O vazio e o fosso

1.Luis Sequeira

É flagrante o contraste entre as palavras de Jesus Cristo do passado Quinto Domingo de Páscoa e a realidade que se vive no Mundo actual.  O Mestre diz: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros». Mas , se olhamos para os  meios de comunicação  social,  com que nos deparamos?  Milhares e milhares de homens, mulheres e crianças que, diariamente, fogem à violência, à destruição e à guerra.  Mais dramática se torna a situação, quando ouvimos o Papa Francisco –  tal profeta a sentir as dores do seu povo –  a proclamar  este ano como ‘O Ano da Misericórdia’, pedindo orações e acções concretas de solidariedade, Mas, paradoxalmente, percebemos que, por detrás de toda esta calamidade, estão as grandes potencias nos seus habituais ‘war games’ políticos e económicos.

Ao meditar,  por sua vez,  sobre o Evangelho deste Sexto Domingo de Páscoa, uma outra dimensão  nos é apresentada. É posta em relevo a racionalidade humana,  a capacidade do ser humano de compreender a sua própria existência neste mundo, com a certeza da assistência segura do Espírito de Deus. Diz o Senhor Jesus : «O Espírito Santo vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo».  Mas mais uma vez, que se nos depara, olhando o mundo actual? Esquemas sofisticadíssimos para encobrir a verdade e, legal e institucionalmente, camuflar a mentira. Que vergonha, o sistema das ‘off shores’! Todos a participar, mas todos calados, fechados nos seus segredos perversos e enganadores. Tudo em ‘off record’, abrindo caminho à corrupção, fenómeno que deixa ‘os pobres dos  mais pobres’ ainda mais pobres.

A  leitura da Palavra de Deus deste mesmo Domingo, já a anunciar a chegada da Primavera,  lança ainda diante dos nossos olhos um  critério que deve  influenciar  radicalmente a nossa actividade, o nosso modo de agir.  O Mestre continua a sua instrução e declara, antes de deixar os seus discípulos: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.  Não vo-la dou como a dá o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração».

Se não é loucura, parece! Tempos não muito idos, algum presidente afirmava ‘façamos a guerra para alcançar a paz’.  Mais perto de nós, outro afirmava ‘ataquemos  e esmaguemos até que todos estejam  em pé de igualdade,  então depois, falem de paz’.

A Sagrada Escritura – que é palavra de Deus – põe, assim e antes de mais,  à prova, primeiro, a nossa afectividade com todo o seu mundo de sentimentos; segundo, a nossa racionalidade, com a variedade e riqueza dos seus pensamentos, ideias e motivações;  e, finalmente, a nossa actividade, poder criativo e desejo de ajudar e servir. Repito:  desafia a nossa afectividade, a nossa racionalidade e a nossa vontade, origem da actividade humana. Capacidades  essas que são instrumento e caminho para a transformação da humanidade, da natureza  e do cosmos.

Põe-nas à prova, sim, mas para fazer a pessoa humana, mulher ou homem, alcançar uma vida nova, uma nova perfeição e beleza que só a Ressurreição é capaz de trazer. Ressurreição vivida no seu sentido mais radical,  transformador do nosso ser humano, limitado e frágil. Portanto, a celebração da Ressurreição não se limita a uma mera repetição da Liturgia  luminosa e esplendorosa do Tríduo Pascal, sobretudo da Vigília Pascal. É muito mais que isso. É uma experiência profundamente humana e profundamente divina.

É por essa interrelação do humano com o divino e o divino com o humano que o Senhor, o Mestre Divino, nos chama  imediatamente a atenção para  não cairmos  na trama das interpretações fáceis. Para entender o que Ele está a proclamar temos que ir para além das nossas inclinações mais primárias, irreflectidas e superficiais. Ele diz-nos, delicada mas incisivamente: «Dou-vos a minha paz.  Não vo-la dou como a dá o mundo». A acção de Deus sobre o humano vai para além da sensibilidade humana e para além do sentir e dar do «mundo ».

A mais poderosa revelação do poder de Deus em oposição à sensibilidade humana e ao mundo manifesta-se no «Sermão das Bem-aventuranças» :

«Bem-aventurados os puros  de coração, porque verão a Deus.»

 «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles o Reino dos Céus.»

 «Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.»

Como todas estas atitudes e critérios de fundo são tão ausentes das decisões dos líderes da nossa sociedade actual:«Puros e transparentes de coração, pobres e simples em espírito, pacíficos».

O fosso é abissal. Cresce o ‘buraco negro’ dos valores civilizacionais. O Senhor sabe que o desafio é titânico, mas Ele, o Mestre e o Bom Pastor, apenas exclama: «Não se perturbe nem se intimide o vosso coração».

 

Luís Sequeira. Jesuíta. Antigo Superior da Companhia  de Jesus em Macau.

 

 

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