Estrangeira, eu?

 “E qual é a complicação disso?

Se eu dissesse que a fronteira é aqui (com o braço, faz um risco no ar),

agora eu estava num país, (dá um passo para o outro lado desse risco invisível),

agora estava noutro país. Só assim.

Qual é a complicação disto? (Saltitando de um lado para o outro:)

Agora estou num país, agora estou noutro; agora estou num,

agora estou noutro.

Só existe complicação para quem gosta de complicar.”

(In: Estrangeiras, de José Luís Peixoto)

 

lusofonia

 

Acabou de sair do forno o livro “Estrangeiras, de José Luís Peixoto, que chega ao público ao mesmo tempo em que o texto é encenado no Teatro Rivoli, na cidade do Porto, pelas atrizes Francisca Lima, Janaína Alves e Sílvia Lima, com direção de  João Branco.

 

A peça mostra o encontro entre três mulheres que, unidas pela adversidade de terem sido “barradas” numa fronteira, desencontram-se na língua que, paradoxalmente, deveria ser-lhes um fator de  identidade. Com a certeza de que sozinhas caminham contra o vento, vencem a barreira da língua (língua?) e aconchegam-se no mais que humano que existe em nós.  Embora lusófonas, as personagens conciliam-se a despeito disso. Explico por que, ou melhor, explica João Branco, com o texto “O que é isto da lusofonia?”, posfácio do livro de Peixoto, em que reflete sobre a condição do lusófono, “que se sustenta numa língua que é comum, mas só nas aparências. Um espaço geográfico que trapassa todos os continentes e onde o desconhecimento mútuo é regra.”

 

Nestes 20 anos da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), entre várias tentativas de aproximação, não me parece ter havido grandes ganhos objetivos relativamente à vida das pessoas, cidadãos nacionais do Brasil, Portugal e dos Cinco (expressão de Mário Pinto de Andrade, resgatada por Inocência Mata, para referir-se aos países africanos que sofreram a colonização portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe). Embora haja um balcão indicado para portadores de passaportes de países da CPLP nalguns aeroportos, nunca vi serem utilizadas tais portas preferenciais na passagem das fronteiras, mas estão lá, como numa metáfora de que a Comunidade só existe no papel, uma placa que sugere uma desconfiança discreta, mas pungente, de que o “outro”, ainda que fale a “minha” língua, deva ser tratado como um estrangeiro absoluto, tal qual Meursault, o sociopata absurdo criado por Camus.

 

O livro de José Luís Peixoto renovou em mim um não sei quê de estrangeira, uma lembrança de que não sou daqui (alguém o será?), ou melhor seria dizer uma sensação de que não sou do agora, como Caetano Veloso nos lembra em voz suave e acutilante: “E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento, sigo mais sozinho caminhando contra o vento”.

 

Sendo brasileira, tendo vivido em Cabo Verde e residente em Portugal, compreendo de modo paradoxal a experiência da tal condição do lusófono. Sinto-me, não raras vezes, como cidadã lusófona, não tendo vivido grandes dificuldades no que diz respeito à expressão linguística e também cultural, é verdade. Marca-me o meu DNA (ou ADN?!) meu jeito mineiro de ser, com meus uais e ôces de permeio, mas também posso papiar krioulo na minha toada portuguesa, entre um pá e outro, pá!  Para a minha mãe, às vezes soa esquisito o meu falar.  Certamente já tenho alguns hábitos portugueses que podem ser estranhos aos meus mais-velhos, mas isso penso deva ser encarado como mais um elemento a compor-me, a criar-me a fazer-me plural. Guimarães Rosa, na sua obra-prima, “Grande sertão: veredas”, escreve: “O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam  e desafinam.”  E assim, entre um acorde e outro, vamos sendo muitos, múltiplos, compósitos, daí ser incoerente com a nossa própria natureza a segregação da fronteira, a paranoia de diferenciar o daqui  do de acolá, a tentação dos brexits, a hipocrisia da crença na livre circulação de bens, mas não de pessoas. Quando vejo o quão cansativo é para o cidadão cabo-verdiano adquirir um visto para entrada no Brasil, ou alguma desconfiança em relação ao meu diploma brasileiro que deve ser “validado” para que eu possa cursar uma pós-graduação em faculdade portuguesa, o meu lusotimismo fica um tanto abalado.

 

Abala, mas não cai, pois, ainda que com tropeços e atropelos, veem-se novas tentativas de convergências, como o Novo Acordo Ortográfico, mas isso já é discussão para outra cró(ô)nica, por ora proponho para reflexão mais um trecho da peça Estrangeiras: “Estava pensando que a gente veio de lugares diferentes, cada uma de seu lugar, mas chegámos aqui. Talvez lá, já estivéssemos no mesmo lugar porque já estava certo que havíamos de chegar aqui, ao mesmo lugar, à mesma situação. Estamos na mesma situação. Somos iguais. Somos a mesma coisa.”

Márcia Souto

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