A realidade não basta

Fugaz, a sinóptica perturbadora que alcança o mundo atual é pungente, em inexpressivos monossílabos escassos de buscas.

Em meio a um vazio desassossegado, acostumados com a parcimônia – a alma cega de alienação -, poucos são os que se importam com as expressões. Poucos são os que se dissipam pelo ar dispostos a deixar-se levar pela imaginação. Poucos conhecem a si próprios além das informações deixadas em seu perfil numa rede social qualquer.

Imprescindível é ter olhos para ver por dentro. Pois a cegueira que fecha os olhos para o mundo – gerando desencontros – é a cegueira da alma incapaz de sentir. Não adiantam as palavras: expressar quão belo está o dia não traz enlevo algum, a menos que as palavras saiam na espontaneidade da apreciação, ao contrário da dissimulação geralmente usada para guardar indiferenças.

De que vale viver oculto em uma tela de computador, se não é possível sair de si mesmo e sentir a liberdade da vida?

Saramago, em sua experiência literária de idealizar uma cegueira que assola desenfreadamente os seres humanos, põe o leitor para refletir sobre a distância do sentimento de humanidade, sobre o fato de os olhos do corpo não serem suficientes para sentir-se vivo. Na voz de um de seus personagens, Saramago expõe uma verdade que fala à atual geração: “Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem“.

A cegueira a que se refere o autor nascido na província portuguesa de Ribatejo não se trata de problema das vistas enquanto órgãos que transmitem imagens para o cérebro decodificar, mas de um problema que alcança as pessoas e as despersonaliza: retira a humanidade, que, enquanto sentimento, diz respeito ao homem que se basta sobre a Terra, considerando mazelas e sonhos.

Pois o homem acaba por perder-se em meio ao mundo cibernético em que vive, trocando diariamente a realidade pela uniformidade de vivências que é a inexpressiva tradução da sociedade atual: a ilusão de uma realidade virtual, numa ficção que não gera vida, aprisiona.

Enquanto fonte de inspiração, a ficção é espaço em que o homem se inventa e recria suas imagens. Espaço de sonhar e sentir, na fantasia de viver a fuga, o outro lado da existência, pautado na imaginação – infinita.

Todavia, percebe-se a divergência entre abdicar da realidade e abdicar de si: não há reconhecimento das lacunas da existência na ficção buscada pelas massas. A vida virtual enrijece, arrefece, traz amnésia das origens e cria falsas ideologias, pois distancia o homem de sua própria essência, cria distâncias e mantém a alma incólume – sem lacunas.

Pois as lacunas são necessários meios para o autoconhecimento: indagações deixam rastros que amadurecem a inquietude da existência, enquanto dinâmica que é. A vida não é pautada nas respostas, mas nos vazios deixados pelo que não se deixa entender com os olhos pragmáticos.

Então penso que o homem se enxerga pleno em contato com sua alma por meio de seus próprios eufemismos e convergências, pensando ter conhecimento de sua identidade sem saber sentir a própria alma.

A literatura, enquanto arte, deixa o desejo, acende as consciências para aquilo que não se pode enxergar com os olhos. Então vejo que as palavras – limitadas ao dizível – são fonte geradora do mundo. São alimento para o tempo histórico e elemento construtor do eu – enquanto personalidade no mundo real.

As palavras podem ser contaminadas com a frivolidade de uma área de lazer e até de um estudo aprofundado capaz de tornar técnica a literatura, mas jamais perderão seu poder de alcançar o âmago do indivíduo, criando lacunas capazes de gerar a poesia e estimular o latente mundo onírico. Fonte de expressão, a arte é a localização do homem em seu mundo, com os olhos voltados para a existência – não apenas para as aparências.

A literatura, exatamente por isso, é capaz de fazer transcender o homem ao seu próprio universo, pois consegue encontrar num texto emoções que já experimentara sem exprimir. José Castello, em uma publicação de 2012 no site do jornal O Globo, faz reflexões sobre a arte das palavras em contato com o indivíduo no texto “O poder da literatura“:

[…] leia Dostoievski, leia Kafka, leia Pessoa, leia Clarice – e você verá que rombo se abre em seu espírito. […] Vivemos imersos em um grande mar que chamamos de realidade, mas que – a literatura desmascara isso – não passa de ilusão. A “realidade” é apenas um pacto que fazemos entre nós para suportar o “real”. A realidade é norma, é contrato, é repetição, ela é o conhecido e o previsível. O real, ao contrário, é instabilidade, surpresa, desassossego. O real é o estranho.”

Por isso, é possível perceber a necessidade de uma leitura clara da vida – e das palavras -, no que é possível enxergar um pensamento do escritor francês André Gide: “a arte começa quando viver já não é suficiente para exprimir a vida”. É preciso impavidez para lançar os olhos e ler as entrelinhas, deixar-se alcançar por seus próprios significados, sentir a liberdade de sonhar.

Assim, a literatura não pode ser resumida em um conjunto de análises feitas em sala de aula, mas em objeto de libertação da sensibilidade, por isso a necessidade de o livro não ser mais uma das obrigações escolares para as crianças, mas um amigo para acompanhar o crescimento. Um amigo para o indivíduo entender que ele próprio é capaz de produzir arte, de irradiar sua alma em expressões de beleza, de vivificar seus dias em plena liberdade.

Pois o desenvolvimento, ao contrário do que se pensa, não pode ser pautado tão somente na lógica e na linguagem, mas na vida e nos sonhos: no pulsar da humanidade.

Resumo: Não é possível alimentar anseios sem sonhar a vida de olhos abertos.

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