O Sopro de Pak Tai: O legítimo sonho de Leonardo

 

FOTO Pak Tai desta semana (5)

“É preciso que alguém escreva sobre ele”, insistia Ermelinda Galamba de Oliveira, adida cultural da Embaixada Portuguesa em Pequim. Foi ela que me alertou para a existência de Leonardo Veiga, aliás Wei Nai, 52 anos, pianista de profissão, um luso-chinês em busca de nacionalidade, que uma simples assinatura de um pai que “nunca o reconheceu como filho” lhe podia garantir.

“Veio à embaixada por diversas vezes. A história da sua vida é simplesmente fascinante, embora esteja repleta de contornos dramáticos. Telefone-lhe quando puder”, acrescentaria a funcionária, enquanto me entregava um número de telefone.

Encontrava-me na capital chinesa de passagem, rumo à Mongólia, mas prometi-lhe que iria contactar Leonardo Veiga aquando do meu regresso, meses mais tarde.

Dito e feito. Vinte quatro horas foram suficientes para que Leonardo me pusesse ao corrente quanto à extraordinária história da sua vida. Da sua vida e a dos seus primogénitos, cujos contornos constituem vasta e valiosa matéria que abordarei em futuras crónicas.

Leonardo Veiga veio buscar-me ao hotel no seu Volkswagen Santana numa manhã em que um súbito nevão causara o caos no já de si diabólico tráfego da capital chinesa. Apesar de se exprimir em bom inglês, Leonardo fez questão que fôssemos a casa do seu amigo Peter, um engenheiro inglês que dominava perfeitamente o mandarim e era casado com uma chinesa. Peter residia, à semelhança de tantos outros expatriados, num dos anexos do histórico e aprazível Friendship Hotel, marco de referência na cidade.

O luso-chinês não queria que perdesse uma única pitada do que me tinha para me contar. E foi mesmo ali, no interior do carro, enquanto aguardávamos uma maior fluidez no trânsito, que me confessou o porquê da sua vontade em obter a nacionalidade portuguesa. Não, não era por um motivo meramente material: sair do país, buscar emprego mais bem remunerado, poder viajar… Até porque a sua situação económica parecia ser bastante confortável. Leonardo Veiga possuía automóvel, telefone portátil e um cargo de chefia na Academia de Dança.

As suas repetidas deslocações à embaixada portuguesa em Pequim, que duravam há já vários anos, tinham-se mostrado infrutíferas. Afinal, Leonardo pugnava apenas por um direito seu! A primeira vez que aí se deslocou coincidiu, curiosamente, com os incidentes de Tiananmen. “Os funcionários pediam-me sempre um novo papel, e quando o levava exigiam-me um outro papel, e por aí em adiante”. Ele era fotocópias do bilhete de identidade, da certidão de nascimento, da certidão de casamento, etc. E, no topo de tudo aquilo, “nunca me respondiam às cartas que enviava”.

Ao cabo de três anos de pacientes insistências, acabaram por lhe atirar à cara um categórico não. Apenas lhe concederiam a nacionalidade se lhes apresentasse o certificado de casamento dos pais. É claro que não o tinha, nem o iria conseguir em parte alguma, pois os pais casaram, “ainda antes da Segunda Grande Guerra”, numa pequena igreja de Kunming, “um pouco à socapa”.

Aquando do nosso encontro – apesar do pessoal da embaixada ser bem mais cooperante e poder contar com a solidariedade da Ermelinda Galamba de Oliveira – Leo, como gostava que o chamássemos, continuava a precisar de documentos. “Desta feita, necessito de um papel assinado pelo meu pai em que ele afirme que sou seu filho”. Mas o pai, José Veiga, macaense, então a residir nos Estados Unidos, recusava fazê-lo, alegando que estava muito velho para se deslocar à embaixada portuguesa e tratar aí de todos os requisitos. “Sinto que o meu pai não gosta de mim”, desabafava Leonardo. Factor explicador dessa relutância, certamente não era alheia a influência exercida sobre o pai por parte dos seus três meios irmãos, filhos de um terceiro casamento de José Veiga, que possivelmente receavam o “extravio” da herança paterna.

“Anseio obter a nacionalidade portuguesa pois quero dar um filho à minha jovem mulher que muito amo”, explicava Leonardo. Essa, a razão da sua inglória luta contra as burocracias de um Estado que tem por hábito esquecer os seus. A sua condição de cidadão chinês, obrigado a seguir a política de um filho único, não lhe dava esse direito, pois tivera já uma criança de um casamento anterior. Leonardo dizia aquilo com ar triste. Aliás, Leonardo exibia sempre um ar triste, uma melancolia que só podia ter origem na sua costela lusa e que ele expressava quando conversava ou quando interpretava ao piano o seu trecho favorito de Sebastian Bach. Depois de feita a confissão, e para aligeirar a conversa, referiu os problemas de comutação na capital chinesa. “Nem imagina as horas que passo para me deslocar diariamente para o trabalho”. Embora fosse domingo, a neve tornava o tráfego tão dantesco como aos dias de semana. Na manhã seguinte, segunda-feira, Leonardo regressaria à embaixada, uma vez mais, para uma nova tentativa.

 IIM LOGOTIPO - 2015 (19)

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s