Sopro de Pak Tai Augustin, rei do kung fu

Joaquim Magalhães de Castro

 

Enquanto o ICA, RTP e congéneres continuam a financiar projectos de certos lisboetas neuróticos, enviesados, crónico-depressivos com trejeitos de falsos poetas que produzem trabalhos que depois pouca gente tem pachorra para ver, talvez porque ninguém neles se consiga identificar (sim, porque em Portugal nem tudo se resume a fado e Lisboa), na Europa há quem se lembre de personagens nacionais capazes de servir de excelente matéria para as suas obras. É o caso da cineasta francesa Anne Fontaine que em 2000 realizou Augustin, King of Kung Fu. Um filme belo e despretensioso que nos conta a história de Dos Santos, um solitário e introvertido emigrante português que, entre outros pequenos trabalhos, faz de figurante em filmes, mas cujo sonho é vir um dia a participar numa película de artes marciais. Para isso mergulha a fundo na cultura e tradição chinesas passando a frequentar, encavalitado na sua “pasteleira”, fiel companheira, o Chinatown de Paris.

À excepção de um professor de francês fluente em mandarim e o gerente de uma loja de quinquilharias onde Augustin passa a trabalhar e com quem estabelece uma relação de amizade, todos os actores e figurantes de Augustin, King of Kung Fu são chineses da província de Cantão (escutamos o cantonense com frequência), a tal ponto de nos chegarmos a questionar se a acção se passa, de facto, na capital francesa. Uma dessas figuras é inclusive identificada como residente de Macau.

Hóspede de uma pequena pensão com quartos de paredes de contraplacado que tanto serve noites de sono como de amor a pagantes, freguês dos tascos de min e de yam cha e aplicado aluno de aulas de mandarim e de kung fu – até então, o nosso herói apenas ensaiara golpes de pés e movimentos de mãos inspirados pelo som que gravava nas salas de cinema meio vazias das quais era frequentador assíduo –, Augustin encarna na perfeição o verdadeiro espírito do período das Descobertas.

Como se não bastasse, o nosso emigrante, encarnado pelo actor Jean Chretien Sibertien-Blanc, na qualidade de paciente trava conhecimento com a acupunturista Ling, nada menos nada mais que a imensamente bela e talentosa Maggie Cheung. Esta, através dessa ciência milenar chinesa desperta-lhe sensações que ele julgava inexistentes, pois, apesar da generosidade e simpatia, Augustin tem um problema quanto ao seu relacionamento com as outras pessoas. Quiçá, parte dessa intrínseca lusa forma de ser e estar que muitos dos cineastas portugueses apenas conseguem retratar de uma forma deprimente mas que certos estrangeiros logram captar na sua essência – veja-se o Lisbon Story de Wim Wenders e A Cidade Branca de Alain Tanner.

Ling apaixona-se por Augustin e este, como não podia deixar de ser, por ela. Porém, o emigrante ocidental leva mais tempo a revelar a sua paixão do que a congénere oriental, e quando aquele o decide fazer vai encontrar Ling, em crise de identidade, nos braços do professor de francês, um gesto de simples desabafo imediatamente mal interpretado pelo tímido Augustin que logo assume existir entre a acupunturista e o professor algo mais do que simples amizade. O imenso equívoco leva-o à partida. Era o destino que estava traçado.

Num misto de fuga e de desejo de uma maior integração na cultura que o fascinava desde a infância, Augustin parte para a China. E na China o vemos, anos depois, em Pequim, pedalando agora uma outra bicicleta, uma Golden Pigeon, regressando do mercado ao seu novo lar, onde o espera uma mulher chinesa e um filho dedicado a fundo à aprendizagem dos segredos das artes marciais. A Ling estava-lhe reservada a integração no mundo ocidental. O argumento diz-nos que abrira um consultório em Paris e que o seu encontro com Augustin ainda lhe povoava as recordações.

Resta acrescentar que o filme foi produzido por quatro indivíduos, um deles chamado António Bazaga, que constituem o núcleo duro do Bocaboca Productions. Talvez a lusofonia do vocábulo explique a escolha de Fontaine.

Após o visionamento de Augustin, King of Kung Fu (procurem-no nas lojas de DVDs) perguntei a mim próprio: por que razão não se produzem em Portugal filmes assim?

Augustin tem muito a ver connosco, os que aqui estamos essencialmente porque gostamos do Oriente e não porque aqui auferimos de salários mais generosos.

Seremos nós esses Augustins que insistem em ficar apesar do acéfalo poder em Lisboa teimar em ignorar esta parte do mundo? Augustins do século vinte um que à semelhança dos lançados, homiziados, aventureiros seiscentistas operam revoluções por conta própria? Augustins que não esperam subsídios nem viagens pagas nem decretos-leis para mudar o rumo às coisas e tornar realidade os seus sonhos? Augustins que não soltam queixumes de traseiro preso a cadeiras de café enquanto o sol brilha num céu azul que quem dera a muitos o terem todos (ou quase) os dias à distância de uma persiana? Augustins que avançam, emigrantes da dinâmica e não desgraçadinhos escravos do “oui, Monsieur”?

Augustin, King of Kung Fu traz-nos uma visão da emigração que raramente nos foi dada por um cineasta português (Mortinho por chegar a casa, co-produção luso-holandesa é a honrosa excepção). Uma imagem de portugueses-matéria-preciosa, pois não estão no mundo ao serviço de terceiros, outrossim por conta própria.

 

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