O retorno dos imbecis

 

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De repente, as redes sociais, com toda a sua parafernália tecnológica, não são exatamente um espaço da liberdade e da modernidade. E, muito menos, espaço de tolerância e de humanização. As opiniões, quando postadas, passam pelo escrutínio dos moralistas de serviço e dos que, à esquerda e à direita, como se tudo se resumisse a gregos e a troianos a que se devam agradar, transformam um simples post no passaporte para o inferno astral.

E, se calhar não tão de repente assim, depois das denúncias de Edward Snowden, ninguém mais se sentiu livre e imune de ser vigiado e caçado no e pelo World Wide Web, havendo para cada um de nós os limites de uma grande censura e, certamente, de uma insidiosa autocensura, menos aparente, mas mais formidável do que o Muro de Berlim.

Todavia, tanto como as grandes agências que espiam e escutam, classificam, catalogam e indexam nossas informações – tudo o que acionarmos  nos smartphones, iPads, Blackberrys e os demais aparelhos dos vários sistemas operacionais -, quer estejamos no  Google, Apple, Facebook, Microsoft ou simplesmente a telefonar das nossas casas ou a usar um cartão de crédito no restaurante da esquina, as pequenas entidades, às vezes grupos de opinião e tribos de interesse pela net fazem as vezes da antiga Santa Inquisição.

As patrulhas do pensamento, cada vez mais profusas e difusas, por vezes mais próximas do que julgamos, com ares da moral e dos bons costumes, quando não armados em donos das verdades, impõem-nos condicionamentos à livre expressão, baseados no ditame das novas razões. Isto me remete ao que se sabe da Idade Média Europeia, aos hediondos regimes autoritários ainda pelo mundo e ao presente radicalismo religioso que pretende sacralizar o terror.

Tudo isso, que é presente e é recorrente, me veio a propósito da polémica criada e empolada em torno do jornalista português Joaquim Vieira, quando escreveu serem os jogos paralímpicos um espetáculo grotesco. A opinião foi tomada em contextos profusos e o jornalista entrou num turbilhão de críticas assanhadas e pedradas morais. Bem que Umberto Eco havia alertado (ele também recebera seu quinhão de pancada) sobre a contingência do “direito à palavra” a uma legião de imbecis que, do palco particular da tasca ou do café da esquina, ascendeu a um palanque global e tecnológico desta Ágora moderna.

Preocupa-me o inexorável retorno da dominação, trazendo à ribalta, hoje dos timelines, o drama de Galileu e, mais recentemente, de Rushdie, ambos perseguido pelo karma do silêncio. Os imbecis de ontem e hoje incomodam-me pelo prospeto do mito do eterno retorno.

À parte o “direito à palavra” dos imbecis e a responsabilidade que tal direito tem como consequência, incomoda-me extremamente a violência com que muitos reagem nas redes sociais. Em verdade, nem se trata de um direito à palavra, mas de uma pulsão pelo julgamento. E estou a me referir não apenas aos que se escondem em comentários “anónimos”, mas aos que, assumindo “corajosamente” sua identidade real,  covardemente  escrevem horrores, agem agressiva e deselegantemente quando se deparam com murais contendo afirmações com as quais não concordam, remetendo à fogueira e/ou à decapitação os detentores de opiniões divergentes.

Joaquim Vieira, que a mim não parece estar no circuito dos imbecis referido por Eco, talvez tenha extrapolado às redes sociais o que no café ou em casa seria melhor contextualizado e compreendido.  A síntese do seu post gerou uma celeuma que poderia ter sido evitada se mais fundamentada, o que veio a fazer dias depois, após ter sido agredido e ameaçado pelos justiceiros de plantão na rede.

Ainda assim, parece-me que foi muito positivo o comentário de Joaquim Vieira, que desencadeou um aceso debate sobre os jogos paralímpicos e levou aos “mansos de espírito” a coragem de se perguntarem a que aplaudimos quando aplaudimos um campeão paralímpico?  O que dizer do nosso desejo de não nos “incomodar” ver, viver ou conviver com as pessoas portadoras de deficiências? Serão os jogos, pela maneira como são produzidos e disseminados, elementos vitais e estruturantes para o afrontamento da discriminação a que os “portadores afinal da diferença” estão votados?

Obrigada, Joaquim Vieira, o seu post, polémico ou não, mostrou o incómodo de certos assuntos, quando afrontados fora do viés estabelecido, e que podem ser discutidos e “tematizados” em tascas e cafés. E, apesar dos censores de serviço, também no engodo e engano das redes sociais. Ou, ainda que não concorde com sua ideia, uma coisa é certa: você tem todo o direito de expressá-la.

 

Márcia Souto. Cronista brasileira radicada em Cabo Verde. Escreve neste espaço uma vez por mês.

 

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