obter a nacionalidade portuguesa, o que acontecia com frequência. Muitas deles tinham apelidos portugueses e praticavam costumes portugueses. Como é sabido, dos poderes coloniais europeus, só Portugal encorajava os seus homens a casar com as mulheres locais e a instalarem-se nos “países de acolhimento”, porque, como salienta o historiador Paramita Abduracham, “ao criarem raízes nos seus países novos, também plantariam raízes para os interesses portugueses”.

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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