Portugueses em Macau: Um olhar distanciado

 

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Concluído que está o segundo documentário sobre a temática da singularidade de Macau por via dos “olhares” de quem a viveu e a vive através duma linguagem (ou gramática social) que se expressa em português, cumpre-me tecer algumas considerações e mesmo alguma antevisão sobre o tema.

 

A razão deve-se ao facto da possibilidade de ter tido acesso à visualização antecipada do original (ainda não estreado) do documentário “Portugueses em Macau: O outro lado da história”, da Produtora LivreMeio com a assinatura de Carlos Fraga e Helena Madeira na realização e produção, autores que já nos deram há bem pouco tempo, uma visão sobre os Macaenses em Lisboa: Ilusão ou realidade e que mobilizou uma sala cheia no anfiteatro do Museu do Oriente na sua ante-estreia.

 

A contextualização da comunidade portuguesa em Macau alicerça-se na própria fundação de Macau e mistura-se na história do seu passado longínquo assim como nas vivências de um presente recente que incorpora a nova RAEM (Região Administrativa e Especial de Macau), marcando o quotidiano dessa terra, tão longínqua e tão próxima, onde as memórias se misturam com as emoções e as vivências produzem os afectos que continuamos a sentir por ela, permitindo de alguma forma que o seu enquadramento na vida social se vá ainda demarcando pelo direito à diferença relativamente a outras presenças que por lá (aí) vão salpicando.

 

A particularidade da abordagem que agora o documentário nos traz, fala-nos pois um pouco desse sentimento e desse direito de pertença, daí a importância dos relatos que fundamentam hoje a presença dos Portugueses em Macau, já não é só pela sua herança histórica, por demais justificada, mas também pela forma como os Portugueses em Macau absorvem o sentimento de pertença fazendo com que sejam também eles elementos dessa singularidade.

 

As declarações e os depoimentos visualizados no documentário que agora se apresenta, conferem ao tema dos Portugueses em Macau um sentido genuíno das suas vivências e dos seus sentimentos, pelas suas palavras e pelos seus rostos, percorremos um caminho que pode marcar a perpetuação de um futuro onde a sua presença é elemento estruturante da sociedade e não apenas uma presença fugaz de elementos dispersos ou meramente assente na vã busca de uma emigração de uma vida melhor.

 

Os testemunhos relatados saem informalmente e sem a pretensão de um discurso estudado ou cuidado para justificar o que quer que seja, apenas nos contam pontos de vista de portugueses que vivem em Macau e como sentem a terra que também é deles mesmo que oficialmente estejamos hoje, em território chinês com a denominação de uma Região Administrativa Especial, integrada na República Popular da China chamada de Macau.

 

Esta nova forma de abordar o tema de Macau leva-nos para um patamar onde a questão da inclusão desta comunidade como elemento “vivo” da realidade social deva ser tratado como elemento de diferenciação e de caracterização e que, ao contrário do que possa parecer ou transparecer, não se vai ancorar na base economicista dos seus actores (apesar da mesma poder estar presente) mas sim na estruturação (ou pelo menos numa das razões) do modelo social que a torna singular.

 

Macau, sem a presença dos Portugueses (aqui incluindo o segmento dos macaenses filhos da terra) não será por certo a sociedade que hoje transparece, os depoimentos que o documentário nos traz são disso um exemplo, quer pela via institucional, associativa ou meramente individual, a alma de Macau ainda repousa nesta minoria que lhe vai dando o colorido que a distingue dos demais espaços da Asia no geral e da China em particular.

 

A ante-estreia (aqui em Portugal) apenas está prevista para meados de Janeiro de 2017, com a possibilidade de passagem em data a anunciar na RTP2. Nessa altura provavelmente voltarei ao tema mas, desde já fica o meu reconhecimento a todos aqueles que colaboraram no documentário dando as suas palavras e o seu rosto ou apenas em tarefas de bastidor, com especial nota de apreço à Casa de Portugal em Macau que partilhou desde cedo com o alinhamento desta faceta que marca a presença dos Portugueses em Macau.

 

 

“A presença dos portugueses residentes em Macau transparece a alma lusófona que legitima o próprio lugar, são eles que dão corpo, no dia-a-dia e no quotidiano que se vive, à singularidade que caracteriza o lugar, com eles vivemos as emoções e a pertença a um lugar que também é parte da sua vida”.

(extraído da cronica de 7/Outubro/2015 Ponto Final)

 

 

 

 

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Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

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