O OUVIDOR OCIDENTAL: A ditadura da velocidade

ampulheta

Vivemos num mundo rápido e voraz. A velocidade que foi celebrada pelo poeta Marinetti e pelos futuristas quando o mundo vivia a globalização de antes da Primeira Guerra Mundial (“Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade.”) transformou-se numa ditadura com a tecnologia que permitiu a mundialização financeira das últimas décadas e transformação do mundo do trabalho. Agora que a robotização vai destruir muito do trabalho barato (especialmente no Sudoeste asiático), fica-se com a noção de que todos os valores estão trocados. E que o homem ficou refém de algo que destruiu o precário equilíbrio da sua relação com a natureza. O historiador Ivan Illich alertava-nos, há algumas décadas, para a noção de que as máquinas iriam fazer o trabalho por nós sem se cair no efeito perverso que era tornar-nos todos escravos dessas tecnologias. Olha-se à volta e percebemos hoje o que queria dizer. Os seres humanos parecem hoje exaustos na sua corrida vertiginosa contra o tempo, como se 24 horas não chegassem, todos os dias, para fazerem o que era necessário. Ou obrigatório. No meio desta parafernália veloz já nos esquecemos da paz, dos momentos de observação, reflexão e aprendizagem, do convívio com os outros. Curiosamente nunca os homens (e mulheres) se acharam tão livres como agora: com os seus telemóveis e i-Pads, ligados universalmente pela Internet, supõem controlar o tempo.

Puro engano. Esta duvidosa modernidade, verdadeiro labirinto onde nos perdemos, transformou os fins em meios. Tudo se tornou num desafio técnico (como estar sempre conectado, a trabalhar; como criar o smartphone perfeito, como responder a todos os mails a qualquer hora do dia ou da noite). Isso deveria levar-nos a questionar os fins que julgamos perseguir: quem somos nós, como deveríamos ter uma vida agradável e feliz em termos individuais e colectivos, como deveríamos gerir o tempo de que dispomos). Entrámos numa espiral destrutiva: já não há espaço de trabalho diferenciado do de lazer. Se repararmos bem o capitalismo atingiu o seu zénite: trabalhamos a qualquer hora, sempre conectados. Julgamos ter a liberdade de movimentos e de comunicação mas, na verdade, somos servos da gleba dessa ficção. Tudo ao mesmo tempo. Corremos para lado nenhum, como na canção dos Talking Heads: “Road to Nowhere”. Já não temos tempo para contemplar o ciclo das estações, ler um livro com calma, olhar para as árvores a mover-se ao sabor do vento). Exploramo-nos a nós mesmo, como dizia Byung-Chui Han: “Assim, acabamos explorando-nos a nós mesmos”. Libertamos dos contratos de trabalho com as empresas para sermos livres, mas também com isso ficamos dependentes de jornadas de trabalho que não terminam nunca. Num mundo em que nos tornámos sobretudo consumidores, numa lógica de acumulação sem sentido. Os povos orientais costumam dizer que o dinheiro é como a água: cresce quando flui. No Ocidente acumula-se, no Oriente durante muito tempo praticou-se a frugalidade. A chamada globalização veio trocar muitos dos valores que diferenciavam os povos de longitudes diferentes, mas ninguém duvida que esta supremacia tecnológica que amarrou a vida dos seres humanos aos seus desígnios irá pagar-se caro. Henry David Thoreau, cujas observações resistiram à inclemência do tempo, escreveu em “A Vida sem Princípios”, que: “Se um homem passear nos bosques por amor a estes durante metade de cada dia, arrisca-se a que o vejam como um mandrião; mas se passar todo o dia em actividades especulativas, arrasando as florestas para tornar a terra nua antes de tempo, será considerado um cidadão diligente e empreendedor. Como se o único interesse de uma cidade tivesse nos seus bosques fosse cortá-los”. Todas as prioridades foram trocadas. E hoje, livres na nossa dependência da Internet e dos smartphones, tornamo-nos escravos durante 24 horas por dia de algo a que outrora chamámos “vida”.

 

Fernando Sobral é escritor e jornalista. Escreveu “O Segredo do Hidroavião” e  “As Jóias de Goa”.

 

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