O Encontro das Comunidades Macaenses na RAEM (resistindo ao tempo)

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No mês de Novembro de 2016, Macau será palco de mais um Encontro das Comunidades Macaenses que irá mobilizar toda a comunidade local residente, reforçado pela vinda de elementos das diásporas do mundo, que continuam a teimar em marcar a necessidade de perpetuar a sua identidade de pertença singular e que os faz retornar à sua terra de memórias e vivencias conjuntamente com outros que nunca sequer a visitaram e cuja condição da naturalidade não é motivo da sua exclusão identitária.

Esta configuração multifacetada da forma de ser e de sentir a condição de macaense traz-nos de novo à “velha” questão de saber quem são afinal os macaenses? As respostas, também elas são múltiplas e diversificadas, dependendo da contextualização que cada segmento vai dando ao seu modo de interiorizar essa questão, ora rejeitando, ora incluindo, aqueles que independentemente das formulações, se limitam a dizer (a afirmar) que são macaenses sem a necessidade que alguém os defina como tal.

Decorridos que estão cerca de 23 anos após o primeiro Encontro da Comunidade Macaense realizado em Macau em 1993, continuamos a forjar um movimento perpétuo dessa condição de exaltação e de festividade que se vai cristalizando em momentos que se repetem de 2 em 2 anos como de uma celebração se tratasse.

Os estudos (ou reflexões) mais recentes sobre a identidade dos macaenses, resvalam já para um período de adaptação aos contextos de mudança que se iniciaram com a transição do território para a denominada RAEM, assim sendo, o historial dos Encontros das Comunidades Macaenses poderá ser também, um elemento analítico dessa mesma adaptação, ou seja, o que se passou até 1999 e o que tem sido os Encontros após essa data.

Qualquer pesquisa realizada no âmbito das Ciências Sociais sobre identidades colectivas procurará sempre compreender as dinâmicas que lhe estão associadas, visando esclarecer o seu modo de enquadramento nas sociedades que os acolhem.

Em boa parte a comunidade macaense, a exemplo das demais comunidades globais, tende a adaptar-se a conjunturas de manutenção, assumindo a volatilidade das estruturas básicas que estão na sua origem. À semelhança do que se vai passando com as consequências da globalização nas identidades nacionais, as mesmas ou são mitigadas (chegando nalguns casos a desintegra-se) por efeito do crescimento da homogeneização cultural, ou se reforçam pela resistência à padronização dessa mesma globalização, ou seja, vão admitindo novas formas de recriar as identidades (leia-se identidades híbridas) que na sua dinâmica de reformulação vão-se adaptando como elemento de manutenção.

Tendo em consideração o suposto análogo do percurso da identidade macaense ao longo destes últimos 16 anos do período pós transição –  que oscila entre o medo do fim e o reforço dos símbolos e práticas identitárias, entre outras situações – percebe-se que os macaenses vão (e estão) defendendo a sua memória colectiva, reconstruindo a sua afirmação identitária e desenhando estratégias de perpetuação dos seus distintivos traços socioculturais.

Neste âmbito merece já destaque a redescoberta de alguns dos seus traços identitários, tais como: a cultura gastronómica, o seu crioulo (o patuá macaísta) e a literatura macaense, que ressurgem como referenciais identitários e que se vão propagando, quer em Macau, quer nas diásporas por esse mundo fora, são entre outros, elementos de congregação para os eventos sobre Macau e macaenses.

O mais importante por ora, será talvez compreender a respectiva intervenção, quer em termos simbólicos, quer ao nível das dinâmicas subjacentes, das formas da contínua adaptação às peculiaridades da RAEM.

Esta ponte interpretativa entre o modo como se auto-avaliam os macaenses e o como se revêm na nova realidade que é a RAEM, poderá auxiliar-nos a entender e a compreender melhor o que é de facto a identidade macaense hoje, talvez estejamos já numa fase em que a própria identidade é ela mesma múltipla, diversificada e apropriada a cada contexto distinto.

 

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(o texto não segue o acordo ortográfico em vigor)

 

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa. Escreve neste espaço uma  vez por mês.

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