O Ouvidor Ocidental: Os impérios do mar e da terra

 

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Sem o mar os portugueses ter-se-iam perdido no labirinto terrestre da Península Ibérica. Ficariam reféns das fronteiras que não descortinaram nos oceanos, últimas fronteiras de todos os sonhos. Em 1803, o bispo de Macau escrevia para Portugal: “Assim tudo em Macau anda a risco do mar”. É mesmo Charles Boxer que o cita, ele que, não por acaso, fala do império marítimo português. As palavras do bispo tinham a ver com a vulnerabilidade de Macau, e de outros portos ocupados pelos portugueses, face às forças da natureza. Fugindo de terra, os portugueses sabiam que ela garantia segurança. Mas, por outro lado, foram percebendo que a natureza tem as suas próprias leis que poucas vezes se encaixam com as que os homens desejam. Quando enfrentaram o mar não descobriram apenas sereias encantadoras. Deram de caras com Adamastores vários e com a fúria das marés, da chuva e dos ventos que nunca conseguiram dominar. Tentaram ser deuses, como Camões muito bem explicou, mas a maior parte das vezes foram meros seres impotentes face a poderes que desconheciam.

Não foi por acaso que os marinheiros portugueses, nos primeiros tempos, sempre preferiram navegar com vista para terra. Para muitos europeus, habituados à protecção de um mar interior como era o Mediterrâneo, o Oceano Atlântico era um mundo sem fronteiras. E sem margens conhecidas. Mas era uma massa de nevoeiros e de criaturas marítimas desconhecidas. Os portugueses acabaram por estabelecer uma nova mitologia. O temível oceano deixou de ser um monstro que tudo derrotava. Passaram para o outro lado do espelho. E as ilhas míticas sonhadas pela ficção grega ou romana tornaram-se reais. Conquistando o mar, os portugueses fizeram por esquecer a terra de onde vinham, que era pobre e sem destino.

Para desafiarem os ventos e os nevoeiros os portugueses tiveram um portento tecnológico para a época. A caravela, desenvolvida a partir da década de 1440, era um barco suficientemente forte e manobrável para desafiar todos os Adamastores do mundo. Era um barco ligeiro, de 60 a 70 toneladas e com 20 a 30 metros de comprimento. Com um único convés, tinha dois ou três mastros e velas redondas, que eram ideais para viajar pelo desafiante oceano. Era o fruto de uma nova experiência: afinal as velas triangulares eram opções muito melhores para utilizar nos estuários ou junto à costa. As caravelas foram pontas-de-lança para as primeiras aventuras oceânicas, na Madeira, nos Açores, em Cabo Verde, algo que permitiu ganhar fôlego para outras viagens como a que, depois, Bartolomeu Dias fez para transformar a identidade do Cabo das Tormentas em Cabo da Boa Esperança. O mar tornou-se a linha da vida do destino dos portugueses, fosse por causa do comércio, da fé ou, simplesmente, da sobrevivência longe da Europa. Não deixa de ser curioso confrontar a tecnologia portuguesa das caravelas com a dos 300 barcos do almirante Zheng He que, em 1405, se fizeram ao mar, rumo ao Sudoeste Asiático e ao Índico. Durante três décadas o império Ming iluminou as águas orientais. Estes barcos faziam as caravelas portuguesas parecer formigas sobre a água: eram três a quatro vezes maiores. Em 1440 os destinos de Portugal e da China tomaram rotas diferentes: os portugueses conquistavam o oceano, os chineses viraram-se para o seu império terrestre, olhando para as fronteiras, sentido a terra debaixo dos pés. Outra coisa os separava: o comércio, para os chineses, era uma actividade criminosa. Para os portugueses era a liberação das grilhetas ferrugentas da terra. Os portugueses, ao deixarem a costa, e ao embrenharem-se no mar, para ladear o Cabo das Tormentas, cortaram finalmente a derradeira ligação a terra. O mar era o seu paraíso, a sua ilha de todos os amores. O mar passou a ser o centro de tudo no seu paradigma, como mostrava a cartografia genial desses séculos XV e XVI. A terra passava a ser secundária. O mar era o centro do mundo. Para a China o império do centro tinha a ver com terra. Talvez isso seja lógico para uma nação já com dezenas ou centenas de milhões de seres e outra que era como uma aldeia chinesa. Para os grandes impérios a terra unia. Para Portugal era o mar o centro de unidade. Não foi por acaso que os portugueses só muito tarde – em finais do século XIX – se aventuraram no interior de Angola ou Moçambique. Os portos ou feitorias, junto ao mar, eram as suas lingas de sangue, que permitiam o contacto com todos os centros do império marítimo. A terra do interior era mais difícil de defrontar do que o Adamastor. Era o mar que definia a estratégia imperial. Não foi por acaso que, em princípios do século XVII, Frei Vicente de Salvador, dizia que os portugueses do Brasil eram como caranguejos, por estarem sempre muito próximos da linha da costa. Isto quando estavam em terra, a olhar para os confins do oceano.

 

Fernando Sobral, jornalista e escritor. É o autor de “O Segredo do Hidroavião” e de “As Jóias de Goa”.

 

 

 

 

 

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