Em busca de um reposicionamento para a matriz cultural de Macau

 

2-minchi

A popularidade do conceito «cultura» na actualidade é inegável. Não há contexto onde a condição humana esteja presente que não o reclame como objecto de estudo, de análise, de interpretação e de explicação, seja ela considerada na óptica macro ou micro social, a necessidade de o reposicionarmos nas várias vertentes que o utilizam e o reclamam torna-se premente e, nesse sentido, a referência à ciência antropológica é inevitável.

Na realidade, a Antropologia –  às vezes por culpa própria – esconde-se por detrás de uma visão hermética e ortodoxa, receando alargar a sua visão sobre realidades que lhe fogem ao caminho traçado, permitindo assim uma utilização distorcida e o consequente abuso conceptual do conceito desligado desta ciência, o que acontece, particularmente, no contexto das várias versões sobre a cultura da sociedade macaense no sentido ampliado.

Nos últimos 20 anos, temos assistido ao desmoronamento de algumas das grandes teorias no domínio das ciências sociais, ou seja, das certezas adquiridas passámos às incertezas embrionárias que as novas abordagens vão suscitando.

Numa primeira aproximação sobre esta questão, podemos admitir que reina alguma confusão e bastante fragmentação no campo teórico das ciências sociais em geral, e do conceito de «cultura» em particular, tal é o número das novas teorias e novas abordagens que se evidenciam, todas elas reclamando o sentido mais apropriado para o lugar da análise do fenómeno social, o que as torna quase em lugares de “não ciência”.

No entanto, esta dinâmica tem permitido também dar alguns passos no sentido de uma eventual ruptura epistemológica: isto é, as ciências sociais no geral, começam a desistir de adoptar o “caminho” das chamadas ciências exactas (ou não sociais) para procurar outras abordagens que não sejam o da analogia de fazer leis nomotéticas de aplicação universal que reinam no mundo físico e natural. Porém, esta posição ainda não é definitiva.

Por detrás desta confusão que se estabeleceu, emerge uma nova vontade e um novo esforço em compreender de forma mais minuciosa o mundo do social e o mundo dos “Homens”, essencialmente, a partir da possibilidade de separar os dois mundos, o físico-natural e o social, sem no entanto, descurar a possibilidade da inter-relação de ambos num ciclo de relação permanente entre o Homem e a Natureza e vice-versa, estimulando a formulação de leituras distintas para uma e outra realidade.

A vontade de explorar esta dualidade tem-se revelado mais intensa na produção de ideias do que propriamente na tentação em formular mega teorias, o que tem gerado uma produção em exponencial de pequenas teorias emergentes que se baseiam em observações assentes quer numa etnografia descritiva, quer numa especulação de empirismo abstracto, nomeadamente, no que se refere aos estudos sobre as singularidades locais, como é o caso de Macau.

A própria Antropologia não constitui excepção a esta regra. Múltiplas foram as trajectórias e experiências saídas destes últimos 20 a 30 anos. Apenas a título classificatório podemos aqui referir uma possível categorização agrupada em três grandes movimentos:

  • Um primeiro, que se centra nos estudos em torno da pessoa/indivíduo, (p. ex. as questões de género, identidade, cognitivas etc.)

 

  • Um segundo, em torno dos estudos sobre as práticas dos actores sociais em grupo nas sociedades (p. ex. as configurações culturais, os agrupamentos sociais, as comunidades, etc.)

 

  • Por fim, um terceiro, centrado nos estudos sobre as instituições e as representações colectivas (p. ex. o simbólico, os códigos linguísticos, as estruturas sociais, etc.)

Partindo desta constelação, a Antropologia tem vindo a tomar uma posição mais interventiva na percepção das dimensões que lhe dizem respeito no quadro interpretativo das sociedades singulares e por consequência do contexto e das dinâmicas onde as mesmas se desenvolvem.

Em boa parte a Antropologia tem vindo a alicerçar o conceito de «comunidade» ao contexto das sociedades singulares, retomando o princípio do sentimento de pertença e a ordem de inclusão/exclusão que as mesmas comportam, ou como foi já sugerido várias vezes nestas crónicas, a necessidade de realçar as bases de uma abordagem antropo-cultural (apesar da redundância) que valorize a singularidade de Macau no seu «modo de vida» específico sem a excluir como protótipo de uma sociedade contemporânea onde o individual e o institucional emergem como referência à própria modernização chinesa.

O tema por si só não se esgota nestas breves linhas, como é óbvio, apenas temos a pretensão de ir “alimentando” as apreciações que vamos formulando em torno de Macau nas suas várias abordagens quando a queremos enquadrar no seu modelo cultural.

———————————

Carlos Piteira

Investigador do Instituto do Oriente

Docente do Instituto Superior de Ciências Socias e Politicas / Universidade de Lisboa

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s