Ecos de Miguel de Arriaga

 

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A história ensina-nos que em períodos de mudança mais forte, o pêndulo oscila de um extremo para o outro sem nunca ficar no meio. Foi num desses períodos que o Ouvidor Miguel de Arriaga colocou a sua impressão digital nos destinos de Macau. Portugal, acossado pelas invasões napoleónicas, assistia à deslocação da Corte para o Brasil (criando as condições perfeitas para a futura independência da colónia), algo que também viria a aquecer o caldeirão de onde nasceria o liberalismo português. Por outro lado colocaria Portugal, desfeito o sonho unificador de Napoleão, na órbita da Grã-Bretanha que, durante décadas se tornou a grande potência mundial. Macau era apenas um porto que, no meio deste intenso xadrez político, económico e global, procurava sobreviver. Tendo nas suas costas o imenso, e aparentemente calmo, poder imperial chinês. Miguel de Arriaga viveu neste período labiríntico, onde era quase impossível lutar contra poderes mais vastos do que aqueles, longe do poder central, que detinha em Macau. Aliou táctica e estratégia e conseguiu criar um modelo para o território. Foi uma influência determinante num romance que escrevi há uma década, “O Navio do Ópio”, que o colocava como o cérebro de uma plantação experimental de ópio no Porto Santo (Madeira) com vista a conquistar o mercado americano. A empresa soçobraria devido aos interesses britânicos. Mas fiquei sempre fascinado pela sua figura e pela sua ascensão e triste ocaso em Macau. O desafio mais difícil para um político visionário é sempre sobreviver ao seu próprio êxito. Sobretudo para quando as memórias do passado se convertem numa moléstia permanente para quem lhe sucedeu.
Miguel de Arriaga fez com que um pequeno porto, que vivia do comércio e da diplomacia, sobrevivesse a todas estas vagas de águas turbulentas. Numa altura em que o império britânico buscava um polo permanente para a sua presença nos mares da China. Não era um acaso. A East India Company britânica tinha apetites monstruosos para sistematizar o seu negócio triangular entre a Índia, a China e a Grã-Bretanha. A zona de Cantão tinha vantagens naturais, na localização e também na topografia, que lhe conferiam um lugar de destaque para a possibilidade do comércio com o exterior. Os ventos da monção permitiam aos navios percorrer o Oceano Índico, os mares árabes e do sul da China. Quando a monção acabava em Outubro, os navios continuavam em Cantão para uma temporada de quatro meses de comércio, porque os ventos da monção de nordeste começavam em Janeiro e eram o fôlego necessário para o regresso à Índia e à Grã-Bretanha. A zona do rio das Pérolas era perfeita para o comércio. Hong Kong não nasceria de um acaso.
Nada de tudo isto, e da própria actividade de Miguel de Arriaga, podem ser dissociado da acção tentacular e predatória da East India Company que, no seu auge, tinha um exército particular de 200 mil homens, mais do que muitos Estados europeus. Monopólio independente do Estado britânico, mas ligado a ele por interesses dos seus próprios investidores, garantiu a acumulação de capital que as elites portuguesas, por exemplo, nunca aspiraram. São hoje conhecidas as actividades políticas da East India Company no exterior, para corromper líderes locais em troca de benefícios comerciais. Não só providenciava o Estado britânico com impostos, mas alargava a sua esfera de influência política tendo como base o comércio e funcionava como inovadora na arte de governar. A criação do conceito de funcionário público baseia-se em muito na forma como administrava o seu vasto império. O seu poder começou a eclipsar-se na altura em que Miguel de Arriaga governava Macau. A sofreguidão dos accionistas fez com que a East India Company começasse mais a pensar nos lucros do que no simples comércio. Adam Smith criticou-a como um monopólio pouco exemplar. Foi nesse momento de fraqueza da companhia britânica que Miguel de Arriaga viu a hipótese de Macau ganhar um quinhão no lucrativo negócio do ópio e do comércio entre a China, a Europa e a América. Faltou-lhe o músculo e sobrou-lhe o conhecido desinteresse com que a elite de Lisboa e Rio de Janeiro olhavam para Macau. Foi um personagem fascinante. A que, por certo voltarei um dia.
Fernando Sobral, jornalista e escritor. É o autor de “O Segredo do Hidroavião” e “As Jóias de Goa”.

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