O Sopro de Pak Tai: Um uigur em Macau

FOTO Pak Tai (2)

Numa das minhas incursões pelo interior da província chinesa de Xinjiang, já lá vão uns bons anos, desencantei uma boleia na camioneta de uma trupe de cantores, músicos e dançarinos residentes na cidade de Kashgar, que iam em digressão. Durante quinze dias acompanhei‐os nesse seu périplo numa região que, na altura, estava interditada a todos os estrangeiros, sem excepção. Mas, passando umas vezes por tajique, outras por russo, outras ainda por elemento da companhia, consegui evitar o controlo das autoridades locais, e assim viajar mais ou menos despercebido.

Os espectáculos decorriam em velhos teatros com um charme muito próprio que, pouco anos depois, os bulldozers reduziriam a um monte de escombros, tendo sido erguidos em sua substituição caixotes de vários andares cobertos de ladrilhos brancos e vidros escuros. Nos anos que se seguiriam teria ocasião de testemunhar diversos atentados contra o património arquitectural, como seja a demolição de uma parte significativa do Hotel Qinibagh, onde fui agredido só porque tentava resgatar alguns dos livros da biblioteca que levavam em carros de mão para uma fogueira.

O fascínio que sentia pela cultura local levou‐me a aprender algo do idioma uigur, mas não o suficiente para comunicar razoavelmente. Não obstante, estabeleceu‐se entre mim e a trupe um forte elo de amizade, sobretudo na pessoa de Abdul Imit, um dos solistas de tembur, um instrumento tradicional de cinco cordas, braço comprido e som metálico. Foi na dupla condição – de uigur e músico – que Imit conseguiu ultrapassar fronteiras, actuando em Tunes, Paris, Java e nalgumas cidades do Japão, o que fazia dele um dos raros cidadãos chineses comuns naturais de Xinjiang que cometera a proeza de viajar no estrangeiro. E não fora através de qualquer conhecimento nas esferas do Partido Comunista ou por sucesso económico de mérito próprio. Apesar de jovem, Imit era já um virtuoso na arte de bem tocar esse instrumento tão determinante na execução das mokam, as sinfonias que retratam as tragédias e alegrias na história dos uigures.

«Todos os mokams reunidos perfazem mais de trinta horas de música», dizia ele. Falava disso e de outros aspectos da cultura do seu povo, sempre que o visitava na sua modesta casa situada no complexo habitacional que rodeava a escola de música. Na China de então, os artistas – músicos, dançarinos, actores ou pintores – viviam sempre nas imediações dos locais de trabalho ou de estudo.

Abdul Imit prezava os costumes antigos que vale a pena guardar, nunca se esquecendo de apresentar ao visitante um jarro com água morna, para que este lavasse as mãos antes de beber o chá e comer o pão de rosca ou o melão que lhe eram oferecidos, como manda a tradição. Vivia para o tembur e para o filho de cinco anos que transportava no selim da bicicleta sempre que ia ao mercado fazer as compras caseiras. Nas horas livres, interessavam‐lhe os livros de História e Geografia, mas também os episódios sagrados do Alcorão. As ruidosas comezainas e bebedeiras dos amigos deixavam‐no com um sorriso ao canto da boca e os olhos semicerrados, como quem dizia, «já dei para esse peditório». Alheio a vedetismos, Imit dedicava‐se de corpo e alma ao instrumento que elegera, costumando tocar o Bella Ciao e fazendo algumas incursões despretensiosas no universo musical ibérico. Foi com espanto que o ouvi tocar Abril em Portugal, com todo o sentimento de um guitarrista de fado, apesar de estar longe de saber que executava uma cantiga portuguesa.

Graças ao amigo Imit tive também o privilégio de presenciar um casamento uigur. De madrugada ainda, uma pequena orquestra dirigiu‐se à casa da noiva para animar os convivas que, ao longo de toda a manhã, aí se juntaram para bebericar chá e saborear o pulau – arroz de cenoura comida à mão –, o pão com cebola e o delicioso melão. Da parte de tarde visitou‐se a casa do noivo, onde igual confraternização teve lugar, com a devida música, comida e bebida. Muito discretamente, num dos recônditos da casa, e só para a rapaziada mais chegada, era servido o tão cantado e semiproibido ak arak, potente aguardente local.

Chegado o crepúsculo, os amigos do noivo partiram com ele nas traseiras de um camião, fazendo soar cornetas e tambores pelas ruas da cidade, ao mesmo tempo que lhe gritavam aos ouvidos insultos amigáveis. Era a despedida de solteiro. Quanto mais barulhenta e estridente, melhor era a festa.

As mudanças entretanto operadas na China permitiram a Abdul Imit retomar as suas andanças, e qual não foi a minha surpresa quando, volvida década e meia, vejo o seu nome na lista da trupe de músicos do Xinjiang que se apresentaria esse ano no Festival de Artes local. Estávamos em finais de Abril, e foi com uma enorme alegria que revi esse amigo de longa data, fazendo questão que ele tocasse de novo ao tembur o Abril em Portugal, desta feita em Macau.

Joaquim Magalhães de Castro. Escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

IIM LOGOTIPO - 2015 (2)

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