Sentido da realidade e sentido de Deus

1.Luis Sequeira

Na passada semana celebrámos a Ascensão do Senhor. No próximo Domingo recordamos a Festa do Espírito Santo, aquele que o Senhor Jesus prometeu enviar, depois da Sua subida aos céus. «Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi elevado ao Céu», assim se expressa o Evangelho de S.Lucas.  Sobre o mesmo facto, porém, os Actos dos Apóstolos revelam outros pormenores, quando declara que «… e estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava, apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco, que disseram: ‘Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O  viste ir para o Céu.»

Estas  passagens do Novo Testamento que, à primeira vista,  poderão parecer que nada têm a ver connosco, com o nosso dia a dia,  deixam-nos,  afinal e  bem ao contrário das nossas primeiras reacções, perante uma realidade que não podemos nem devemos  procurar ignorar. É  necessário saber  viver a nossa vida quotidiana com  ‘o sentido da realidade’, ‘ter os pés na terra’. É também igualmente necessário encarar  sempre a vida com ‘um toque de Deus’ e  ‘sentido de eternidade’.

Contudo,  não nos podemos deixar cair nos extremos,  nem no espiritualismo nem no materialimo. Somos tão espirituais, tão piedosos, tão obsessivamente de Deus que perdemos a noção da realidade que nos circunda,  daquilo que somos  verdadeiramente e Deus torna-se um tirano, fruto da nossa imaginação em desiquilibrio. Por outro lado, um apego compulsivo e desenfreado às coisas materiais, aos  bens de consumo e ao bem-estar, à boa e ‘dolce vita’, torna-nos superficiais, mundanos, sem o sentido ‘ das coisas do alto’. Torna-nos incapazes de perceber ‘a presença amorosa de Deus’ no decorrer normal e natural da nossa existência.

Mulher ou Homem, viver a sua existência com grande ‘sentido da realidade’ e sentido da sua ‘circunstância’,  e viver  igualmente essa mesma existência com profundo ‘sentido de Deus’, ‘sentido de eternidade’,  é viver  também,  estou convencido, pela força do Espírito Santo, aquele mesmo que nos é apresentado neste Domingo.

Todo o esforço humano à procura da Verdade e da Justiça,  do Amor e da Solidariedade,  da Reconciliação e da Paz, da Compaixão e do Perdão e da Beleza e da Perfeição  participa, consciente ou inconscientemente, da força e poder do Espírito de Deus.

Mas,  Jesus Cristo vai mais longe e declara : «O Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo que Eu vos disse.» Assim, o Espírito Santo abre-nos à  experiência íntima de Deus Criador e Senhor do Universo e revela-no-Lo como Pai.  O próprio Jesus acrescenta que o Espírito Santo ensinará tudo e toda a Verdade sobre Ele mesmo.

Segundo o Mestre toda a pessoa humana tem não só a capacidade de chegar ao conhecimento de Deus mas possui, natural e intrinsecamente, também a inclinação e aspiração  para a intimidade com Deus.

 

 

Luís Sequeira, Jesuíta e antigo Superior da Companhia de Jesus em Macau. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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