O Sopro de Pak Tai:Touradas e outras toadas samatrenses

 

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Depois do lago Toba, na ilha de Samatra – principal chamariz da região do antigo reino dos menancabos, ou, melhor dizendo, em bahasa indonésio, os minangkabaus, tantas vezes mencionados pelos nossos cronistas de antanho – os arredores de Bukkitingi, capital cultural dessa etnia, a 930 metros de altitude, merecem-me curtas, mas atentas visitas. Primeira paragem em Tabek Patah, para apreciar as plantações de arroz, canela, café (a folha de café é utilizada como elixir para mil maleitas), pimenta (claro!), cana-de-açúcar, anis, coriandro e maça. Em Sungai Tarab, visito uma usina artesanal, junto a um moinho de água em tudo igual aos nossos, onde se produz uma guloseima chamada krassa, no fundo, uma fritada de nabo doce, envolvida em melaço líquido. A fábrica funciona em sistema cooperativo e a mão-de-obra é composta por dezenas de mulheres –  apenas mulheres – que esfiapam, fritam, metem e tiram das formas, e, por fim, empacotam os referidos nabos doces.

No mercado de Bukkitingi, além da krassa, há outra doçaria regional, como os bolos (na verdade, queques), os risoles (rissóis) ou as empadas de keju (queijo) à venda numa confeitaria mesmo ao lado de uma banca de jornais, onde sobressai a edição do dia do Bola, matutino desportivo de maior circulação na Indonésia. O Bola deles é habitualmente preenchido com as tricas do calcio, daí que não me tenha surpreendido ter visto (aqui há uns anos) a figura de Rui Costa estampada nos cartazes de maior destaque.

Em Batu Sangkar – centro da cultura tradicional dos Minangkabau –, as lutas de touros, que decorrem em dias de mercado, são de visita obrigatória. A esse respeito, houve quem me garantisse que as taurinas brigas, no decorrer dos quais os espectadores fazem apostas de muitos milhares de rupias, foram «introduzidas na ilha por portugueses de Macau». Em vão procuro referências históricas que possam comprovar essa informação, mas ela tem toda a pertinência, pois Samatra, privilegiado ponto de abastecimento da famosa pimenta, manteve estreita ligação comercial com Cidade do Nome de Deus quase desde a sua fundação.

Se, nas zonas costeiras de Samatra, a nossa influência se mostra abertamente nos rostos das gentes e no ferro dos canhões, no interior, passa praticamente despercebida. Há que visitar os museus e ficar atento ao que ali está exposto. Por isso me demoro nas salas do Rumah Gadang Payarugung, réplica do palácio dos rajás locais, transformado em museu, a poucos quilómetros da aldeia de Silinduang Bulang. Constato, por exemplo, que o traje de noivo tradicional dos menancabos, exposto numa das vitrinas da sala principal do rés-do-chão, só pode ter sido inspirado no vestuário português do século XVII. Expostos, com grande destaque, vários instrumentos de música ocidental, popularizados na ilha pelos portugueses, tais como cavaquinhos, rabecas e tambores de caixilho.

Nessa noite, ao assistir a uma apresentação cultural para turistas, levada a cabo pelo ensemble Gastarana, sou surpreendido pela sonoridade musical e pelos passos de dança que nos propuseram. Impressionante. Dir-se-ia música de fusão minhoto-javanesa!

A essa matéria tem dedicado extremada análise a etnomusicóloga australiana Margaret Kartomi, que conclui o seguinte: «No mundo da expressão malaia do litoral da Indonésia e da Malásia, coexistem três níveis de música ritual: a música pré-muçulmana, que se desenvolveu durante o primeiro milénio D. C., e que consiste principalmente em conjuntos de tambores e gongos; a música influenciada pelo Médio Oriente, que data do evento do Islão, sobretudo do século XV; e a música malaia de influência portuguesa, ligeiramente harmoniosa, que desenvolveu vários estilos desde o período de contacto do mundo malaio com os portugueses no fim do século XV.»

Convém recordar que essas melodias eram habitualmente executadas por grupos compostos por violas, banjos, cavaquinhos, uma flauta, um violino (biola), tambores e outros instrumentos de percussão, que acompanhavam um cantor ou uma cantora.

Creio bem ter presenciado nessa noite alguns dos diferentes estilos de Samatra, nomeadamente as cantigas de dança ronggeng, joget (joguete), lagu dua e sinadung, particularmente populares na costa oriental da ilha.

Como salienta Kartomi, «estas formas musicais sincréticas acompanham uma larga gama de danças, na maior parte executadas por casais, que respondem uns aos outros cantando uns versos improvisados».

Tanto em Samatra quanto na Malásia, essas danças incluem tari saputangan (dança do lenço), tari payung (dança do guarda-chuva), tari lilin (dança da vela), tari joget ou tari roggeng (dança com saltos rápidos) e tari dondang sayang (canção/dança de amor).

A presença em Samatra dessa sonoridade tão agradavelmente familiar é de tal ordem que até as canções que passam nos intervalos entre as maratonas de batida tecno da discoteca 2002, acabadinha de estrear, e que eu ouço no quarto da pensão onde estou alojado, me parecem um misto entre o forró brasileiro e o folclore minhoto.

IIM LOGOTIPO - 2015 (19)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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