O Sopro de Pak Tai:Pensão Parque

1.Foto Joaquim Magalhães de Castro

O aeroporto de Maputo é um desses aeroportos com vista para a pista, ou melhor dizendo, com terraço no primeiro andar onde crianças com os olhos iluminados e encarapinhados e motivos geométricos no cabelo vão ver os aviões poisar e levantar. O aeroporto do Funchal também é assim, só que ali o Atlântico está mesmo ao pé e há um horizonte montanhoso como barreira natural, enquanto neste paralelo é o Índico que banha um litoral suave e para o interior estende-se um imenso país. As aeronaves estão a uns meros passos de distância, não sendo por isso necessário qualquer transporte adicional.

Embarco num voo para Nampula na companhia de cidadãos moçambicanos, de estirpe africana e indiana, três chineses e um grupo de seis norte-coreanos, dois homens e quatro mulheres, duas delas com um colchete com a imagem do querido líder Kim Il Sung espetado na camisa, à altura do seio esquerdo. Não vale a pena tentar estabelecer contacto visual com estas criaturas com as quais tão raramente nos deparamos, e só em locais específicos como a China, a Mongólia ou até Macau, onde existe (ou existia) uma importante delegação comercial desse país. Parecem ter sido programados para não mostrar qualquer emoção e evitar o contacto com quem quer que seja. Mesmo aquele que trata dos bilhetes, exprimindo-se num português sem mácula, limita-se ao essencial. Meia hora mais tarde, já no momento do embarque, consigo arrancar um breve sorriso a uma das moças, o que considero uma verdadeira vitória.

Sentado na fila 19 da aeronave da LAM, observo através da portinhola circular os meandros do rio Limpopo no seu ziguezaguear, ultrapassados que estão os refugos suburbanos que adicionam aos dois milhões de habitantes registados oficialmente em Maputo algumas outras centenas de milhar, pois as cidades, para desgraça deste planeta, não param de crescer.

Como material de leitura tenho à minha disposição os jornais O País, Savana, Notícias e ainda um exemplar da Índico, revista de bordo das Linhas Aéreas Moçambicanas. Num artigo de opinião de O País, Lázaro Mabunda chama a atenção para a «falência da ética e profissionalismo no jornalismo moçambicano», e umas páginas adiante colho uma frase inspiradora e algo optimista: «Sofremos demasiado pelo pouco que nos falta e alegramo-nos pouco pelo muito que temos».

A hospedeira que assegura o serviço aos passageiros das filas detrás, perfeito exemplo do secular processo de miscigenação, é frequentemente requisitada pelos rapazes de uma equipa da televisão estatal sentados dois lugares à frente do meu, e que em Nampula farão a cobertura de um desafio de futebol do campeonato nacional, o Moçambola. Já aviaram várias latas de cerveja 2 Mahon e umas quantas garrafinhas de dose simples de Black Label, provavelmente martelado. A cerveja vale trinta meticais, mas o lanche e o chá fornecidos são suficientes para aconchegar o estômago, até porque a viagem não é longa.

Três horas depois aterramos em Nampula. Enquanto aguardo pela minha bagagem na passadeira rolante certifico-me se não haverá transporte directo, nessa mesma noite, para a Ilha de Moçambique, o meu destino final. Não, não há. Felizmente, o aeroporto fica perto do centro da cidade e táxis é o que não falta. Parto num deles em busca de um hotel e deparo com a baixa de Nampula quase às escuras, depositando-me o motorista no Hotel Tropical, outrora a Pensão Parque, como ainda se pode ver nas letras apagadas desenhadas na pintura original da fachada. Uma família de chineses gere agora o negócio, embora o empregado da recepção, e todo o restante pessoal da casa, seja moçambicano. Como complemento à unidade hoteleira, e na tradição oriental, não faltam o respectivo restaurante e a discoteca com um karaoke a condizer.

«Então tuga, estás a trabalhar?» Sou abordado desta forma por um jovem moçambicano que, sem qualquer cerimónia, se senta à minha mesa na altura em que acabo uma refeição de massa com legumes regados com molho de soja. Certamente intrigam-no as linhas que escrevo no meu portátil enquanto como. Acácio – assim se chama o meu interlocutor –, quebrado o gelo, inicia uma conversa sobre os mais diversos assuntos utilizando expressões como “este gajo” e “estou lixado”, que mais portuguesas não podiam ser. Já o “ya”, tão comummente utilizado por aqui e introduzido em Portugal após 1975, só pode ter origem na vizinha África do Sul. Acácio dá-me a entender que os proprietários daquele espaço, “chineses de Macau”, estão ligados ao negócio de madeiras, que enviam para a China em enormes contentores e por via marítima. A contrapartida dos chineses pelo seu investimento na construção de estradas e mais estradas não se limita à venda dos seus inúmeros produtos; interessa-lhes sobretudo as matérias-primas que a floresta moçambicana, por enquanto, comporta. E a tal ponto que há quem não hesite em acusá-los de neocolonialismo.

“Qual cooperação qual carapuça, os chineses querem é, acima de tudo, as riquezas naturais do nosso país”, confidencia Acácio.

Na sala contígua à esplanada do restaurante, vários chineses cantam karaoke e, certamente, bebem cerveja Laurentina, tal como eu. As vozes desafinadas transportam-me de imediato para os tascos das cidades mais isoladas da China, que tantas vezes percorri. Uma hora depois, ainda sob os efeitos da massa com demasiado molho de soja e a cebola crua que me provocam uma sede indescritível, obrigando-me a pedir mais uma Laurentina, sou abordado por um desses chineses, já tropeço, que, encorajado pelo álcool, aproveita a presença pouco comum de um branco na esplanada para testar a amostra do inglês que sabe e simultaneamente satisfazer a sua curiosidade. É então que me apercebo que a rapariga chinesa ao lado, de telemóvel encostado à orelha, no que aparenta ser uma conversa normal em mandarim, afinal, comunica em inglês e, pelo tom de voz, parece que está a namorar, o que não deixa de ser um sinal de integração na comunidade local.

Ao fim da noite saem da sala de karaoke uma outra trupe de chineses, todos eles bem bebidos, que num ápice se enfiam num jipe topo de gama. Tudo indica que pertencem a várias famílias.

“Alguns deles são de uma família de Macau”, relembra Acácio, consciente do local de onde venho.

Texto e foto de Joaquim Magalhães de Castro, escritor e investigador da expansão portuguesa. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

IIM LOGOTIPO - 2015 (2)

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