Jogos Paraquê?

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Percebe-se o esforço do Comité Olímpico Internacional para dar aos Jogos Paralímpicos a mesma dignidade que têm os Olímpicos, e percebe-se igualmente o sentido de missão das televisões no assegurar de alguma informação sobre os mesmos. Mas logo neste ponto começam as diferenças, com uma emissão mais reduzida na RTP, uma transmissão da cerimónia de abertura onde foi notória a falta de informação (ao contrário do que acontece com os Olímpicos, aqui os atletas eram quase sempre apenas atletas e não nadadores, maratonistas, saltadores, etc) e a certeza de que, em casa, não poderemos vibrar tantas vezes com as provas como há um mês.
Haverá algum motivo para que Olímpicos e Paralímpicos decorram em separado? Há a logística, claro, mas não parece um argumento impossível de contornar. Desportivamente, o que leva um Comité a separar desportistas em função das suas capacidades, colocando uma fronteira absoluta a partir de determinado grau de incapacidade? Qual é o grau, quais são as capacidades, como se mede tudo isto para que possa tornar-se aceitável? Dir-me-ão que não é justo colocar na mesma prova alguém que usa as duas pernas para correr e alguém que corre sentado numa cadeira. Certo, do mesmo modo que não é justo colocar em combate um judoca de 50 kg e um de 100 kg, e é por isso mesmo que há categorias no judo – mas no fim, é tudo judo. Seria impossível termos uma prova olímpica onde os atletas fossem apenas atletas e competissem nas categorias apropriadas para que um mínimo de justiça assegurasse a competição? E onde os desportos fossem frequentados por quem quisesse, desde que as regras fossem iguais para todos? Por exemplo, basquete em cadeira de rodas só pode ser jogado por pessoas que não se locomovem sem a cadeira? E isso tem sentido? Se sentarmos um jogador com as duas pernas funcionando em pleno numa cadeira adaptada e o prendermos, damos-lhe as mesmas condições para jogar basquete em cadeira que a todos os outros. É um desporto, joga-se em cadeiras, não tem de ser um “desporto para incapacitados”. O mesmo acontece com o futebol, que nos Paralímpicos se joga sem o recurso à visão e com uma bola que tem dentro um sino. Veja-se o anúncio recente da UNICEF, em que a equipa do Barcelona defronta a equipa espanhola deste futebol num duelo de penaltis, usando, para assegurar a igualdade, vendas nos olhos. Não é preciso ser-se cego, basta que não se utilize a visão e esta pequena mudança de ângulo é a que, parece-me, podia juntar Olímpicos e Paralímpicos numa só competição.
A questão não é nova nem original, descubro depois de uma pesquisa rápida na internet. Os primeiros Jogos Paralímpicos aconteceram em 1960 e só em 1992 são organizados conjuntamente com o Comité Olímpico Internacional, associando-se aos Jogos Olímpicos. O que mudou nesse caminho não tem por que parar, pelo menos é o que pensam vários atletas, que defendem a junção das duas competições numa só. Outros há que acreditam ser essa junção uma má ideia, pelo protagonismo que roubará ao desporto praticado por atletas com alguma espécie de incapacidade física ou mental.
Com a prática desportiva deixada lá longe, numa biografia que passa mais pela biblioteca e o sofá, parece-me que na ânsia de atalharmos caminho para a inclusão, meta tão desejável, talvez nos esqueçamos que há coisas que não precisam de ser separadas para depois para elas reclamarmos igual estatuto. Os Jogos Olímpicos podiam ser apenas os Jogos Olímpicos, com atletas concorrendo em provas de diferentes categorias, como aliás já acontece. Poupávamo-nos aos discursos bem intencionados e à escandalosa diferença de tratamento (televisivo, de patrocínios, etc) entre as duas provas. Se calhar, assistiríamos a quatro atletas que concorreram nos Paralímpicos a ganharem o ouro nos 1500 metros, visto que correram mais depressa que os atletas dos Olímpicos. E ganhávamos em conhecer outros desportos e outros modos de alcançar objectivos semelhantes. Como inclusão, parece-me mais eficaz do que todos os anúncios feitos para dizer que os atletas com alguma espécie de incapacidade são iguais aos que não a têm. Ninguém é igual a ninguém, o que nos cabe é garantir que toda a gente tem acesso aos mesmos direitos, inclusive os desportivos. Isto digo eu a partir do sofá, onde me sinto tão incapaz de acompanhar Usain Bolt nos 100 metros como de projectar o judoca Miguel Vieira, que se classificou em 9º lugar nos Paralímpicos, no tapete.

Sara Figueiredo Costa, jornalista e critica literária. Editora do suplemento “Parágrafo”, publicado uma vez por mês no PONTO FINAL.

 

 

 

 

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