Sopro de Pak Tai: Conversas de Hutong

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Continuamos na companhia de Leonardo Veiga, pianista chinês luso descendente que pugna pela obtenção da nacionalidade portuguesa a que tem direito, e que esta semana traz ao nosso convívio alguns dos seus melhores amigos, recordando os árduos tempos da Revolução Cultural.

“Você nem sabe a oportunidade que está a ter”, atira Hua Lan, professor no Amherst College, Estados Unidos, mas natural de Pequim. “Esta senhora”, Hua Lan refere-se a Yu Cheng, “é filha de Yu Ping Ho, uma dos mais ilustres académicos da China, referenciado na obra da romena Vera Schwartz, Chinese Enlightment”.

Tudo se desenrola como num filme. Estacionamos o Wolkswagen Santana numa das ruas interiores, longe das grandes avenidas e penetramos num pequeno pátio interior, com plantas, gatos (gatos em Pequim!) canteiros, portas e janelas envidraçadas. Um minutos depois, estamos sentados em volta de um hot-pot, enquanto Francesca e Rachel, filhas de Peter (o amigo inglês de Leonardo),  ao piano, comprovam a excelência do trabalho do professor luso-descendente.

“Há uns anos atrás, uma situação destas seria impossível”. Hua Lan é um velho amigo de Yu Cheng e ambos partilham profundos laços de amizade com o anfitrião: Fu Weci, um  dos mais famosos tradutores chineses.

“Há-de voltar aqui quando for Verão, poderemos então ficar a conversar longamente”. Fu Weci, recebe-nos no pequeno pátio, e quase que me monopoliza mal entro em sua casa. Depois de uma chávena de chá, conduz-me a um cubículo lateral, que lhe serve de escritório e quarto. Depois de vasculhar num monte de livros e de múltiplas quinquilharias, o professor mostra-me os álbuns de fotografias de viagens. “Viajo por toda a China. E tenho uma mulher extraordinária que me encoraja a isso. Ainda até pouco tempo acompanhava-me nessas deslocações, mas a actual debilidade do seu estado físico não o permite”. O professor mostra-me ainda a sua invejável colecção de moedas de todo o mundo, da qual constam peças únicas das ex-possessões ultramarinas portuguesas. Mas a numismática, a filatelia e a fotografia são apenas passatempos. Profissionalmente, Fu Weci encontra-se a braços com uma obra de Graham Green: “Encontrei estas palavras no livro e não as compreendo. Veja lá se consegue arranjar alguém que as traduza”, pede-me enquanto me estende uma folha com algumas frases em latim. “Em Macau há muitos padres, certamente algum deles me poderá fazer esse favor”.

Tal como o avô de Leonardo, também Fu Weci sofreu muito na pele os efeitos da revolução cultural. Mas prefere não falar disso.

E por falar em Revolução Cultural… Em 1964, com 18 anos, obtido o diploma e com bons resultados que lhe permitem ingressar no Conservatório Central, Leonardo vê recusados os seus anseios devido ao passado do avô, o facto do pai ser um estrangeiro e a mãe uma «má chinesa».

“A minha mãe chegou a escrever inúmeras cartas ao governo pedindo-lhes explicações, mas nunca obteve qualquer resposta”, lembra ele com algum amargor.

Para compensar, Leonardo dedica-se ao estudo do chinês com a ajuda do avô, enquanto a mãe lhe ensina inglês. Pouco antes da Revolução Cultural vai, como voluntário, viver no campo, nos arredores de Pequim, numa altura em que o governo incentivava a juventude a ir “aprender com os camponeses”. Com esta sua atitude, Leonardo espera «redimir» o passado da família e, como recompensa posterior, poder ingressar na Academia de Música, o sonho que tanto ambiciona.

Engana-se. A Revolução Cultural vem estragar os planos. Divide a família, enviando os seus membros para diferentes pontos do país. Leonardo permanece no campo doze anos. Em Pequim, o pátio da casa, de que tantas recordações guarda, é destruído pelos guardas vermelhos e todo o espólio da biblioteca do seu avô queimado. Os avós são enviados para a província de Henan e aí recebem maltratos, são espancados. “À avó, rapam-lhe o cabelo”, recorda. A irmã, Wei Mei, é obrigada a partir para Saanxi enquanto a mãe permanece em Pequim, onde passa a viver num pequeno espaço de onze metros quadrados e limpa as ruas diariamente. A casa antiga ainda hoje existe, mas no interior do enorme pátio de outrora foram erguidos blocos residenciais. “Está irreconhecível”, garante Leonardo.

(Concluiremos na próxima crónica a história de Leonardo Veiga).

IIM LOGOTIPO - 2015 (19)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras. A título excepcional, o “Sopro de Pak Tai” é publicado esta quinta-feira.

 

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