Dia da África 2016

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L’Afrique doit redevenir l’Afrique.

Cheikh Anta Diop

 

Olha-se para a África, com sentido de pertença e de engajamento. Por isso, com sentido crítico. Olha-se para o Continente que celebra, no dia 25 de Maio, o Dia da África, com otimismo responsável, sem recusar o “orgulho africano”, nem aceitar o esmorecimento diante do destino presente e premente de mais de 1,1 mil milhões de africanos e centena de milhões da sua diáspora.

 

Centra-se um demorado olhar pelas diferentes dinâmicas, já que o Continente, sendo plural e diverso em suas realidades, com as suas funcionalidades e disfuncionalidades, com as suas congruências e incongruências, requer dos africanos um olhar próprio, de não incorporação acrítica dos olhares outros (não negligenciáveis, diga-se) sobre a África. Um demorado olhar, diríamos, para além desta efeméride e deste jubileu. Que novos (e outros) discursos, para além do puramente celebrativo e estival, devemos, nas atuais circunstâncias, reformular? Com que óculos devemos olhar para a África e com que sintaxe devemos montar as nossas elucubrações e elaborações?

 

Antes de mais, serenidade, muita serenidade. Apearmo-nos de uma espécie de otimismo inconsequente e pararmos de “mistificar as realidades” em projeções mirabolantes, sendo que estas não se sustentam diante das realidades.

 

Por conta do olhar enviesado, um discurso afirmativo insiste que, dos 20 países que mais crescem no mundo, 10 estão na África, e que, por isso, o pesadelo, o longo pesadelo imposto pelo colonialismo, havia terminado, foi posto a circular um pouco por todo o Mundo. O discurso dos “novos tempos”, claramente exagerado e recorrente, previa para 2015 o mesmo crescimento médio da China e, com esta previsão tão-somente, incorporava-se todo um ideário da África Insubmissa – numa leitura pouco complexa da tese inovadora de Achille Mbembe -, como se o surto do crescimento económico de per si e o enunciado do devir fossem a panaceia para os grandes males prevalecentes.

De permeio, o próprio crescimento económico da África Subsaariana desacelerou-se e reduziu-se à taxa média de 3,3%, em 2016 (número bem abaixo do aumento médio de 6,8% do Produto Interno Bruto, registado entre 2003 e 2008). Note-se que o surto, entre outras coisas, agitou, numa cadeia de reações, a classe média de modelo ocidental, o olhar com otimismo irrealista, o discurso eufórico e o consumo desenfreado.

Entrementes, os desafios (internos e externos, senão mesmo globais) estavam ali a condicionar as economias subsaarianas, por conta do agravamento das secas, de pontuais instabilidades governativas, de acentuadas tensões sociais e de instabilização das commodities, reduzindo os termos de troca da África em 16 % neste corrente ano. Mercê de tais retrações e revezes, sabe-se que tudo anda agora muito longe do crescimento de qualidade e do desenvolvimento sustentável que se almejaria para o Dia da África 2016. O crescimento económico, mesmo aquele do curto período áureo, por si só não se revelaria suficiente para reduzir a pobreza, combater o desemprego persistente, as desigualdades de renda e a deterioração da saúde e educação. As divisas estrangeiras entraram em dinâmica de rarefação e pressente-se o desinvestimento em alguns sectores produtivos.

E, como tudo é dialético, novos discursos emergem das realidades dos países africanos. Que a África não se confine às economias pesadas e de matérias-primas exportáveis, mas sim reencontre as suas várias potencialidades e alargue, diversificando, a sua produção económica, não se negligenciando de ‘lapidificar’,  em tal contexto, o seu capital humano. Que a África não se confine ao “hard power”, mas entre na corrida pela afirmação e valorização do seu “soft power”, eis a questão. Através do conhecimento, da ciência e da tecnologia, bem como do Humanismo, no emaranhado dos seus intangíveis, como a Cultura, a determinarem, em última instância, a resiliência, a competitividade e a prosperidade.

É tempo, em 2016, de evoluirmos sobre o lugar mítico da África como ‘eterno’ Continente do Futuro, já que esta verdade por si só não nos empresta vantagens competitivas, e instalarmo-nos, com mais causa e mais consequência, no conceito de espaço do Humanismo (com soberanias cooperativas, democracias funcionais, liberdades individuais e desenvolvimentos como objetivos), olhando, com inteligência criativa, para o Continente que, em 2050, alcançará os 2 mil milhões de habitantes. Transmigrar da exclusividade do “hard power” para a incorporação do “soft power” exigirá o fortalecimento das sociedades civis africanas e revisão ideológica das elites em prol de novas (e outras) formas de vidas não subalternas e não marginais para a larga maioria dos africanos. A crítica para nos defendermos da crise ininterrupta, porque, hoje, esta transcende a herança colonial e se densifica não só pela ordem mundial, mas também pelas ordens nacionais.

 

Assumamos a crítica como o antídoto à crise, posto, lato senso, esta tornar-se-ia crónica (e quiçá estrutural) na ausência daquela. Saibamos engendrar, com forte sentido das nossas soberanias e das nossas identidades, uma crítica das nossas “razões africanas”, suscetível de fazer um diagnóstico real (e realista) das situações do subdesenvolvimento e de promover um quadro de transformações rumo ao desenvolvimento sustentável, ao regime do direito e das liberdades, à qualidade de vida para todos.

 

Isso significa que devemos um novo olhar para a sustentabilidade ambiental, a educação de qualidade, a produtividade agrícola, mineral e energética, a industrialização tecnológica, a reformatação da economia informal em fiscal, o reforço da massa financeira (como elemento de investimento interno e externo) e o crescimento com qualidade (baseado em políticas sociais inclusivas, que buscam reduzir as desigualdades).

 

“Quand parlera-t-on de Renaissance africaine ?”, perguntou Cheikh Anta Diop. Responde-se em dia como o de hoje. Que o Dia da África 2016 abra espaço de reflexão e debate sobre estratégias de desenvolvimento sustentável, subsidiando os decisores para recentrarem, entre muitos, em dois objetivos alargados  (global e continental), para cada país africano, respetivamente os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, preconizados pela ONU, com meta de realizações socioeconómicas e ambientais no Horizonte 2030,  e a Agenda 2063, preconizada pela União Africana, uma iniciativa de 50 anos para a alavancagem dos segmentos da sociedade africana na construção de uma África próspera e unida.

Olha-se para a África, a poder ser próspera e unida, com sentido de pertença e de engajamento. Por isso, com sentido crítico, pois este é o momento de uma Agenda de Transformação para a Renascença Africana.

 

Filinto  Elísio, Cronista e Poeta Cabo-verdiano.

 

 

 

 

 

 

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