O Sopro de Pak Tai Do porto de Dagon ao Delta do Rio das Pérolas

 

Joaquim Magalhães de Castro

Implantada a trinta quilómetros do Oceano Índico, num fértil delta a sul do país, a colonial Rangum – cujo estatuto como capital remonta a 1885, aquando da conquista da Alta Birmânia pelos britânicos – cresceu ao sabor do rio Yangon, nome pela qual é hoje conhecida a até ainda bem pouco tempo capital de Myanmar. Parte substancial de uma população que ultrapassava os quatro milhões de pessoas utilizava diariamente essa importante via fluvial, que resulta da ramificação em delta do todo-poderoso Irrauadi, rumo aos seus empregos e diários afazeres.
 Crónicas portuguesas dos meados do século XVII referiam o porto de Dagon e a sua relativa importância em comparação com os portos do Pegu, Sirião, Martavão e Cosmim. Ao ancoradouro de Dagon – que viria a recuperar protagonismo precisamente com a queda de Sirião, em 1613 –, demandavam navios de importantes regiões como Cambaia e Samatra, e, via Malaca, também ali chegaram os juncos dos mercadores da recentemente fundada cidade do Santo Nome de Deus de Macau, que a partir de então gradualmente integrou no seu seio uma comunidade birmanesa que hoje tem um enorme peso no seu tecido populacional.

Na sua Peregrinação, Fernão Mendes Pinto referia as riquezas da Birmânia, chamariz para mercadores portugueses, que ali demandavam a partir de Malaca, em busca das afamadas madeiras, cereais, laca e pedras preciosas, como os rubis ou as safiras, entre tantos outros produtos, e visitavam no processo o arquipélago de Mergui, as cidades de Tavoy, Sirião, Cosmim, Akyab, tornando-se aliados do rei de Pegu. Chegaram acompanhados pelos respectivos capelões, e assim se foi instalando o cristianismo na região.

Na altura em que a visitei, a cidade apresentava-se ainda repleta de arvoredo e muita sombra, embora o trânsito fosse já bastante intenso e quase não circulassem veículos de duas rodas. Yangon era, sem dúvida, a última das capitais coloniais do sudeste asiático. Uma pergunta se colocava: até quando resistiria à síndrome das megapólis? Tal como em Macau, também em Yangon tinha sido gizado um plano para instalar no principal cais da cidade um navio que seria transformado num hotel de luxo, só que a empresa tailandesa responsável pelo projecto acabaria por desistir. Congelados estavam também os investimentos estrangeiros, sobretudo na área da construção civil. Vasto capital de Singapura, Hong Kong, Malásia e até de Macau (o conhecido Traders Hotel pertencia a um residente de Macau) tinha já sido investido, mas muito outro aguardava novos sinais de liberalização da parte do governo. Mesmo assim, desde Abril de 1992, altura em que o moderado general pró-capitalista Than Shwe, o homem forte do regime, tomara as rédeas do poder, tinha-se assistido a uma revitalização da urbe. Automóveis particulares ocupavam as largas avenidas, geometricamente alinhadas, as antenas parabólicas encimavam telhados e terraços dos edifícios e os telemóveis começavam a tornar-se comuns entre a população urbana. Apesar da modernidade, as expressões «pressa», «hora de ponta», «falta de tempo» pareciam não fazer parte do vocabulário dos birmaneses. Enfim, o frenesim de Yangon estava incomparavelmente distante do das restantes capitais do Sudeste Asiático. Ali, as coisas andavam devagar. Demasiado devagar, na opinião dos críticos do regime, que eram cada vez mais e não perdiam oportunidade de afirmar publicamente o seu descontentamento. Receosas da massa estudantil, motor de revoltas anteriores, as autoridades tinham transferido as instalações universitárias do centro para a periferia. Apenas os cursos de pós-graduação, mestrado e doutoramento eram ministrados na baixa da cidade, reservada agora às sedes de multinacionais e às cadeias hoteleiras de renome. Carente de divisas, o regime procurava desesperadamente atrair investidores estrangeiros e turistas, tendo, para isso, e desde o início da década de 1990, melhorado o aspecto geral da cidade com campanhas de limpeza e sucessivas pinturas nas fachadas de edifícios públicos. Não obstante, o saneamento básico era inexistente e a electricidade mantinha-se muitíssimo racionada, como o comprovavam os frequentes cortes de energia. Nas ruas, a população fazia o que podia para ganhar a vida com múltiplas e imaginativas actividades, que iam da simples venda de livros em segunda mão às ortodoxas mezinhas populares, que, mais do que um simples produto comerciável, poderiam muito bem tornar-se atracção de feira. Antigo e moderno coexistiam nesse Myanmar de muitas surpresas e contrastes.

 

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