Tempo, tempo, tempo, tempo

 

(…)

 

Quando o tempo for propício

Tempo tempo tempo tempo

De modo que o meu espírito

Ganhe um brilho definitivo

 

(…)

 

Caetano Veloso

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O livro de José Luís Hopffer Almada, “Rememoração  do Tempo e da Humidade” (Imprensa Nacional Casa da Moeda), que temos em mãos para uma leitura prazenteira, sem recusar a nossa apreciação crítica, reconfirma algo já escrito nas estrelas das letras cabo-verdianas.

 

Hopffer Almada realiza neste seu novo livro a articulação de seis outros ‘livros’ – ‘A infância e os mitos assinalados’ e o subtítulo ‘Assomada nocturna revisitada’; ‘Terra Longe-Diásporas’; ‘Sanvicentinas (Reformulações Mindelenses)’; ‘Revisitações da Casa do Tempo e do Saber’; ‘Praianas’; e ‘(Es) pasmos da Desesperança e da Dor de Liberdade (ou Reencenações da Maturidade dos Tempos e dos Heróis Reinventados)’.  Livro que, aporta em subtítulo ‘Poema de Nzé di Sant’ y Águ’, que o ressignifica em completude assonante do verso em mote Lembras-te e dos versos em refrão Todos nós éramos/todos nós fomos; Livro que sectoriza o leitor para cada livro de cenários profusos, mas numa linha de remarcação do sujeito poético complexo.

 

O arco e a lira em José Luís Hopffer Almada também armam-se da recordação, da ontologia, da epifania e da litania. São orações, se quisermos, em toda a sua ambivalência, porquanto empreendem os  versos tanto na retroversão do passado (ecos e ressonâncias) do Poeta, como na prospecção do futuro (desejos e pulsares) no projeto poético tornado livro. Fica-nos a dúvida: será que a paixão vigorosa do puro texto a varrer a temporalidade o nascedouro do épico moderno?

 

Somos leitores de José Luís Hopffer Almada desde os seus versos, revelados aquando do Movimento Pró Cultura, na segunda metade dos anos oitenta do século passado. Temo-lo lido, com interesse e com expetativa, pondo foco nas suas máscaras poéticas plurais, diríamos mesmo nos seus heterónimos, e a perscrutar inovações estéticas que os novos tempos exigem. Temos acompanhado, amiúde, a sua decisão de buscar algo novo e diferente à linearidade, às crendices e às alfaias do fazer poético nacional. E, neste afã particular, estamos, ademais, alinhados à premência das ruturas estéticas que, cogitadas e ensaiadas, ainda não aconteceram em Cabo Verde. Este livro, nos seus pontos e contrapontos, afirma-se tentado ao diapasão do Novo Tempo.

 

 

2.

 

O livro “Tempos de um Tempo que Passou” (Acácia Editora), de Jorge Querido, que tivemos o privilégio de apresentar na Associação Cabo-verdiana de Lisboa, é um convite à leitura atenta, parcimoniosa e crítica. Passando um olhar sobre os vários tempos que compõem o Tempo Contemporâneo Cabo-verdiano, o Autor propõe-nos transitar por seus textos não só ao considerável equilíbrio, mas também na vertigem dos imponderáveis.

 

O que chama a atenção neste novo livro é a fluidez da linguagem e o sortilégio da narrativa a revelarem vários momentos existenciais e históricos. É a consciência crítica da função memorialista de um ‘eu’ que, na primeira pessoa do singular, não se desapega do coletivo, nem se aparta de coresponsabilidade na montagem do ethos nacional. Dito de outra forma: temos aqui o carrossel das temporalidades, levando voz interior e suas lembranças expostas, muito para além das instaladas e estafadas azias políticas. Temos aqui uma exposição estilística bem conseguida, amiúde, já denunciada no livro anterior, “Um Demorado Olhar sobre Cabo Verde”.

 

Momentos houve em que olhámos para esta obra como uma paráfrase de romance histórico. Em verdade, o que caracteriza o romance histórico é a narrativa ficcional a relacionar-se com factos históricos. A composição das personagens e dos cenários é feita de modo que estejam em concordância com documentos e dados históricos, oferecendo assim ao leitor uma noção da vida e dos costumes da época e dos tempos. Estamos perante uma narrativa factual, mas com deslocamentos e aproximações que entrelaçam literatura, experiência e figuração do tempo, baseados em documentos e dados históricos. Parecendo cumprir o vaticínio de Lukács, a temporalidade, nele gerada por uma lógica de encadeamento causal entre passado-presente-futuro, esbarra-se com um complexo hibridismo narrativo e documentado.

 

A escrita de Jorge Querido, ressalvando a sua singularidade e a sua dicção textual, num diapasão da tradição crítica que vem de longe nas letras cabo-verdianas, incorpora novos significantes, mas similar significado, toda uma linguagem que o identifica com escritores de exegese e de afrontamento cívicos das temporalidades, como amiúde foram, outrora, Eugénio Tavares, Pedro Monteiro Cardoso e Luís Loff de Vasconcelos.

Filinto Elísio

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