O Sopro de Pak Tai: Fraquezas e vícios lusitanos

1.Pak Tai

Foi em Junho, mês festivo para os kristang de Malaca, veneradores de São Pedro, o santo padroeiro, que pela primeira vez travei conhecimento com essa peculiar comunidade luso-descendente. Mas nem tudo eram rosas naquele «jardim à beira mar-plantado» – como descrevia um panfleto informativo, numa clara analogia ao nosso país.
 Os breves dias que passei no kampung foram suficientes para que me apercebesse de uma notória divisão entre as hostes locais. De um lado, pontuava o Comité dos Pescadores, cuja figura de proa era Patrick Félix, um homem de sessenta e cinco anos, mas que aparentava quarenta, que me ofereceu alojamento em sua casa. No lado oposto, uma espécie de junta de freguesia, o denominado painel, composto por dez elementos e liderado por um regedor nomeado pelas autoridades provinciais de Malaca. As desavenças eram mais do que muitas.
 Falava-se de pessoas infiltradas na comunidade para, em nome dela, tirar proveitos pessoais.

– A mim, por exemplo, consideram-me um forasteiro só porque não habito aqui – argumentava Harold de Melo. – Sei que não gostam de mim porque digo o que penso. Estão no direito deles. Não posso, no entanto, admitir que me discriminem. Sou um de Melo. Sou tão português como eles.
 Pelos vistos, o pescador era mais português do que certos elementos do painel. A começar pelo anterior regedor, Michael Young, de ascendência inglesa e sem qualquer antepassado luso, ao contrário do que acontecia com gente de apelido holandês como Denker, Overee e Zuzartee. Tão pouco era luso-descendente o ex-vice-presidente Michael Banerji, um bengali a quem acusavam de ter roubado material electrónico.

A propósito de oportunismos e apropriações indevidas, veio a lume o caso de uma senhora que se apresentara como portuguesa com o objectivo de conseguir um subsídio da Fundação Calouste Gulbenkian para comprar máquinas de costura, tendo em vista o ensino da arte do bordado junto das crianças do bairro.

– O dinheiro recebeu-o, mas até hoje, e já passaram muitos anos, ainda não vimos nem máquina de costura nem aulas.

As críticas eram também dirigidas a elementos da comunidade prendados com estadias em Macau e Portugal «e que nunca se preocuparam em partilhar a sua experiência». Era referida uma personalidade local (entretanto falecida) que tivera bolsa para estudar português e que, quando lhe pediram que ensinasse o que aprendera, exigira dinheiro.

– O mais grave – salientava Harold – é que esse senhor foi enviado para Lisboa em nome da comunidade, tendo por isso responsabilidades acrescidas.

Era precisamente devido à actuação do painel, «que está permanentemente a pedir donativos, por todo o país e até em Singapura, manchando o nosso bom nome», que os pescadores vinham a público reafirmar que não precisavam de esmolas. Apenas queriam salvaguardar o seu ganha-pão.

Nos bai no mar a note e dia, nos nang pobri. Nussa riqueza está no mar – dizia Félix, em kristang.

Como comprovativo dos pedidos indevidos, mostraram-me uma fotocópia com o relatório e contas de 1996, que esse órgão apresentava todos os anos por altura da Festa de São Pedro. Num dos itens, de uma lista de despesas que totalizava os 28 mil ringgits, claramente se discriminava um total de mil e 500 ringitts relativos ao «jantar e bebidas para o Governador de Macau, mulher e 100 convidados em 28 de Outubro de 1995».

– Já viu a vergonha?! – insurgia-se Patrick. – Esta lista correu toda a Malásia e Singapura, pois foi enviada aos doadores. Quem a leu poderá ter ficado a pensar que o Governo de Macau não quis custear o jantar de recepção e esteve dependente dos donativos que o painel foi pedinchar por todo o lado… Já viu a vergonha?!

Na lista havia ainda outros itens que indignavam o pescador.
 – Já viu algum mendigo, cego ou doente mental no bairro? Face ao meu negativo abanar de cabeça, replicou: 
– Então porque é que insistem em apresentar contas de gastos em festas para pobres, deficientes mentais, cegos e velhos?
 Na brochura das festas desse ano, os obséquios e agradecimentos estavam lá todos. Ao governo local, ao chefe do departamento de turismo e até mesmo aos próprios investidores.

– Não têm vergonha na cara – acusava Félix. – Pedincham como se fôssemos uns miseráveis. E fazem-no em nosso nome, o que é mais grave ainda.

Malgrado os protestos, o comité parecia não encontrar grande receptividade junto dos restantes pescadores, que se mostravam apáticos. Por seu lado, o painel queixava-se da falta de cooperação dos pescadores:

– Só lhes pedimos que tenham confiança – dizia-me um dos seus mais altos responsáveis, acrescentando depois em tom paternal:

– Sabe, muitos dos pescadores são iletrados.

Iletrados ou não, o certo é que esses homens do mar – herdeiros directos dos soldados e marinheiros de Albuquerque, que ali se miscigenaram com mulheres asiáticas, constituindo mais tarde famílias que ajudariam a povoar uma Macau ainda embrionária – não perdiam uma só ocasião para dar largas ao seu descontentamento.

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

IIM LOGOTIPO - 2015 (2)

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