Cidade imaginária

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Num livro que é um verdadeiro prodígio da imaginação humana (tal como “Aleph” de Borges, “Frankenstein” de Mary Shelley ou algumas obras de Philip K. Dick, J. G. Ballard ou Stanislav Lem), Italo Calvino relata um diálogo imaginário entre Kublai Khan e Marco Polo. O viajante entretém o imperador com relatos de cidades contínuas e cidades subtis, que se definem pela sua relação com os homens e com os signos. Quem leu “Cidades Imaginárias” nunca irá esquecer a cidade construída no deserto que se assemelha a um labirinto e que foi fundada por aqueles que sonharam com uma bela mulher nua que lhes escapava sempre antes de despertarem. Criaram-se cidades visíveis por necessidade, por desejo ou pela força do comércio. E nelas nasceram outras invisíveis, que muitas vezes parecem ser subterrâneas perante os nossos olhos. Talvez ainda hoje seja fascinante para mim a criação de cidades como Macau ou Hong Kong. Esta foi um desejo de uma potência que, depois de ter tentado absorver Macau, decidiu criar de raiz algo que fosse a sua imagem nas margens do Império do Meio.

Hong Kong nasceu de guerras por causa do ópio que ajudou a financiar a indústria britânica na época em que impunha as leis nos mares. Tudo em nome do “comércio livre” (a história repete-se hoje como uma farsa ainda mais cínica). O choque sobre o meio de pagamento (a China só queria prata em troca do chá e da porcelana) saia demasiado caro aos britânicos. O narcótico produzido na Índia era um melhor meio: resolvia as contas e adormecia os espíritos mais guerreiros. Macau haveria de ser um dano colateral nestas guerras de onde nasceu Hong Kong.

Não deixa de ser curioso como o poder militar britânico era, na época, muito superior ao chinês. Isto depois de a pólvora ter sido inventada pelos chineses. E de, segundo relatos do século X ou XI, ter sido utilizada em acções militares no território chinês. Em 1083 a dinastia Song distribuiu milhares de flechas com pólvora às suas guarnições. Os alquimistas chineses da época criaram artefactos que, por exemplo, em 1232 impediram os mongóis de tomar Kaifeng. A batalha naval de Poyang, uma das maiores da história, que terá envolvido cerca de meio milhão de combatentes, fez-se também ao ritmo de utensílios de fogo com pólvora. Não deixa de ser admirável que se o papel ou a técnica de impressão demoraram muito tempo a chegar à Europa, armas de fogo e bombas chegaram rápido. A partir do século XIV a Europa assistiu a uma revolução balística. As armas cresceram em tamanho e poder de fogo. Começaram a ser capazes de destruir muralhas defensivas, como sucedeu no ataque a Constantinopla em 1453.

No final do século XV, a balística europeia era já superior à chinesa. A entrada vitoriosa das caravelas portuguesas na Ásia deve muito a esse poder de fogo. A Europa, com diferentes Estados sistematicamente em guerra, não admirou que a inovação militar fosse rápida. Tal como tinha sido durante a dinastia Song, numa China então assolada por múltiplos conflitos. A paz não trazia necessidades militares: a dinastia Ming, desde 1368, não necessitava do poderio balístico para combates porque a serenidade reinava no império. Deixaram de ser precisas armas mais potentes.

Na Europa as guerras sucediam-se: Entre 1480 e 1700 a Inglaterra teve envolvida em 29 guerras, a França em 34 e a Espanha em 36. Quando chegaram aos mares da China os navios portugueses tinham as melhores e mais poderosas armas de fogo. No século XVII os mosquetes e as técnicas de perfuração desenvolvidas pelos holandeses tornaram-se mortais. As tácticas militares desenvolveram-se: os atiradores disparavam e iam para a retaguarda para recarregaram, tal como faziam nas suas superiores tácticas militares os arqueiros chineses séculos antes. Mas os navios holandeses da época, que se moviam rápido e com três andares de canhões, eram poderes quase divinos sobre as águas. A marinha chinesa da época nada podia fazer contra eles. A dinastia Qing, chegada ao poder em 1644, nada podia fazer contra estes poderes militares, apesar de ter armas também muito fortes. Mas o estímulo da guerra desaparecera. A marinha de guerra britânica venceu facilmente as guerras do ópio com um poder de fogo que a industrialização trouxera às armas e munições de que dispunha. Não admira que os britânicos tivessem imposto a sua lei à custa do poder militar. Hong Kong nasceu e cresceu. Tornou-se uma cidade visível, mesmo que no seu mundo subterrâneo existissem muitas cidades invisíveis. Mundos comerciais como os que descobrimos à superfície. Portos cheios de cruzamentos culturais. Locais de sonhos, invejas, paixões e pesadelos. Que nos mostram como os labirintos percorridos pela história e pelos nómadas que a fazem acabam sempre por terminar numa saída qualquer.

 

Fernando Sobral, escritor e jornalista. Autor de “O Segredo do Hidroavião e “A Jóia de Goa”, escreve neste espaço uma vez por mês.

 

 

 

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