O caderno de pessoas inesquecíveis

caderno-ata-200-folhas-caderno-para-secretariaCada momento vem com um sentimento que talvez jamais sintamos novamente. As coisas possuem uma emoção oculta, seja pelo valor que damos, seja pelo que representam.

Adalberto possuía a insegurança da passagem do tempo. Sabia que os sabores não se repetem em intensidade, então andava por aí com os olhos atentos – não queria perder a chance de registrar nada.

Talvez estivesse, naquele dia, repleto de uma insanável vontade de sair da rotina, mas era incapaz de simplesmente olhar para sua mulher e deixar tudo para trás numa viagem de férias, não conseguia sair de perto de suas coisas, numa diária reciclagem sentimental.

Virou a chave da porta ruidosamente e entrou no apartamento, deparando-se com Cláudia ao lado de duas malas no canto da sala. Ela o olhava com um desprezo que nunca passara por suas retinas.

-Só estava te esperando pra sair.

-Mas aonde você vai? – a gravata já estava frouxa sob o colarinho amassado.

-Não sei. Quero ir para qualquer lugar, mas não com você.

Ela tomou as malas e saiu pela porta dando as costas para ele. Adalberto não tinha ideia de que passava por uma crise em seu casamento, não tinha olhos para notar que perdia pouco a pouco sua amada esposa. Logo ele, que passava os dias valorizando os momentos, nunca deixando de indagar as belezas da vida, agora via sua mulher saindo pelo corredor rumo ao elevador como quem se liberta do cárcere para não mais voltar.

Cláudia estava deixando seu lar para sempre? Teria ela outro alguém? Por que não quisera conversar e resolver os conflitos que a perturbavam? O que se passava na cabeça dela àquela altura?

Adalberto era todo perguntas, sentindo um impulso quase insuportável de ir atrás dela e implorar que voltasse para casa, mas não se moveria para isso, ainda que o remorso pudesse ser mortal. Estava ciente de que, se todos aqueles anos fossem verdade, ela voltaria, e poderiam virar aquela página juntos. Ele estava disposto a esperá-la.

Então foi para o quarto, abriu uma das tantas gavetas de fotografias em que somente ele mexia, e tomou um álbum específico nas mãos, de dentro do qual tirou um caderno de cuja existência somente ele sabia.

Na primeira página velha, quase solta pelo tempo, lia-se: “Pessoas que não posso esquecer“. Uma série incontável de lembranças o alcançou: logo abaixo dos nomes de seus familiares, estava o nome da menina que o motivou a criar aquele caderno.

Ele perdera o contato com a moça pela necessidade de mudar de cidade, passando a conviver com a angústia de esquecê-la um dia, sendo obrigado a apagar todos os sonhos e momentos vividos. Aquele caderno passou a acompanhá-lo desde então, para que não esquecesse no passado quem deixou marcas inapagáveis em sua vida  – cada nome possuía uma carga emocional que só ele poderia sentir.

Adalberto abria o caderno quando se sentia triste, a fim de contemplar aquelas tantas pessoas na memória, sempre alcançando a efemeridade de sua tristeza, tal como a passagem daquelas vidas terrenas representadas no amarelo das páginas. Naquele instante, porém, o sorriso nostálgico não chegou, era apenas uma lembrança oculta, encoberta na falta de forças para erguer-se diante da ausência tão dolorosa de Cláudia.

Levantou a cabeça respirando profundamente na esperança de vê-la entrar pela porta do quarto com um ar de desistência, mas restou a ilusão. Ele estava sozinho com as fantasias que nunca realizaria.

Então tomou nas mãos um pedaço de papel dobrado ainda não percebido sobre a cômoda do quarto:

Talvez eu volte um dia, mas não espere. Rasgue meu nome de suas memórias, pois não basta ter lembranças, é preciso viver para construir novos momentos, o que eu nunca consegui fazer com você. Não sou mais seu bibelô, agora aprendi a me amar. Cláudia

Aquele pedaço de desabafo agora é parte do caderno de lembranças de Adalberto. Sozinho à luz da lua, ele vive de reconstruir seus passados na nostalgia do presente.

 

Ronaldo Henrique B. Junior. Brasileiro do Rio de Janeiro, é bacharelando em Direito e escritor acadêmico da Academia Pedralva Letras e Artes (Campo dos Goytacazes-RJ). Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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