Momentos Críticos

1.Luis Sequeira

No Evangelho deste Trigésimo Terceiro Domingo do Ano Litúrgico, Jesus Cristo  anuncia aos Judeus ‘a situação crítica’ por que irão passar num futuro não muito longínquo: a destruição da cidade de Jerusalém pelos Romanos. E fá-lo, referindo-se ao Templo, em termos verdadeiramente drásticos: «não ficará pedra sobre pedra; tudo será destruído.»

À pergunta dos que O escutavam: « Mestre, quando sucederá? Que sinal haverá de que está para acontecer ?», o Senhor Jesus dá uma resposta que me parece ir ao encontro da ‘situação crítica’, com a melhor  pedagogia.  Aborda o momento aflitivo,  antes de tudo o mais, indo ao lugar que é origem de toda a perturbação, isto é,  ao coração,  ao ‘eu’,  profundo e íntimo.

Daí,  serem correctíssimas as observações feitas por Jesus Cristo, o Mestre.

A primeira, quando aconselha: «Tende cuidado, não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’» E isto é tão real! Quantos e quantos de nós, mal aparece um problema, uma crise, uma aflição, acreditam logo em qualquer um que se apresenta e vão atrás do primeiro ou da primeira que lhes explica o presente e o futuro. Quantos, na comunidade cristã, estão, obsessivamente dependentes, de horóscopos,  leitores de cartas, ‘mestres dos  espíritos’, ‘videntes’ e outras coisas mais ?  Ao contrário, quais são aqueles que são capazes de se sentar ‘aos pés de Jesus’, como Maria, irmã de Marta, e presentar-lhe as suas aflições e angústias ? E, em silêncio e com humildade, esperar. Ele falará no mais íntimo.

A segunda advertência do Senhor Jesus é : « Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis». Quando ‘os  momentos críticos’ nos chegam não deixemos que se apodere do nosso coração sentimentos e emoções em grande rebelião, pois, em pouco tempo,  perdemos o sentido crítico da nossa inteligência e, em seguida, não sabemos que fazer,  perdemos memo a força de vontade e a capacidade de decisão. E criamos um autêntico drama ou – se preferirmos mais acção – uma tragicomédia.

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Mas, o Senhor vai mais longe no seu ensino. Ele, como nosso Senhor e nosso Deus, afirma também duas certezas a ter em conta, nesses momentos terríveis da nossa vida,  muito concretamente, naqueles momentos em que poderemos ser perseguidos por causa dos nossos próprios ideais ou valores ou  até por causa da nossa fé.

«Tende presente em vossos corações que deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos adversários poderá resistir ou contradizer.» Esta é a primeira grande afirmação de Jesus Cristo,  nosso Salvador. Na hora da argumentação,  não nos faltará nem a  perspicácia nem a lógica para rebatecer.

Mas mais ainda.  A sua protecção vai mais além.  O Senhor diz : «Causarão a morte a alguns de vós  e todos vos odiarão por causa do meu Nome, mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.» Ele o Senhor Deus, todo poderoso,  estará sempre connosco nas circunstâncias mais tenebrosas. Se formos levados até ao extremo de experimentar a morte violenta,  permanece a certeza de que Ele nos receberá nos seus braços amorosos, numa felicidade que, neste mundo, não conseguimos atingir e compreender.

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Por fim, o texto evangélico termina com  uma chamada de atenção do Mestre : «Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.»  Esta frase final faz-me lembrar aquilo que é tão comum  no comportamento humano, o não saber esperar. Direi, porém, que toda a transformação,  quer humana quer espiritual, não terá lugar  sem se lhe dar tempo  Tanto no foro físico, psicológico e social como no intelectual, moral e  professional ou ainda no espiritual, religioso ou  místico nada acontecerá de significativo senão se der tempo à natureza e à acção de Deus.

A propósito de os Judeus quererem um ‘sinal’ para acreditarem ou do facto de Jesus falar, de quando em vez, do saber ler  e compreender ‘os sinais’ da presença de Deus, no nosso dia a dia.

Ponho-me uma questão, no rescaldar da campanha eleitoral americana. Porquê razão Hilary Clinton, após reconhecer a vitória de Donald Trump, não consegue assumi-lo diante da  sua  própria gente?  Não será isto ‘sinal’ de uma fragilidade mais profunda e séria escondida que, para quem desejaria ser presidente, poria a própria América e o Mundo em perigo, se, na politica nacional ou mundial, um dos seus planos fosse completamente rejeitado ou aniquilado ou se transformasse num completo fracasso? Portanto, menos capaz…

 

Luís Sequeira, Sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

 

 

 

 

 

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