E depois de Trump, para onde caminha a democracia?

 

Donald Trump elected US President

Donald Trump ganhou as eleições. A julgar pela campanha eleitoral e pelas qualidades morais do indivíduo, com alguma sorte, daquela cabeça pouco mais sairá do que um chorrilho de ameaças e chavões vazios. Ou talvez nem isso. Mas, por mais sombrio que este 9 de Novembro (8 nos States) se prefigure – por mais absurda e irreal que se afigure a obrigação de se ter de tratar uma espécie de esfregona como o líder do “mundo livre” – convém lembrar que Trump não foi escolhido nos bastidores de Bruxelas ou nomeado por Pequim.
Foi – isso sim – eleito democraticamente pela população de um país que, aparentemente, até tem um dos sistemas eleitorais mais justos e equilibrados do mundo. Depois do anúncio do triunfo do candidato republicano o que mais se viu no arraial ilusório de activismo que são as redes sociais foi gente – talvez em demasia – a passar atestados de ignominiosa burrice e despudorada ignorância ao eleitorado norte-americano, como se a culpa pelo incerto desconcerto que se apoderou da América e do mundo lhes pudesse ser assacada a eles e apenas a eles. Boa parte dos autores de tais atestados é gente esclarecida e diz-se defensora da democracia participativa. Não o são, em boa verdade.
Um verdadeiro democrata acredita na soberania do voto com o mesmo fervor com que um verdadeiro católico acredita na ressurreição. Mais do que a universalidade dos direitos humanos – que exige um nivelamento dos valores culturais que ainda não é partilhado por grande parte dos povos – a soberania do voto é o que a democracia tem de mais parecido a um dogma, a uma verdade intocável e sacrossanta.
O problema da democracia é outro. Está há muito enferma e não há quem a queira ver restabelecida e forte, como se arrogou ser outrora. O que a vitória de Donald Trump – e antes disso o Brexit ou a ascensão da Frente Nacional, em França – revelam é uma incapacidade letal de renovação por parte dos agentes democráticos – partidos, sobretudo, mas também escolas, movimentos cívicos e meios de comunicação social – que façam do processo democrático aquilo que ele deve ser, um mecanismo de exponenciação do bem comum e da felicidade geral.
E por falar em felicidade, nisto de se zelar pela vitalidade democrática há também um não sei o quê de amor: tal como numa qualquer relação, para que a democracia vingue é necessário alimentá-la, apaparicá-la, limpá-la dos seus pruridos, confortá-la pelos seus desgostos. E votar o mais das vezes não basta.
É necessário denunciar compadrios, levar corruptos à barra dos tribunais, deixar cair ideologias, alargar o espectro de voto e não pactuar com lobbies e com as relações promíscuas que sempre uniram o poder político e o poder económico. É condenar todos os livros de Sócrates ao fracasso, insurgir-se contra a desvirtuação do Segundo Sistema, penalizar quem tira partido do jogo de sombras em que a política se tornou e, sobretudo, denunciar injustiças. É não esquecer e não ignorar. É deixar o Facebook e sair à rua.

Marco Carvalho

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