O Sopro de Pak Tai: Uma união não consentida

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Na crónica da semana passada deixamos Leonardo Veiga na década de 1970, nos arredores de Pequim, numa colectividade agrícola onde conhece uma rapariga com quem acaba por casar. Tem então 22 anos. “A minha mãe foi sempre contra esse matrimónio, achava-me muito novo”, diz. Leonardo decide casar porque já não acreditava no futuro, e o melhor que tinha a fazer “era ligar a minha vida a outra pessoa”. A mãe dizia-lhe que essa era uma visão errada, pois tudo mudava. Dizia ainda que nunca se devia perder a esperança:“Na altura não acreditei nas suas palavras, agora sim”, admite.

O futuro provou que a mãe, a senhora Yu Cheng, tinha razão. Com a liquidação do «Bando dos Quatro» e o fim da Revolução Cultural, em 1978, a família volta a reunir-se em Pequim. Leonardo divorcia-se pouco tempo depois. Era de facto muito jovem ainda … Mas tinha agora um filho e responsabilidades inerentes: “Discutia frequentemente com a minha mulher… A vida na cidade era muito diferente da do campo, ela não se adaptou a Pequim. Discordávamos quase em tudo”.

Regressado à capital, Leonardo retoma o trabalho de que tanto gosta: o ensino de piano na Academia Nacional de Dança. Cedo se apercebe que todo aquele tempo sem tocar piano deixara mazelas. O seu professor confirma: já era tarde para se tornar concertista. Apesar das mãos grandes e do talento natural, os dez anos sem praticar pareciam irrecuperáveis: “Posso hoje afirmar que essa é grande frustração de toda a minha vida: o não ter podido ser um pianista profissional, pianista de concerto”, desabafa o luso-chinês.

A irmã Wei Mei, que entretanto também casara, parte de Saanxi para Hong Kong, onde recebe algum apoio do pai de ambos, o jornalista macaense José Veiga, que esposara Yu Cheng em Kunming, uma ligação desde o início reprovada pela sua família em Macau, apesar dos dois filhos do casal luso-chinês. A hostilidade e o eclodir da Segunda Grande Guerra, seguida da Revolução Cultural, levaram a uma separação de décadas.

“Ele ajudou a minha irmã a ir para Hong Kong pois sabia que a vida na província de Saanxi era muito difícil”, comenta Leonardo. “Deu-lhe uma mesada de 300 dólares para a renda e ela teve de se remediar…”. Wei Mei –  para quem o pai era pouco mais de que um estranho que lhe dava uma ajuda – trabalhou no duro com o marido. “Começaram por fabricar detergente e comiam tofu, massa e legumes para poupar dinheiro. Hoje estão bem na vida”, informa Leonardo.

É a Wei Mei que Leonardo telefona em 1981, a combinar o encontro com o pai, que concorda em vê-lo, embora fosse avisando “que estava bastante ocupado”. O encontro acaba por ser fortuito. Nas escadas do metro, tendo Leonardo reconhecido o pai graças a uma foto antiga que trazia consigo. A conversa continua noite dentro, no pequeno apartamento onde o pai habita: “Nas horas que falei com ele só pensava na minha mãe”, diz.

Estranhamente, Leonardo não permanece em Hong Kong, aproveitando uma época propícia à obtenção de residência no território. Opta por regressar a Pequim onde prossegue os estudos de piano: “Foram tantas as oportunidades perdidas que não me podia dar ao luxo de voltar a desperdiçar mais uma. Faltava-me apenas um ano. Voltei a Pequim para tentar realizar o meu sonho”.

Em 1988 chega à Academia, vinda da província de Gansu, a dançarina Pei Chang Qing, que ali vinha aperfeiçoar os seus conhecimentos. Leonardo torna-se seu professor e, mais tarde, marido: “Foi amor à primeira vista. Tínhamos encontros às escondidas. Assim foi durante quatro anos”, confidencia. Enquanto vice-director do departamento de dança, a sua situação era melindrosa e não podia assumir essa relação. Mas tudo se veio a saber. “Na China não se pode manter nada em segredo por muito tempo”, conclui. Além disso, “há sempre alguém disposto a interferir na vida do próximo”. Leonardo é transferido para o conservatório de Xangai. Uma espécie de punição, já que um ano depois, em 1991, ingressa na mesma escola, e regressa ao convívio daquela que virá a ser a sua segunda mulher.

Depois de tantas dificuldades e anos de separação, parecia que tudo se estava a compor. Faltava só mesmo que Yu Cheng e José Veiga se voltassem a encontrar. E a oportunidade surgiu por ocasião da morte da mãe do jornalista, que nunca aceitou o casamento do filho com a chinesa: “Aquando a morte da minha avô macaense, a minha irmã arranjou maneira de os meus pais se encontrarem. A minha mãe partiu excitadíssima. Podia voltar a ver o seu marido depois de todos aqueles anos. O pai, pelo contrário, manteve-se distante. Estiveram no mesmo hotel, em quartos separados, em Shenzen, ao longo de uma semana. A minha irmã acompanhou-os sempre”, recorda.

Yu Cheng lembrava-se dos bons momentos passados em Kunming e das canções que ele lhe cantava. “I Dream of a White Christmas” era a sua favorita. Ao longo de todos aqueles anos Yu Cheng continuou a cantar esse tema, mas José Veiga de nada se recordava: “As mulheres são bem mais eficazes nestas coisas da memória, não é?”. Yu Cheng voltou a Pequim muito decepcionada e mal mencionou o encontro pelo qual tanto ansiara.

“Tampouco o meu pai manifestou qualquer sentimento afectivo para comigo”, diz Leonardo, que também não sentiu qualquer afeição por José Veiga. Apenas a curiosidade o movia. No fundo, “era como se estivesse a falar com um amigo que já não via há algum tempo”.

Leonardo nem se deu ao trabalho de aferir a situação económica do pai. Sabia que tinha nova família e que continuava a trabalhar para a Reuters – onde aliás permaneceu até se aposentar e ir viver para os Estados Unidos, em São Francisco, “pois a sua família já lá estava”.

Leonardo garante não ter qualquer ressentimento para com o pai: “Tendo em conta que ele não tem qualquer sentimentos para comigo, considero que não tem qualquer obrigação”. Apesar da afirmação, Leonardo, contra todos os obstáculos, fez sempre questão de reivindicar o seu legítimo direito à nacionalidade portuguesa. Porque sim.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

 

 

 

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