O sopro de Pak Tai: Yasuke, o samurai negro

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Num permanente comutar de um lado para o outro, o japonês é o protótipo do passageiro aborrecido, pronto a consumir tudo o que o ajude a matar o tempo, sendo por isso o alvo ideal de todas essas revistas de cordel que proliferam no mercado como cogumelos em terreno húmido, em todos os tamanhos e feitios. As revistas de banda desenhada (em japonês, “manga) são um negócio muito lucrativo. As mais populares saem semanalmente e contêm várias centenas de páginas, o que faz delas autênticas Páginas Amarelas impressas em papel de jornal de várias cores.

Revistas de “mangapodem ser adquiridas, ainda com o cheiro a tinta, nas bancas ou nos minimercados abertos 24 horas, junto às Noodle Cup, barras de Sneakers ou pacotes de saquê Tetra Pak. Podem obter‐se ainda, gratuitamente, em segunda, terceira ou quarta mão, nos caixotes do lixo, bancos de jardins públicos ou nos porta‐bagagens dos comboios, que funcionam como uma biblioteca itinerante.  

O conteúdo das histórias dessas bíblias de consumo fácil (lidas pela população masculina, sobretudo estudantil, embora exista um mercado paralelo, mais reduzido, destinado ao público feminino), a julgar pelas imagens – já que as palavras são um enigma para quem desconheça as três diferentes formas de escrita japonesa –, é banal e o desenho estereotipado. Os ingredientes são os habituais: violência, sexo, humor e desporto. Em todos os números surgem, fatais como o destino, as habituais historietas de basebol, o desporto‐rei; de sumo, o desporto nacional; e de golfe, a paixão do salaryman. Contudo, o que mais chama a atenção é a presença de um erotismo pornográfico bastante evidenciado. E aqui o «complexo de Lolita» – que aflige uma parte da população masculina, no Japão – transparece nitidamente. Mas, para que não os acusem de imorais, os censores puritanos encarregam‐se de ocultar as partes íntimas com um pequeno quadrado negro ou mesmo apagando a imagem, pois há uma lei no Japão que proíbe a exibição de pêlos púbicos em público.

Mas é claro que há excepções à regra e podemos encontrar “manga” de excelente qualidade. A acrescentar aos géneros atrás citados, ressalvo a “manga” de teor histórico, que me interessa de sobremaneira. Cito, a título de exemplo, a “Afro Samurai”, inspirada em Yasuke, pretenso primeiro e único samurai negro em terras do Sol Nascente. Arribou ali no distante ano de 1579, na condição de escravo, sendo seu senhor e mestre o jesuíta Alexandre Valignano, que o levou com ele à corte de Nobunaga, onde foi motivo de muita atenção e espanto, pois “era um homem negro nunca antes visto em Quioto”, e, por isso,“a multidão acotovelava-se para apreciá-lo”, como nos dá conta o jesuíta Luís de Fróis, o seu primeiro fisionomista, em carta enviada ao seu colega Lourenço Mexia.

Se até então os negros que integravam as guarnições da Nau do Trato e demais embarcações (bem os vemos retratados nos biombos namban) que mercadejavam entre Macau e os portos nipónicos não deixavam os navios, quando muito deambulavam pelos cais, Yakuse (de origem congolesa, para alguns historiadores; moçambicana, para outros; etíope, para os demais) teve o privilégio de visitar e conhecer o unificador do Japão e de tal modo o impressionou que este o convidou para a sua guarda pessoal, estatuto que honraria com tal lealdade e destemor ao ponto de lhe ter sido concedido, ao que parece, o estatuto de samurai. Tal era a empatia – reza ainda a história – que Nobunaga lhe concedeu em casamento uma das suas filhas adoptivas. Fosse ou não samurai, a verdade é que, desde então, a figura de Yasuke se impôs no imaginário popular do Japão.

Antes de virar trama de manga, a história deste gigante africano (consta que tinha quase dois metros de altura) vagabundeou como personagem de histórias infantis – o “Kuro-suke, lançado na década de 1940, com palavras de Yoshio Kurusu e ilustrações de Genjirou Minoda – e uma série televisiva da NHK, “Nobunaga, rei de Cipango” onde é chamado de Sotero.

Mas, “o que tem isto a ver com Macau?”, questionar-se-á, com toda a legitimidade, o caro leitor. Pois, tem tudo a ver, já que Valignano antes da partida para o Japão permaneceu em Macau durante um ano, e nessa altura acompanhava-o já o servo africano, se bem que não se conheça qualquer referência nos escritos do visitador. Assim sendo, Macau constituiu a primeira experiência do Extremo Oriente para o africano. Seria interessante saber quais as suas impressões sobre tão estranha realidade e como foi aqui recebido, se bem que já então fosse usual a presença de negros na cidade. Se não há qualquer registo conhecido da passagem de Yasuke por Macau, há-o nas crónicas japonesas da época que equiparam a cor da sua pele “à cor do carvão” e a sua força “à de um touro, maior do que a de dez homens”.

Luís de Fróis menciona por diversas vezes Yasuke nos relatórios que envia para Roma, relatando-nos um episódio que, pelo insólito, ficaria para a história. Quanto Nobunaga conheceu o escravo ficou de tal forma impressionado que “ordenou que lhe tirassem a roupa e o banhassem para ter a certeza que o seu tom de pele era natural”. Contudo, ao invés de perder a cor, quanto mais era era lavada mais “se tornava negra e luzidia” a pele de Yasuke.

IIM LOGOTIPO - 2015 (19)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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