O Sopro de Pak Tai: Os olhos asiáticos de Baruc

FOTO Pak Tai desta semana (3)

O morro do Arraial de Congonhas, mais propriamente o conjunto arquitectónico e paisagístico do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, o sector que me interessa visitar na incaracterística cidade de Congonhas do Campo, no estado brasileiro de Minas Gerais, é pequeno mas tem uma energia muito intensa. Confesso que me surpreende o que vejo cá em cima. Aparentemente, nada de especial: tão-só um hotel e duas dezenas de casas (as poucas que têm as portas abertas vendem artesanato), intervaladas com um jardim e algumas palmeiras, como se de um qualquer outro arraial de garimpeiros se tratasse. O declive acentuado no terreno dominado pelo santuário que lhe dá reputação internacional e pelo qual se alinham doze capelinhas da via-sacra de forma quadrangular e tectos ovais confere ao local um encanto e uma magia muito próprios. Contribuem para essa atmosfera, e muito, as enigmáticas estátuas de pedra-sabão distribuídas pelo adro da igreja. Parecem estar vivas, fazendo companhia ou dando conselhos às pessoas que por ali circulam.

Para ganhar tempo, junto-me a uns turistas que atentamente escutam um guia de camisola amarela contratado pela Auxílio Pedagógico & Excursões. Graças a ele fico a saber que a fundação do santuário se deve a um tal Feliciano Mendes, que encomendou a obra depois de ter considerado que só um milagre do divino o poderia ter curado de uma doença de que padecia. Porém, não bastava querer para poder edificar templos no Brasil dessa época; era necessária autorização eclesiástica, que lhe seria concedida em 1757. Seriam necessários mais catorze anos para dar por finda a conclusão dos trabalhos.

Tudo aqui transparece a vida e a obra de António Francisco Lisboa, nascido em 1738, em Vila Rica de Ouro Preto, filho do mestre escultor e construtor Manuel Francisco Lisboa. A deficiência física que o marcou à nascença foi insuficiente para impedir que depositasse todo o seu talento na arte de esculpir, à qual imprimiria o maior rigor, cumprindo as empreitadas em tempo recorde.

Em 1780 deu-se início às obras de arranjo da colina onde está implantado o santuário, tendo em vista a construção de capelas para albergar uma das mais importantes encomendas feitas ao Aleijadinho: uma série de conjuntos escultóricos representativos das cenas do calvário de Jesus Cristo — os Passos da Paixão de Cristo, como se diz no Brasil. Mas as capelas só seriam construídas alguns anos depois de este «animador de estátuas» — assim o podemos chamar — ter notado o pedido. Primeiro aprontaram-se as estátuas, as capelas viriam depois, entre 1802 e 1813.

Depois de esculpidas as obras de arte, Francisco Xavier Carneiro, um colaborador do Aleijadinho, pintou-as com cores vivas, podendo nós hoje apreciá-las olhando por entre as frinchas de madeira rendilhada de cor azul.

Em 1800, o artista seria de novo solicitado pelos responsáveis pelo santuário, desta feita para esculpir, em pedra-sabão, bem mais maleável do que qualquer outro calhau, e muito abundante na região, as estátuas dos doze profetas, cujos nomes nem sempre nos são familiares. Daniel, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Jonas ou até Joel são nomes que bem conhecemos. Mas quem ouviu falar de Oseias, Baruc, Amós, Abdias, Naum ou Habacuc?

Em apenas cinco anos, todas estas estátuas, com olhos amendoados a lembrarem personagens asiáticas (clara influência chinesa, que no Brasil daquela época se manifestou em diversas áreas da actividade artística), segurando pergaminhos com textos alusivos em latim, certamente inspiradas em gravuras italianas da época, estavam prontas e seriam colocadas numa plataforma em frente ao adro do santuário para poderem ser apreciadas devidamente pelas gerações vindouras.

O local é permanentemente vigiado por um guarda que não deixa que as pessoas se encavalitem nas estátuas, para se fazerem fotografar, ou, pior do que isso, lhes façam baixos-relevos de péssimo gosto. A tentação é grande e as obras de arte mostram já sinais da incúria do passado: há partes quebradas e alguns nomes, datas e promessas de amor gravados nas respectivas bases.

No interior da igreja, à semelhança das congéneres de Ouro Preto, existem admiráveis retábulos de talha, pinturas setecentistas e diversa estatuária dos mestres mineiros Jerónimo Félix Teixeira e Manuel da Costa Ataíde, ambos companheiros de lides do Aleijadinho. O portal do santuário, de pedra-sabão, é um elaborado conjunto escultórico de estilo rococó, ao género das igrejas de Minas Gerais.

Nas lojas de artesanato não faltam namoradeiras (bonecas que se expõem à janela, imagem de marca do turismo mineiro), panelas de pedra, «preços de fábrica em panelas de pedra-sabão a partir de doze reais», e colecções dos doze profetas em pedra-sabão, mas em miniatura.

Nalguns desses estabelecimentos grava-se e pinta-se na hora, em pedra e madeira, tudo o que o cliente desejar, e está assegurada a «fabricação própria de mensageiros do vento» e a venda de relógios e diversa bijutaria, «por atacado e varejo». Uma loja, mais original, lança um apelo: «Venha conhecer o retrato do Aleijadinho. O génio mestiço, o artista mineiro: António F. Lisboa.»

Também em Congonhas, à semelhança do que acontece nos valiosíssimos sítios hisóricos de Minas Gerais, não se avista um único visitante estrangeiro, apesar do título “Património da Humanidade” que esse mágico recanto merecidamente possui.

Joaquim Magalhães de Castro. Escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

IIM LOGOTIPO - 2015 (17)

 

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