O Sopro de Pak Tai Ecos dos “boat-people” no delta de Mytho

 

Fala-se da ilha de Tan Long, no sul do Vietname, como um paraíso agrícola coberto de palmeiras, coqueiros, bananeiras, árvores de cítricos, ananaseiros, mangueiras e muitas outras fruteiras cuja reputação ultrapassou fronteiras, embora aquilo que mais caracteriza Tan Long é o facto de muitos dos seus habitantes serem construtores de barcos, actividade transmitida de geração em geração.

Passamos, com o motor ao ralenti, a poucos metros das margens dessa luxuriante ilha, onde repousam dezenas de barcos de pesca de madeira em construção, dentro de estaleiros familiares agregados às barracas habitacionais, apontando a proa em direcção a Mytho. Ou quiçá, até mais longe.

“Foi com barcos semelhantes a estes que muitos vietnamitas fugiram do país”, lembra‐se de dizer Kim Hau, o barqueiro de serviço, pescador de profissão. Mytho produziu também a sua remessa de boatpeople, muitos dos quais dariam à costa em Macau, esfaimados e doentes, onde eram acolhidos durante alguns meses, antes de serem transferidos para os grandes centros de refugiados de Hong Kong.

“Muitos dos meus amigos que tentaram a sua sorte vivem hoje nessa cidade ou nas Filipinas. Mas também conheci os que não voltaram a ver terra”, acrescenta o pescador que preferiu ficar por Myhto, a “arriscar a ser comido pelos tubarões ou desaparecer no meio de um tufão”. Agora, “que isto por aqui até está bem melhor”, tem a oportunidade de poder conduzir estrangeiros pelos canais e compensar assim o seu fraco rendimento mensal. A mulher e os dois filhos, infantes ainda, aguardavam que ele chegasse, recolhidos num tugúrio de tiras de bambu, escondido sob densa vegetação, a meia hora de distância do veio principal do Mekong.

O bilhete para uma tarde inteira de navegação fluvial incluía – como fez questão de salientar, num pequeno papel que escreveu, o rapaz com quem tinha fechado negócio – “uma visita a um dos famosos pomares de Mytho”. E foi isso que Kim Hau e a mulher me proporcionaram, acompanhando‐me numa visita um pouco improvisada, mas que não deixou de ser interessante. Fui conduzido de choupana em choupana, por caminhos de terra seca onde frequentemente apareciam sepulturas rústicas. Mesmo depois de mortas, as pessoas continuavam a partilhar com os vivos o mesmo espaço e a desfrutar das generosas sombras concedidas pelas frondosas mangueiras. Ainda pouco habituado a esta forma de turismo alternativo, o pescador tudo fez para que eu desfrutasse aquelas horas passadas em terra, e, findo o passeio, a mulher deixou no ar “cumprimentos à família” e um “please remember us”, frases estudadas com esmero e agora aplicadas de forma automática.

De regresso aos meandros aquáticos, em certos troços totalmente cobertos de fetos gigantescos que quase tapam o céu, formando um tecto de verdura, Kim desliga o motor e deixa o bote deslizar, para que se possa ouvir o chilrear da passarada, pois esse é outro dos pormenores especificados nos cartazes que publicitam a viagem.

Para que o visitante não se sinta de modo algum defraudado, anunciam‐se ainda outros focos de atenção, sendo o mais badalado, e talvez o menos interessante, uma visita à chamada Ilha do Monge Noz de Coco, onde, a troco de 8.000 dongs, acedo a uma espécie de lunapark surrealista que em tempos foi um santuário ao ar livre de uma das mais curiosas seitas religiosas que o Vietname viu nascer. Recordo que este país é bastante pródigo neste tipo de fenómenos.

Até à sua prisão, em 1948, e consequente desmembramento do seu “rebanho”, o Monge Noz de Coco, aliás, Ong Dao Dua, liderou uma pequena comunidade que vivia em Phung (o verdadeiro nome da ilha), a escassos quilómetros de Mytho, e da qual restava apenas um jardim com colunas inscritas com dragões em alto‐relevo com a tinta a estalar, galináceos de ar triste metidos dentro de gaiolas medonhas, lagos artificiais onde nadavam peixinhos vermelhos em busca das últimas bolsas de oxigénio na água saturada, e uma torre com diversas plataformas em diferentes níveis, onde havia um sino, uma balança e um globo terrestre enorme.

Ong Dao Dua – aliás, Nguyen Thanh Nam, seu verdadeiro nome de baptismo – fundou a religião Tinh Do Cu Si, uma mistura de budismo com cristianismo, algum tempo depois de ter regressado de França, onde estudou físico‐química durante sete anos. Nessa tentativa ecuménica – com fracas repercussões sociais, diga‐se de passagem – o vietnamita combina Buda com Cristo e a Virgem Maria, sempre acompanhada de figuras budistas femininas de destaque, e tanto a cruz como a suástica budista são símbolos utilizados com frequência. Pude ver ainda uma flor de lótus e dois dragões desenhados numa porta ferrugenta, com uma placa proibindo a entrada a uma espécie de monumento incrustado com fragmentos de cerâmica, sustentado por uma tartaruga de cimento, onde estava a pequena fotografia do controverso personagem, acompanhada da data do seu nascimento e da sua morte.

“Ong Dao Dua foi preso inúmeras vezes por sucessivos governos sul‐vietnamitas. Não lhes agradava que espalhasse as suas ideias subversivas, preconizando a reunificação do país através de meios pacíficos”, informa Kim Hau. Chamavam‐lhe Monge Noz de Coco porque se diz que, durante três anos, permaneceu sentado numa laje de pedra, em profunda meditação, debaixo do mastro com a bandeira nacional desfraldada, alimentando‐se apenas dos cocos que caíam das árvores.

Tirando o máximo proveito “dessa armadilha para tolos”, como ouvi alguém comentar, os ilhéus de Phung aproveitavam para vender aos turistas bonitos utensílios feitos à mão com madeira de coqueiro (colheres, pauzinhos), nogado de amendoim e deliciosos caramelos à base de leite de coco.

Para descansar e, eventualmente, compensar o fiasco (foi a sensação com que fiquei depois de visitado o parque), disponibilizam‐me uma cadeira numa mesa instalada à sombra do arvoredo onde passo a bebericar diversos sumos de frutas, café servido dentro de uma caneca de alumínio com um filtro, e, para terminar, uma chávena de chá vietnamita com aquele leve travo a guache. No Vietname, é sagrado: depois do café, serve‐se sempre o chá.

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

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