O Sopro de Pak Tai:Onde pára o padrão de Duarte Coelho?

 

FOTO Pak Tai desta semana (1)

Contemporânea de Macau e Malaca, Hoi An, vila ribeirinha a sul de Danang, na costa vietnamita, era conhecida outrora pelo nome de Faifo e, entre os séculos XVI e XIX, foi um dos mais importantes portos internacionais do Sudeste asiático. Os seus habitantes referiam‐se aos portugueses – os putaonhá – como os primeiros europeus a chegar ao Vietname, mas ficavam por aí, desconhecendo que a norte, a pouco mais de mil quilómetros da sua terra, o território de Macau – para onde alguns (será mais correcto dizer, algumas) começavam a «emigrar» em grande número, e muitos outros ali tinham encontrado refúgio, depois de meses à deriva nos mares do Sul da China, sujeitos às intempéries – teve mais de quatro séculos para se habituar à presença desses estranhos de nariz comprido e pêlo no corpo que, entre outras bagagens, trouxeram a espingarda e a cruz para estas paragens. Desconheciam ainda que qualquer vinho português de marca, depois da devida divulgação, enfiaria na prateleira do esquecimento as garrafas de Chianti e de outros vinhos italianos que já então lhe inundavam o mercado.

Nguyen Dru, um dos vários pintores locais que ali conheci, falava francês e inglês com uma fluidez admirável, sobretudo se considerarmos as raras ocasiões que tinha para comunicar com estrangeiros: «Há muitos ocidentais que visitam o nosso país, porém, a grande maioria não tem qualquer contacto directo connosco», queixava‐se, perguntando‐me depois, algo admirado: «Mas vivem portugueses em Macau?» Embora não soubesse desse elo de ligação entre Portugal e Macau, Nguyen estava ciente que fora um grupo de aventureiros portugueses que, em 1516, inaugurara a era do contacto vietnamita com o mundo ocidental. Entre esses aventureiros, o nome de Duarte Coelho, que também deixou pegadas pelo Brasil, é o mais relevante. Continua por localizar um padrão que ergueu algures na orla costeira dos antigos reinos do Tonquim, da Cochinchina e de Champa, que correspondem ao actual território vietnamita.

Não só não deixámos fortalezas no Vietname como recusámos, por diversas ocasiões, a oferta dos soberanos locais para que erguêssemos bairro e feitoria na antiga cidade de Tourão (actual Danang), embora aí tivéssemos comerciado intensamente, assim como em Faifo e Sinoa (actual Hué), e ainda em portos mais a norte, vizinhos de Hanói.

Muito há ainda a investigar, a desmistificar e a divulgar no que se refere às relações dos portugueses de Macau com as famílias rivais dos Nguyen e dos Trinh, senhores dos reinos da Cochinchina e do Tonquim, respectivamente, ambos fiéis vassalos do imperador da China. Tanto um como outro tentaram sempre atrair os mercadores portugueses à sua área de influência, se bem que tenha havido longos períodos de interdições ao comércio e até guerras, provocadas sobretudo pelo excesso de zelo dos missionários que chegavam a todo o lado a bordo das embarcações mercantis.

Ao longo de todo o processo de expansão, a religião e o comércio estiveram sempre associados, para o bem e para o mal. Para que pudessem exercer a sua actividade livremente, padres e comerciantes tinham de se munir de valiosos presentes, pois, nessa matéria, os Trinh e os Ngyuen eram insaciáveis. Fundamental para a manutenção das boas relações foi o fornecimento de tecnologia militar, de armas e de homens que davam formação aos exércitos locais. Nessa área há a salientar o papel de um mestiço de Macau, João da Cruz, principal fundidor na capital imperial de Sinoa. Existem ainda hoje, espalhadas pelos terrenos intramuros da fortaleza dessa cidade, canhões, bacias, caldeirões e outros objectos de bronze que ostentam o seu selo.

No rasto dos mercadores, em 1527, vieram os missionários dominicanos, e, em 1535, o primeiro militar, o capitão António Faria, ao que consta, responsável pelo estabelecimento do entreposto comercial português em Faifo. Outros missionários portugueses chegariam, entretanto, acabando por estabelecer uma missão em 1596. Mas só 19 anos mais tarde, quando os jesuítas, expulsos do Japão, foram autorizados a entrar no Vietname, é que o cristianismo ganhou verdadeira solidez. No ano da graça de 1615, chegavam a Hoi An, vindos das terras do Sol nascente, o napolitano Francisco Buzoni e o português Diego Carvalho, os dois primeiros jesuítas a colocarem os pés em território vietnamita. Com eles vinha o leigo António Dias e Joseph Paul, um japonês convertido.

Bem cedo os europeus se deram conta da extrema dificuldade em efectuar um comércio rendível com o Vietname e de propagar aí a fé cristã. Uma a uma, as delegações ocidentais foram abandonando as respectivas feitorias e, após 1700, apenas os portugueses eram capazes de manter relações comerciais com aquele país, numa época em que o declínio do império das quinas era já um processo irreversível. Ficaríamos por aí. Até hoje.

Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

IIM LOGOTIPO - 2015 (2)

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s