O Sopro de Pak Tai: As “peipeis” de Perckhammer

 

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Conheci Huang Zi, uma dessas esbeltas chinesas da região de Xangai, na recepção de um pequeno hotel em Lasa. Nos breves minutos em que trocamos impressões (nessa já longínqua década de 1990) deu-me a conhecer a sua paixão pela paisagem do planalto tibetano e pela sua gente. Com um sorriso cativante estampado no rosto mostrou-me o seu caderno de desenho com os esboços que tinha feito durante um mês de viagens efectuadas pela região. Estava de abalada. Voltamo-nos a encontrar um ano depois. Em Pequim. Acabara de se formar em gravura na Escola de Artes Plásticas Etching, a única do género em toda a China. Situada no centro de Pequim, numa travessa paralela à movimentada zona comercial de Wangfujing, aparentava ser apenas mais um dos muitos edíficios estatais deixados ao desleixo. No entanto, no fim de cada ano lectivo, licenciava-se aí a fina flor dos artistas plásticos chineses.

Huang Zi Tinha vários trabalhos seus – integrados numa mostra colectiva – expostos na galeria da escola. Falava-me do Tibete e dos tibetanos de uma maneira muito singular. Vi, com agrado, que a semente tinha germinado e dado um valioso fruto.

Recebeu-me no modesto quarto que partilhava com sete colegas suas: quatro beliches, várias estantes com livros, uma mesa e algumas cadeiras. Aí viviam e conviviam as oito jovens. Não se pode dizer que as condições fossem as melhores. Na China dessa época a privacidade era um verdadeiro luxo.

Foi no decorrer dessa minha visita que Hung me falou do fotógrafo tirolês Heinz von Perckhammer, “conhecido pelos seus nus chineses e cenas de rua de Pequim”, algumas das quais de templos e monges budistas tibetanos, daí o interesse da pintora chinesa. Com a curiosidade espicaçada, logo  procurei saber mais sobre o mencionado artista austro-húngaro, que em 1928 publicou em Berlim dois volumes com fotografias suas: um deles, com as tais “cenas de rua de Pequim”; o outro, intitulado “a cultura do nu na China”, com mulheres chinesas inteiramente despidas, em poses cuidadosamente estudadas, e com uma particularidade. Todas elas viviam em Macau, ou melhor dizendo nos muitos bordéis de Macau.

Perckhammer nasce em Merano, império austro-húngaro (hoje cidade italiana), a 3 de Março de 1895. Em plena Primeira Grande Guerra, integra a guarnição do vapor “SMS Kaiserin Elisabeth” que participa no cerco de Tsingtao, tendo sido feito prisioneiro de guerra pelos japoneses na sequência da missão militar. Após a sua libertação, em 1919, Perckhammer permanece na China durante alguns anos e terá sido nessa altura que visita Macau, muito provavelmente as casas das “peipeis” da Rua da Felicidade, onde virá a imortalizar algumas das suas residentes. Nada mais se sabe acerca das suas vivências asiáticas, a não ser que consegue levar clandestinamente as arrojadas fotos, “de jovens mulheres chinesas, algumas quase adolescentes, em poses românticas”, para a Alemanha.

Um ano após a publicação da polémica obra, em 1929, Perckhammer, agora fotojornalista ao serviço do semanário ilustrado berlinense “Die Woche” acompanha o dirigível LZ 127 Graf Zeppelin na sua volta ao mundo. Sabe-se que em 1932 Perckhammer tem estúdio próprio em Berlim e se especializara em nus e fotografia de moda. No final de 1930 algumas de suas imagens são utilizadas como propaganda pela KdF (Kraft Durch Freude), movimento de massas patrocinado pelo partido nazi, e durante a Segunda Guerra Mundial Perckahmmer serve nas Waffen-SS como fotógrafo de guerra. Curiosamente, os nacional-socialistas acabam por colocar o seu livro no index, a denominada “lista de escritos nocivos e indesejáveis”, razão pela qual apenas algumas cópias sobrevivem intactas aos horrores da guerra. Outro dos factores que contribuem para a sua escassez é a técnica de encadernação utilizada. Com o passar do tempo, a apertada faixa de seda da lombada faz com que as páginas se rasguem sempre que o livro é totalmente aberto. Isto, apesar da qualidade de impressão ser excelente, como excelente era a escolha do papel.

Com o estúdio bombardeado (em 1942) e o fim da guerra, Perckhammer opta por regressar a Merano, onde vive até à sua morte, ocorrida a 3 de Fevereiro de 1965. Hoje, Heinz von Perckhammer é considerado um dos “grandes fotógrafos alemães desconhecidos”, e os seus livros verdadeiras raridades, sendo, por isso, muito procurados.

“Confesso que até gosto do seu trabalho, embora não suporte a arrogância que desde sempre manifestou, ao ignorar e desprezar a milenar arte erótica chinesa”, desabafava Huang Zi.

Recorde-se que Heinz von Perckhammer estava convencido de ter criado com as suas fotografias “algo de inteiramente novo e de valor na China”. De valor, sem dúvida que sim. Agora “novo”, nem por isso. Desde a antiguidade e até ao fim da dinastia Qing, a arte erótica sempre foi uma realidade na China, fosse na pintura, fosse na escultura. Não obstante, para o tirolês, as magníficas e hoje mui divulgadas ilustrações eróticas, mais conhecidas como “pinturas da Primavera”, não passavam de “caricaturas feias e sem interesse”.

 

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

 

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