O Pato

 

3.PatuAs redes sociais são um pouco como as páginas amarelas: cada um lê nelas aquilo que lhe dá jeito. Por vezes – e dada a velocidade ou a magnitude com que certos fenómenos se disseminam – são também bons referentes sociais, instrumentos de análise de leitura imediata que atestam ou do estado de coesão de determinada sociedade ou, em contrapartida, da falta dela.

Por estes dias, basta ter um punhado de amigos brasileiros no Facebook para se perceber que, à custa do processo de impeachment de Dilma Roussef, o Brasil é um país estilhaçado, um espelho partido, uma espécie de Prometeu agrilhoado, eternamente assombrado pelo espectro da corrupção e pelo fantasma da desigualdade.

Macau, a julgar pela maré de entusiasmo que varreu as redes sociais durante o fim-de-semana, está nos antípodas: não há questiúncula social que se não resolva com a vinda de arte regurgitada para o território. A julgar pela quantidade de fotografias e testemunhos que encontraram o seu caminho para a Internet, um insuspeito pato de borracha – ainda que de tamanho descomunal – revelou-se impulso suficiente para elevar a coesão interna da sociedade da RAEM a níveis quase harmoniosos e para colocar a nu um dos poucos traços de fraterna comunhão – a falta de atitude crítica – que unem as várias comunidades que por cá vivem.

A instalação (à falta de melhor vocábulo, utilize-se este), com tudo o que tem de vazio e oneroso, é um bom exemplo do falhanço do discurso propedêutico do Governo no que diz respeito à diversificação da economia do território. A vinda do pato para a RAEM, depois de ter feito ninho em 14 outras cidades dos quatro cantos do planeta, custa à entidade organizadora – a Associação de Cultura Criativa e Artes de Macau – a assombrosa quantia de seis milhões de patacas, metade dos quais comparticipados directamente pelo Governo. Mesmo que a ideia não fosse requentada e que o pato já não tivesse, por exemplo, atracado aqui ao lado, em Victoria Harbour, o dinheiro investido no processo dificilmente se furtaria ao exagero, dada o escasso valor da recompensa associada ao exercício gratuito de se admirar o pato: simpático, o bicho não convida a interrogações, não convida à introspecção. Convida apenas à selfie.

Não é que toda a arte tenha de ter a si implícito um manifesto político ou estético. Ainda assim, num território como Macau, forçado compulsivamente por um pai tirano a assumir o divórcio com o sector do jogo, a opção pela importação de modelos e de formatos pré-concebidos é mais prejudicial do que benéfica e os responsáveis pelas indústrias criativas, sector em que o Governo e a sociedade depositam tanta confiança, deviam ter presente uma tal incidência. A eles, dada a aura de contemporaneidade que rodeia o fenómeno da criatividade, compete trabalhar para que a RAEM não se transforme mais ainda na capital mundial do copycat e do pastiche e para que aquilo que é intrinsecamente de Macau seja valorizado em vez de repetidamente remetido para segundo plano.

Muito se tem falado de alma e de identidade nos últimos anos, mas de pouco adianta discutir apenas por discutir se nem os agentes culturais estão receptivos a valorizar o verdadeiramente nos distingue. O prospecto da identidade de Macau, tal como tem vindo a ser delineado ao longo dos últimos anos para turista ver, num processo que conta com o beneplácito da Direcção dos Serviços de Turismo, é uma criação esdrúxula, que faz lembrar os monstros e os seres teratológicos das gestas antigas: tem orelhas de elefante, cauda de leão e fala com o melodioso canto das sereias. É Veneza, Las Vegas e Paris tudo em um. Tem no “portuguese egg tart” o seu acepipe gastronómico de eleição, traveste-se de China para o que interessa e esquece-se, o mais das vezes, da sampana onde cresceu. Uma falsidade, portanto.

Tal como o pato. Exemplo supremo da arte prêt-a-porter e do método mais fácil de se conseguirem as coisas (dinheiro inclusive), o bonacheirão bicho faz-nos a todos mais estúpidos, mesmo que nada desejemos com selfies e multidões acríticas. Um exemplo? No fim-de-semana diz que também houve para aí uns protestos, mas desses – a julgar pelas redes sociais – não reza o histórico.

 

 

Marco Carvalho

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