Sopro de Pak Tai: Brumas de Liampó

FOTO Pak Tai desta semana

Nos primórdios do século XVI, várias décadas antes de Macau ser uma realidade, os mercadores portugueses tinham licença para negociar em Chincheu, no estreito da Formosa, actual província de Fujian, e em Liampó – nas imediações da actual Ningpo – na região de Xangai. E foi esse relativo à-vontade de circulação que levou muitos aventureiros portugueses a deambularem ao longo do litoral da China em navios liderados por capitães das mais variadas nacionalidades do Oriente. António de Faria, personagem que povoa muitas das páginas da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, foi talvez o mais famoso desses homens. Acicatava-o um ódio de estimação, o temível pirata Coja Acém, que ele acabaria por encontrar, derrotar e matar em batalha, algures no Dong Hai, no mar do leste da China, talvez a umas 500 milhas da feitoria de Liampó, onde António de Faria saberia que essa notícia seria muito bem recebida.  

Antes de aportar em Liampó, Faria teve o cuidado de enviar um emissário à cidade dando conta da morte do temido pirata, preparando assim uma mais do que previsível entrada triunfal. Manteve-se, entretanto, como medida de precaução, ancorado ao largo, longe dos olhares indiscretos, pronto para uma rápida partida, caso as coisas não corressem de feição.

Nessa época, toda aquela região era bastante arborizada, pelo menos a julgar pelo descrição do autor da “Peregrinação”, que nos fala em «bosques de arvoredo muito basto de cedros, carvalhos e pinheiros mansos e bravos, de que muitos navios se provêem de vergas, mastros, tabuado e outras madeiras, sem lhes custarem nada».

António de Faria seria, de facto, recebido como um herói, com salvas de canhão e um cortejo marítimo. Enquanto era conduzido à presença dos mais altos dignitários da cidade, transportado num luxuoso palanquim, sempre rodeado por belas mulheres chinesas, o capitão-corsário pôde apreciar as músicas interpretadas por grupos da China, Malásia, Bornéu e Sião, porquanto a feitoria de Liampó, pela importância do comércio ali praticado, acolhia navegadores de todo o Extremo-Oriente, que desejavam negociar sob a protecção das autoridades portuguesas.

Era tal a gratidão da população a António de Faria, que os tinha livrado do mais temido dos piratas, que até os padres, que também se dedicavam aos negócios com entusiasmo e afinco, expressaram o seu contentamento, mandando tocar os sinos a rebate da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a igreja matriz, pois havia na feitoria mais umas seis ou sete.

Aqui há uns anos, tive oportunidade de visitar Ningpo, e um dos locais que mais me chamou a atenção foi a igreja católica da cidade, a Tianzhou Jiaotang, situada não muito longe do embarcadouro de ferries, que, de resto, era conhecida como «igreja portuguesa». De acordo com uma informação local a que tive acesso, essa igreja teria sido «construída em 1628, posteriormente destruída e reconstruída no século XIX», numa altura, portanto, em que a feitoria já não existia, o que nos deixa perante um dilema. Teria sido essa igreja construída posteriormente por jesuítas (não há notícia da existência de uma residência da Companhia de Jesus em Ningpo, embora essa congregação estivesse instalada noutras cidades da região) ou por chineses convertidos? Ou, muito simplesmente, representará a designação «igreja portuguesa» tão-só a memória de um passado cuja geografia nem sempre é fácil de identificar e que nem sempre coincide com os factos históricos?

A acreditar no que nos diz Fernão Mendes Pinto, a feitoria portuguesa de Liampó era uma verdadeira cidade europeia implantada à porta da milenar e vetusta civilização chinesa, que contaria na altura «com cerca de mil casas, com o seu conselho de vereadores, um funcionário da justiça, e vários empregados administrativos». E essa feitoria, devidamente documentada nas fontes chinesas, situar-se-ia nas ilhas de Shuangyu, no arquipélago de Zhoushan, nas proximidades da cidade chinesa de Ningpo, o que afasta a hipótese de serem encontrados vestígios dessa feitoria no continente.

O historiador Jin Guo Ping considera que «no caso de Liampó houve um fundo histórico verdadeiro, mas um pouco exagerado no que se refere à envergadura deste primeiro estabelecimento português, antes de Macau», que acabaria por ser reduzido a cinzas em menos de cinco horas por uma força de sessenta mil homens e mais de trezentas embarcações, catástrofe que, como nos diz Mendes Pinto, «custou a vida de doze mil cristãos, dos quais oitocentos portugueses que morreram nas chamas, a bordo de trinta e cinco navios e quarenta e dois juncos, uma perda avaliada em dois milhões e meio de cruzados de ouro».

A acreditar no relato do aventureiro português, a ordem de aniquilação da feitoria teria partido do próprio vice-rei da província de Zhejiang, como retaliação pelo ataque e saque de uma aldeia das redondezas, levado a cabo por Lançarote Pereira, um desses lançados que actuavam por conta e risco próprios, tirando daí os maiores proveitos.

Esses comportamentos de alguns dos comerciantes portugueses – não só de Liampó, mas também de Chincheu, que, anos depois, teria a mesma sorte –, homens gananciosos e sem escrúpulos, cujas acções individuais levariam à ruína de todos, são, como afirma Jin Guo ping, «confirmados pelas fontes chinesas oficiais e coevas, de modo que são incontornáveis para a história da presença portuguesa na China».

Mas, apesar dos documentos comprovativos, no que se refere a Liampó, continuam por descobrir os vestígios físicos dessa presença, o que, à partida, não se revela uma tarefa fácil. Não obstante, e segundo um relato de Montalto de Jesus, autor do Macau Histórico, até hoje a única história de Macau, se assim se pode chamar, teriam sido descobertos vestígios de tal colónia nessa região no século XIX, mais propriamente «as ruínas de um forte na localidade de Chin-hae de construção nitidamente europeia, com as armas de Portugal gravadas num portão, e o próprio templo, perto do portão da ponte, que foi atribuído aos portugueses de 1528 como associação de recepção de estrangeiros».

Apesar das diligências que efectuei na região, não me apercebi de quaisquer indícios dessa passagem, mas é muito provável que existam e aguardem, pacientemente, que alguém os redescubra.

 Joaquim Magalhães de Castro. Escritor e investigador da expansão portuguesa, escreve neste espaço às quartas-feiras.

 

 

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