O siso e o Siza

1.Estoril Tap Sec

 

O fraco rei faz fraca a forte gente. O ditame de Camões só não veste Macau como uma luva porque, de fortes, as gentes do burgo têm muito pouco: são fracos os governantes, que não escondem a vulnerabilidade sempre que sopra o vendaval dos grandes interesses, são péssimas as elites que não vêm o mais das vezes mais além do que o próprio bolso e é fraca e disforme a massa anónima que constitui a sociedade civil do território, que se contenta e se desculpa com o imediato para não ter que indagar sobre o legado que irá deixar às novas gerações. Substitua-se “o panem” dos romanos pelo sushi de alguns restaurantes que caíram nas boas graças da classe média e o “circenses” com que Nero entretinha a prole por uns quantos desfiles e espectáculos de fogo-de-artifício e eis Macau, sem tirar nem pôr.

O silêncio, tão prezado em algumas filosofias orientais, chega, no território, a ter o efeito contrário: chega a ser incomodativo, irritante mesmo. Mas não tão irritante como uma certa hipocrisia que permeia o processo de decisão política, conformado que está pela obrigação de dar uma aparência democrática ao que democrático nunca foi.

Um dos préstimos de se viver num regime não democrático é o de se saber, de certo modo, aquilo que se pode esperar de governos não eleitos e não representativos. Ninguém ficaria verdadeiramente surpreendido se amanhã ou um destes dias a junta militar tailandesa, por exemplo, se decidisse encerrar jornais independentes, dado que encerrar jornais, perseguir a oposição e oprimir minorias foi algo que outras juntas militares fizeram no passado em circunstâncias idênticas. No fundo, ninguém em seu perfeito juízo espera de um regime autocrático ou não-democrático decisões de natureza democrática, que tenham em conta as convicções ou os interesses da maioria.

Não sendo necessariamente autocrático, o sistema político do território de democrático também não tem muito. Dizer que Macau é uma democracia por dispor de um hemiciclo subordinado ao Governo com quarenta e tal por cento de deputados eleitos directamente pela população é esticar o elástico em demasia e cair despudoradamente no exagero. Ninguém na posse plena das suas faculdades acredita, por exemplo, que a Assembleia Legislativa aprove uma proposta de lei sindical apresentada por Pereira Coutinho e o diploma até pode ser apresentado mil vezes. Ou que o Governo, num rasgo de lúcida sensatez decida arriscar-se por caminhos ínvios e submeta a plebiscito popular o futuro de Coloane, uma hipótese circunstancialmente inviável dado que a figura do referendo não faz parte do cardápio político do território e não está inscrita na Lei Básica. Um das características dos regimes não-democráticos é mesmo essa: excluir o que à partida seriam as soluções mais representativas e consensuais.

Não sendo carne, nem peixe e não devendo, em abono da verdade, justificações ao eleitorado – uma vez que não é produto de um escrutínio por sufrágio universal –  o Governo poderia muito bem dar-se, de quando em vez, ao atrevimento de mandar um murro na mesa e decidir, em vez de nos enloular a todos com consultas públicas e conselhos consultivos que ao invés de agilizarem os processos de decisão, o  enredam numa teia de interesses. Em aspectos como a lei laboral, sobretudo nos capítulos atinentes à maternidade, a salvaguarda irredutível do património ou mesmo a defesa dos valores ambientais, medidas sensatas de governação seriam garantidamente bem acolhidas por uma esmagadora maioria da população.

Um murro bem dado na mesa, em certas circunstâncias, poderia até fazer milagres em prol da imagem do Governo ou, pelo menos, poupá-lo à vergonha e ao despudor. Veja-se o caso do hotel Estoril. O anúncio de que a obra que vai nascer no lugar do antigo complexo hoteleiro já não terá a assinatura de Siza Vieira fere de morte as boas intenções de Alexis Tam e rouba razão ao secretário no longo braço-de-ferro que manteve com os que defendem o valor patrimonial do edifício. Ainda que o Estoril não seja um portento arquitectónico, não é exactamente o mesmo ver nascer no seu lugar uma obra de Siza Vieira ou um projecto com a assinatura de sabe lá Deus quem. E não é, porque nenhum arquitecto em Macau, por mais dotado, competente e inovador que seja tem um Pritzker no currículo e parte importante do charme da empreitada de requalificação do Tap Seac (senão mesmo o único motivo) desaguava nesse desígnio maior de se assistir à substituição de património – com capital histórico ou emocional ou seja lá o que for – por património de outra natureza, a do prestígio que só um arquitecto com uma carreira como Siza Vieira (ou Zaha Hadid ou Frank Gehry ou Rem Koolhaas) pode trazer a uma cidade.

A novela do Estoril sempre teve um enredo demasiado abstruso para que o processo fosse olhado de forma racional e desapaixonada, até porque o casamento entre o tradicional e o contemporâneo quase nunca foi feito, nesta cidade, de modo consensual e as diversas intervenções de que a zona do Tap Seac foi alvo ao longo dos anos são disso um exemplo. Siza trazia uma certa nota de dignidade ao projecto e agora que se sabe que do Pritzker português não rezará a história, pouco mais há a ressalvar do que uma certa ideia de que nos venderam de novo gato por lebre: o que se prefigurava um projecto de grande potencial arquitectónico e turístico está desde sexta-feira reduzido à insignificância porque o Governo vacila ao primeiro sopro e se mostra incapaz de dizer: “Meus amigos, quem decide somos nós”.

A este Governo falta que lhe cresça qualquer coisinha. Coragem, garras e um ou outro dos dentes do siso, porque deles se diz que trazem consigo juízo. Pode ser que com os dentes e com o tino, chegue também maior responsabilidade e maior respeito por quem é governado.

 

Marco Carvalho

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