O Sopro de Pak Tai Senhora de inúmeras virtudes

Joaquim Magalhães de Castro

 

Longe de ser o paraíso na terra, como reza a máxima chinesa, não deixa de constituir um dos recantos mais aprazíveis da China. Hangzhou, destino turístico por excelência, surpreendeu-me pela positiva, apesar de a encontrar envolta em nevoeiro.

A história de Hangzhou, que Li Bai, o grande poeta da dinastia Tang, descreveu como “a mais memorável cidade a sul do rio Yangtsé”, remonta ao início da dinastia Qin (221 AC). A China atravessava na altura um período de grande prosperidade com um activo comércio inter-regional que gradualmente transformou os aglomerados populacionais em grandes urbes que provocavam espanto e admiração em quem as visitava. Artistas, militares, funcionários, mercadores, todos se congregavam ali. Em 1275 a população perfazia já um milhão e 750 mil. Tão elevado número de pessoas associado à proximidade com o oceano levou a que o comércio marítimo e fluvial, a construção naval e indústrias do género se desenvolvessem a níveis nunca antes imaginados.

Hangzhou foi pormenorizadamente descrita por Marco Polo e por ali também terá estado Fernão Mendes Pinto, anos antes dos jesuítas de Macau terem fixado residência nessa cidade. António Gouveia, autor da “Ásia Extrema”, atesta a “firmeza da residência de Ham Cheu”, por onde passariam os padres Celestino da Silva, João Fróis e João da Rocha, o irmão, natural de Macau, Francisco de Lagea, e ainda, o mais conhecido de todos, o padre Manuel Dias (Júnior) que acompanhou os sete artilheiros portugueses de Macau que, em 1622 e por solicitação dos mandarins cristãos, partiram para Pequim com o objectivo de participarem na defesa da cidade ameaçada pelo manchus. Tal acto, permitiu que nos anos imediatos novos missionários europeus partissem para a China e novas residências fossem abertas nas diversas províncias do império.

Em meados do século XIX, com a rebelião dos Taipings e a sua feroz luta contra os exércitos imperiais, Hangzhou atravessou o período mais negro da sua existência. Mais de meio milhão de habitantes pereceu devido a doenças, fome e batalhas. A cidade ficou reduzida a cinzas, desvanecendo-se assim a sua importância comercial. Os raros edifícios e monumentos que sobreviveram à devastação seriam arrasados no século seguinte, durante a Revolução Cultural. O que se hoje vê em Hangzhou é de construção relativamente recente.

Mas porquê, então, tanta excitação em torno da cidade? É mesmo assim tão agradável e bonita? Garanto que sim. E mais. Se tivesse que escolher um local para viver na China, Hangzhou estaria definitivamente na lista dos casos a ponderar, apesar dos sucessivos grupos de turistas que ao longo do ano a ela arribam. Não é por acaso que é considerada a cidade com os mais felizes habitantes de toda a China.

A principal razão de ser de Hangzhou chama-se Xi Hu, Lago Oeste, símbolo citadino por excelência. Na China há dezenas de lagos – mais exactamente 36 – chamados Xi Hu. Mas o de Hangzhou é o autêntico, onde todos os outros se inspiraram. Su Dongppo, eminente escritor da dinastia Sing, comparava o lago do Oeste a Xishi, “senhora de inúmeras virtudes”.

Duas vias dividem Xi Hu em outras tantas secções. Ambas ornamentadas com pequenas pontes de pedra cujos arcos permitem a passagem de pequenas embarcações apenas. Os locais de interesse turístico encontram-se espalhados pelo lago, em pequenas ilhas, num aglomerado de jardins, pontes e pavilhões com sugestivos nomes, tais como “Lua de Outono”, “Tanque das Carpas Douradas”, “Três Loucos a Olharem a Lua” e “Pagode das Seis Harmonias”. Este último pagode, servia simultaneamente de local de culto e de farol. Supostamente teria o poder mágico de estancar o revoltoso macaréu que cada final de verão acordava o rio Qiangtang.

Muitas desses locais foram imortalizadas em poemas e textos literários. Tendo ficado associados a intelectuais que ali viveram, imperadores (Hangzhou era bastante popular junto da elite no poder) ou mesmo a patriotas de épocas mais recentes.

Numa das secções do que foi outrora o palácio de férias do imperador Qianlong, na ilha da Colina Solitária, a mais larga de todas, está sediada a Sociedade de Selos e Gravuras Xiling. Mas o representante da dinastia Qing interessava-se sobretudo pelo chá da região, o chá Lojiang. Não só o bebia, como lhe fazia poemas e visitava o local onde crescia, acompanhando depois o processo de torrefação. Desde então, o chá Lojiang não parou de se popularizar. Também o manchu seu antecessor, Kangxi, era visitante regular de Hangzhou. Numa das paredes de Ligyin Si, “templo da alma em retiro”, podemos apreciar uma copla da sua autoria, ao que se diz inspirada pela “visão do templo envolvido pelas árvores e pelo nevoeiro”. Kangxi, espírito curioso, teve como confidente e tutor musical, outro ilustre residente de Macau: o jesuíta Tomás Pereira.

Mao Zedong, na boa tradição imperial, fez de Hangzhou cidade predilecta. A terceira, depois de Pequim e da Changsa natal. Visitou-a sempre que pode. Hoje, os panfletos turísticos garantem que “figuras de estado como Nixon e Thatcher, assim como pessoas ordinárias” renderam-se publicamente “à beleza e ao charme de Hangzhou”.

Da antiga cidade, como já se disse, pouco resta. E mesmo o quarteirão que subsistia na área ribeirinha, desapareceu para dar lugar a uma série de edifícios de arquitectura moderna e bem equilibrada. Com o Grand Hyatt como referência, o bairro tem nome a condizer: Euro Street. A baixa de Hangzhou é, provavelmente, a mais europeia de toda a China. E com isso espera continuar a atrair hordas de visitantes. Nacionais e estrangeiros.

 

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