O Sopro de Pak Tai:O cônsul e o enlevo feminino

FOTO Sopro Pak Tai (2)

Visitei o Japão por diversas ocasiões e ali cheguei a viver quase um ano, em Nara, não muito longe de Quioto, antiga capital do império.

Uma dessas visitas teve lugar após o devastador terramoto de Hanshin, ocorrido a 17 de Janeiro de 1995 e que atingiu em cheio a cidade portuária de Kobe, no sul do Japão.

O processo de reconstrução dessa tragédia que vitimara mais de cinco mil pessoas, apresentando ao país a astronómica factura de dez triliões de ienes, prolongar-se-ia, segundo as previsões da época, por mais de uma década. A julgar pelo que via, como, por exemplo, o edifício da Câmara Municipal, que continuava com o seu andar superior abatido, a fazer lembrar a dobra de um fole de acordeão, creio que essa era uma visão optimista. O sismo tinha ocorrido há sete meses, mas, em certos pontos da cidade parecia ter sido no dia anterior, e, como sempre acontece em situações do género, a prioridade da reconstrução ia toda para os edifícios onde estavam sedeadas as grandes marcas comerciais, possuidoras de consideráveis somas de capital para injectar de imediato na gigantesca operação de reconstrução.

Entre as pessoas com quem falei na altura estava o senhor Mishishige Hamada, um desses católicos que resultaram da obra de evangelização de Francisco Xavier e seus pares no longínquo século XVI. Nos finais da década de 1970 habitara Macau, «por um breve espaço de tempo», e dessa «pacata cidade» guardava «as melhores recordações». A vida entretanto levara-o até ao Canadá, onde residia há mais de quinze anos, e de onde Hamada acabara de chegar, para ver em que estado tinha ficado a sua casa paterna. Apanhara o avião com destino ao novíssimo aeroporto de Kansai, logo no dia a seguir à tragédia.

– Felizmente nenhum dos meus familiares sofreu qualquer dano pessoal ou material – dizia.

Estávamos ambos sentados num pequeno restaurante escondido na arcada comercial de Motomachi, o bairro chinês de Kobe, sorvendo ruidosamente a nossa massa udon, servida em enormes malgas.

A poucas dezenas de metros dali, junto a uma antiga área residencial por tradição reservada aos estrangeiros, onde viveu Wenceslau de Morais, exercendo as funções de cônsul antes de se mudar definitivamente para Tokushima, onde viria a falecer, avistava-se um templo praticamente destruído. Foi nesse exacto local que, em 1868, por altura da abertura do porto de Kobe aos navios ocidentais, o samurai Masa Nobu Zenzaru Taki feriu com gravidade um soldado norte-americano que, de forma provocatória, se tinha atravessado em frente a uma procissão xintoísta em curso. O incidente levou ao agravamento das relações entre japoneses e ocidentais, tendo como trágico desfecho o bombardeamento da cidade levado a cabo pelos navios estrangeiros ancorados no porto.

Num opúsculo que intitulou Fernão Mendes Pinto no Japão, inicialmente publicado em crónicas no Comércio do Porto, Wenscelau de Morais tece alguns comentários, «cuidando corrigir», como ele diz, algumas coisas que escreveu o mais conhecido dos nossos viajantes.

Morais estranha, por exemplo, que Mendes Pinto, que ele considerava um «delicioso impressionista», não tenha dado o devido destaque à «formosa e impressiva paisagem japonesa», e, mais surpreendente ainda, que tenha ficado mudo «perante um outro enlevo do Japão, o enlevo feminino – a japonesa». Se se aceita como legítimo o primeiro reparo de Wenscelau de Morais, um apaixonado pelo Oriente, como bem se sabe, já não se pode aceitar o segundo argumento, pois Fernão Mendes Pinto realça por diversas ocasiões a beleza das japoneses, de resto, como o faz em relação às mulheres chineses e às mulheres das diferentes nações asiáticas que visitou.

Mendes Pinto diz-nos que, em certa ocasião, foi-lhes servida «uma muito abastada mesa de iguarias muito limpas e bem guisadas», e servida «por mulheres muito fermosas», notando ainda que muitos dos presentes se admiraram quando os viram comer com as mãos, pois no Japão, à semelhança da China, costuma-se «comer com dous paus», sendo considerada «muito grande sujidade fazê-lo com a mão, como nós costumámos».

Mais adiante, Mendes Pinto volta a realçar a beleza das nipónicas ao falar-nos de «seis moças fermosas e muito ricamente vestidas, em trajos de homens mercadores, com seus terçados e adagas de ouro na cinta, e de aspectos graves e autorizados, porque todas eram filhas dos principais senhores do reino». Aproveitando o ensejo, e agora estabelecendo um paralelo entre as culturas chinesa e japonesa, o aventureiro informa que os habitantes dessa terra «eram como os chins», pois «vestiam linho, algodão, e seda, com alguns damascos que lhe trazem do Nanquim», e que, como eles, eram também «muito comedores e dados às delícias da carne e pouco inclinados às armas, e muito faltos delas, por onde parece que será muito fácil conquistá-los».

Wenscelau de Morais conta-nos que, em 1839, na altura em que exercia funções em Macau, «como imediato da capitania, inspector do ópio e professor», tinha ido ao Japão, «comissionado pelo governo daquele território», para comprar num dos arsenais do império algumas peças de artilharia de montanha. Admite Morais que não pode reter um sorriso quando leu a passagem da Peregrinação que refere a introdução da espingarda pelos portugueses, «considerada a circunstância de ter vindo pedir armas de fogo aos japoneses, quando foi Diogo Zeimoto quem ofereceu aos japoneses a primeira arma de fogo que eles viram. Os tempos mudam: e, no teatro mundial, os papéis invertem-se, por vezes…»

Estranhamente, o senhor Mishishige Hamada, nado e criado em Kobe, bem perto da antiga legação lusa, do cônsul Morais, dedicado orientalista e confesso admirador da beleza e dos dotes da mulher local, nunca ouvira falar.

IIM LOGOTIPO - 2015 (15)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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