O Sopro de Pak Tai As nonyas do Kampung Portugis

 

 

Joaquim Magalhães de Castro

 

Resistentes como rochas, os herdeiros dos quarenta guerreiros que acompanharam Afonso de Albuquerque na conquista de Malaca, em 1511, totalizam actualmente uns quantos milhares e encontram-se espalhados pelos quatro cantos da Malásia. Mas é no Kampung Portugis – o denominado Portuguese Settlement – que a sua face é mais visível. Ali residem, desde 1932, mil e quatrocentos malaqueiros, senhores de apelidos como Lázaro, Fernandes, Teixeira ou Sequeira, que, com o correr dos anos, sofreram ligeiras alterações, passando a ser grafados como Lazaroo, Fernandis, Teserah e Sequira.

Visitei pela primeira vez essa comunidade no início da década de noventa, tendo regressado ao seu convívio diversas outras vezes ao longo dos últimos vinte anos. São as impressões dessa visita pioneira que vos quero transmitir.

Se na Malásia o bom nome, espírito jovial, a música e a culinária dos kristang eram sobejamente conhecidos, no bairro, em contrapartida, poucos eram os que tinham uma ideia do que realmente Portugal significava ou como pensavam e sentiam os portugueses. O contacto com os patrícios ocidentais limitava-se a encontros esporádicos com os raros visitantes que prometiam muito, mas pouco faziam.

– Estamos para aqui esquecidos – queixava-se Joe Lazaroo, o patriraca da comunidade. – Se não alterarmos esta situação, passaremos de museu-vivo a uma simples decoração folclórica para turista apreciar.

Era o apelo que todos faziam, sempre que tinham oportunidade. E quem estivesse disposto a ouvi-los ficava com as orelhas a arder.

Um lugarejo de setenta habitantes com casas de chão de areia, distribuídas por doze hectares a três quilómetros do centro da cidade, assim era o Kampung Portugis original, louvável iniciativa de dois missionários, em 1930, daí o local ser inicialmente conhecido como Chão di Padre. Em jeito de homenagem, as ruas do peculiar bairro adoptariam os apelidos de cinco ilustres personagens da história de Malaca: Albuquerque, o conquistador; Sequeira, Diogo Lopes Sequeira, o primeiro navegador luso a pôr os pés na cidade, em 1509; Teixeira, oficial enviado a terra para oferecer presentes ao sultão; Araújo, soldado aprisionado juntamente com Sequeira; e, finalmente, Eredia, Manuel Godinho Eredia, o malaqueiro instruído, geógrafo de renome, que, em 1615, escreveu uma história da cidade. Os lusos apelidos subsistiriam com as famílias; sobreveio depois a miscigenação com as nonyas – mulheres de famílias chinesas estabelecidas na Malásia e que perderam as suas raízes com o Império do Meio –, mas isso seria outra história. Para que conste: foi da união matrimonial entre portugueses e chinesas da Malásia – que se deslocariam posteriormente para Macau – que surgiriam os primeiros macaenses.

Não se pense que a ramificada e abundante descendência dos homens de Albuquerque permaneceu no perímetro delimitado pela rua principal e as quatro transversais que retalhavam o Chão di Padre em casas com pequenos jardins e imagens de santos populares nas paredes. Espalhou-se por toda a Malásia, gozando hoje de excelente reputação. Os kristang são conhecidos pelos seus dotes culinários e artísticos e pelo seu espírito galhofeiro. Ocupam, no país e em Singapura, as mais diversas actividades profissionais – políticos, funcionários públicos, médicos, músicos, actores e jornalistas. Pude comprová-lo folheando o jornal diário em língua inglesa The Sun. Na primeira página, a analista de política Claudia Theofilo relatava mais um caso de corrupção que viera recentemente a lume. No verso, Neville de Cruz falava-nos de um político malaio acusado de dever dois milhões de dólares australianos contraídos em dívidas de jogo. Na página três, Martin Carvalho registava, a partir de Malaca, os comentários proferidos por um dos embarcadiços malaios feitos reféns por piratas indonésios, uns meses antes. A jornalista Anna Maria, por sua vez, analisava o recrudescimento das doenças cardíacas na Malásia, enquanto a sua colega Claudia Lopes apontava o dedo às deficiências existentes no sistema de abastecimento de águas nos centros urbanos; já o repórter Nelson Fernandes entrava em detalhes sobre um crime de foro comum. No suplemento de economia, Phillipe Reis tecia comentários sobre a débil situação do ringgit, e na secção do desporto Aloises Francis e Graig Nunis (de Nunes) traziam-nos as últimas do futebol e do atletismo malaio. Todos esses jornalistas eram filhos di Malaca que deixaram o bairro português (muito provavelmente já nem falam a língua dos seus antepassados) e partiram para as grandes cidades.

A sua preponderância na sociedade é tal que é à minhota que trajava uma das quatro raparigas que interpretavam o hino nacional malaio no fecho da emissão do canal televisivo estatal. As outras três envergavam as vestes tradicionais malaia, chinesa e indiana, as três outras comunidades que, à semelhança da malaqueira, detêm, na Malásia, o invejável estatuto de “bramiputra”, ou seja, “filho da terra”.

 

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