O SENTIDO da ETERNIDADE

1.Luis Sequeira

Nesta semana,  celebrámos tanto a festa de Todos os Santos como a dos Fiéis Defuntos. Ao mesmo tempo, o Evangelho deste Domingo, o Trigésimo Segundo do Ano Litúrgico proclama as palavras do Senhor Jesus que nos diz: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. Mas aqueles que forem dignos de tomarem parte na vida futura e na ressurreição dos mortos, nem se casam nem se dão em casamento. Na verdade, já não podem morrer, pois são como anjos, e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus.»

O ponto fundamental que desejaria focar aqui é que a Ressurreição dos mortos  é uma realidade da vida de todo o ser humano.  Jesus Cristo afirma-o muito claramente e a comunidade cristã, espalhada por  todo o mundo e inserida em tão diferentes povos e culturas, acredita. Sim, para crer que, para além da morte, existe algo mais, precisamos do salto da fé e fé em Jesus Cristo, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. Ele, que não só o proclamou em palavras desassombradas, como também o provou  com o seu próprio corpo. Ele, o Senhor, experimentou a morte, mas, ressuscitando, afirmou – categoricamente – a vitória sobre a morte e o mal  e ainda a existência de algo bem mais superior que à nossa terra, o Reino de Deus, a Eternidade em Deus.

Assim, se esta ‘vida terrestre’ é transitória e torna-se, nitidamente  preparação para uma ‘vida celeste’, não admira que Jesus Cristo, o Mestre Divino, nos aconselhe, com veemência, à liberdade interior tanto em  nós, como para com as outras pessoas ou ainda  em relação à matéria e aos bens materiais. Pode-se, então, perceber o seu discurso a mostrar quão ilusório é para aqueles que estão convencidos que a felicidade é ter dinheiro, glória e poder: «Insensato! Esta mesma noite serás chamado». Nada mais resta que a nudez e a fragilidade.

Nesta mesma ordem de ideias  entra um aspecto que talvez nunca tenhamos considerado. O próprio casamento, segundo o Evangelho deste Domingo, por mais que seja intrínseco à natureza humana, mesmo sagrado ou criado à semelhança do amor divino, permanece e permanecerá, sempre e apenas, uma realidade deste  mundo que é o nosso. Estruturalmente, nós, homens e mulheres, somos chamados a viver eternamente com Deus. Toda experiência  humana deve ser sempre guiada para esse encontro com Deus.  Deus que é Amor. E todo o amor humano, por mais sublime que possa ser,  não se pode comparar com o Amor Divino, desaparece em Deus. Diz São Paulo:«Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem imaginação humana consegue imaginar o que espera àqueles que amam a Deus.»

Como sempre, atrai-me olhar também para a experiência espiritual, a partir da realidade do homem ou da mulher que por ela passam. Aqui, portanto, trata-se de perceber como o ser humano,  nos seus últimos momentos,  tem uma profundíssima inclinação a libertar-se de tudo o que é material e terrestre e, apenas buscar aquilo que é ‘do alto’, mais espiritual e mais divino. A vida, no meu ministério sacerdotal, trouxe-me situações de pessoas na ‘agonia’ de deixar este mundo e os seus e partir ‘em paz’ para Deus.

A uns, numa perspectiva mais global e de conjunto, deixam-nos compreender que há um caminho a ser percorrido. Começam  por uma grande ‘recusa ou negação’ da realidade dos ‘últimos momentos’. Depois, reagem com ‘irritação ou agressividade ou fúria’. Em seguida, como num movimernto pendular, entram em tristeza profunda ou depressão. Num momento mais positivo, e colhendo-nos com surpresa, começam como que a comerciar sobre a realidade, a dar sentido aos acontecimentos, muitas justificações  aos passos da vida. Enfim, pouco a pouco a calma toma o seu lugar e a paz inunda-a e abandona-se em Deus.

A outros e seguindo um ‘caminho interior’, fazem, no íntimo do seu coração, um profundíssimo exame de consciência. Entram na sua ‘angústia’. Surgem, primeiro, as questões sobre a Verdade. Terei sido sempre verdadeiro, honesto, coerente? E  no Amor ? Amei com fidelidade, no mais secreto do meu coração? Estando ‘nos últimos momentos’, perguntar-se sobre o sentido da Vida, é crucial. Porquê eu deixar esta Vida? Por fim, como Jesus, meu Deus porquê? Todo este questionar também nos leva  ao abandono, à paz em Deus.

Outros ainda fazem a experiência, muito unidos a Jesus, e, com Ele, também gritam  e choram: « Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?» O profundamente humano toca o profundamente divino!

 

Luís Sequeira, sacerdote e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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