O OUVIDOR OCIDENTAL Estátuas de ouro

 

A obrigação de ganhar sempre tornou os Jogos Olímpicos a última etapa da velocidade e da globalização. Michael Phelps, Usain Bolt ou, agora, Simone Biles são os deuses que Filippo Marinetti sonhava ao escrever o seu Manifesto Futurista: “Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco”. Ou a globalização do bom senso e da paz que movia Pierre de Coubertin quando desenhou, agarrando no pó da antiguidade e na memória das provas com que os mortais seres humanos tentavam concorrer com os poderes dos deuses, os Jogos Olímpicos da modernidade. Numa era em que a globalização económica define a paz em nome das vantagens comerciais (tal como sucedeu no mundo antes da Primeira Guerra Mundial), o desporto continua a ser o grande postal ilustrado do sucesso das nações. Não admira a aposta das grandes e pequenas potências no desafio de criarem deuses que os comuns mortais veneram através dos plasmas. Por detrás das vitórias está, sobretudo, dinheiro. São os grandes investimentos das nações que geram mais deuses. De resto, como sucedeu outrora com os portugueses Carlos Lopes ou Rosa Mota, tudo era obra de um acaso, sobretudo quando a globalização ainda não estava afinada e as fórmulas para vencer ainda não se tinham tornado hegemónicas. Phelps, Bolt ou Biles têm características naturais para serem seres voadores, aqueles que desejamos poder ser durante um segundo apenas.

Vemos os Jogos Olímpicos na televisão, o definidor social por excelência na idade em que o diálogo foi substituído por sensações rápidas. Vemos lá desportos que só encontramos de quatro em quatro anos. Ficamos deslumbrados com a beleza da natação sincronizada ou com a velocidade alucinante do ténis de mesa. Já não há quase vestígio do “desporto amador” que outrora era vendido como a alma das Olimpíadas. Os jogos estão salpicados de atletas que fazem do desporto uma vida. Tudo é feito em prol de uma medalha de ouro. De um estatuto único. Do reconhecimento da supremacia de uma nação, que assim tenta provar, através do desporto que o seu “sistema” é o melhor. O dinheiro gasto hoje no desporto de elite é, a nível global, uma enorme caixa-forte do Tio Patinhas.

No mundo da globalização, dos acordos trans-pacífico e das novas rotas da seda, o desporto olímpico é apenas uma das vias dessa uniformização de ideais. Como é o futebol. Ou as roupas que compramos nas grandes cadeias internacionais, iguais em todas as latitudes. Ou os móveis, lapidados pela Ikea, iguais em todas as longitudes. As séries e concursos televisivos são hoje quase iguais em todo o globo. O dinheiro é, no meio de tudo isto, a grande língua franca. Porque é isso que permite que os melhores treinadores, independentemente da sua nacionalidade, sejam contratados para esculpir os melhores talentos. Pesquisa e inovação são as palavras de hoje para a estratégia desportiva. Não há lugar para amadorismos. Só há espaço para heróis. O desporto une e aproxima-nos. Quem não recorda, no Europeu de Futebol de 2016, jovens franceses de origem francesa, que não sabiam uma palavra de português, com a camisola da selecção nacional, puxando por Ronaldo? Os Jogos Olímpicos terminaram e recolocaram deuses no pódio. Phelps e Bolt garantiram a unanimidade global. São estátuas de ouro que ficarão na memória de gerações. Todos os vislumbrarão, milhões, triliões de vezes, na internet, nesse território que se tornou a última fronteira da imaginação humana e também da distração global. Onde tudo está e tudo se vê num relance. Sem tempo para reflectir. Afinal, num mundo onde o que importa é ser mais veloz, a calma não gera dinheiro.

 

Fernando Sobral

 

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