O Sopro de Pak Tai: A rainha e o mercenário

FOTO Sopro de Pak Tai (1)

Em 2001 passei por Banguecoque pouco depois de ter sido estreado, com pompa e circunstância, o filme A Lenda de Suriyothai, considerado na altura o mais caro da história cinematográfica da Tailândia. Com um orçamento superior a 400 milhões de baths (nove milhões de dólares norte-americanos), a película, de carácter histórico, retrata o período áureo de Ayuthaya, antiga capital do reino do Sião.

Fiquei com a curiosidade duplamente aguçada, até porque no ano anterior tivera ocasião de ler no diário Bangkok Post uma longa entrevista feita ao realizador, o príncipe Chatrichalerm Yukol, que nos falava do projecto, antevendo que o filme viesse a provocar controvérsia e até indignação junto do público tailandês.

Um dos aspectos d’A Lenda de Suriyothai propícios a gerar polémica era o facto de o galardoado realizador ter optado por relatar a história da rainha de Ayuthaya através do olhar do mercenário português Domingos de Seixas, que no século XVI viveu na capital siamesa durante 25 anos, antes de regressar a Lisboa.

Para o cineasta, a escolha de tal narrador justificava-se porque os tailandeses conheciam já a versão oficial do heroísmo e dedicação demonstrados pela rainha Suriyothai, personagem principal da película. Ao reescrever a sua vida sob o olhar de um estrangeiro, contava desmistificar um pouco a sua imagem, esperando que isso contribuísse para espevitar o espírito crítico entre os seus concidadãos, que assim poderiam eventualmente pôr em causa o que tinham aprendido na escola.

Logo que regressei a Macau, fui a Zhuhai, onde me abastecia de DVDs, e aí encontrei o dito filme, devidamente legendado em inglês. Qual não foi o meu espanto quando, logo ao primeiro minuto, me apercebi de que Domingos de Seixas não só não fazia a narração, como nem sequer era mencionado em momento algum da dita cuja. E por que razão? O que teria levado Chatrichalerm Yukol a mudar de ideias?

Ao tentar encontrar uma resposta, descobri na Internet que a produtora do filme, a Prommitr Productions, bem cedo estabelecera negociações com distribuidoras em diversos países na Ásia, na Europa (Alemanha e França) e junto de três das mais poderosas empresas do sector de Hollywood. A resposta desse lado do mundo não poderia ter sido melhor, pois a Zoentrope de Francis Ford Coppola associou-se de imediato ao projecto, tendo o próprio Coppola viajado para a Tailândia para editar o filme. Cortou muitas das cenas não só para o deixar menos longo, como também «para o tornar mais apetecível junto do público ocidental».

Faltava saber até que ponto fora significativa a acção desse realizador norte-americano na adulteração dos propósitos iniciais do filme. Teria sido a eliminação do narrador Domingos de Seixas uma exigência de Francis Ford Coppolla ou tivera o realizador tailandês receio da reacção dos seus compatriotas, a quem pretendia «espevitar o espírito crítico» e levá-los «a pôr em causa o que tinham aprendido na escola»?

Confesso que gostaria muito de esclarecer este mistério.

A Lenda de Suriyothai relata o heroísmo da rainha Suriyothai, que em meados do século XVI assumiu o comando do exército do reino de Ayuthaia, após o marido, o rei Mahachakrabhat (1548-1569) ter sucumbido numa batalha contra os invasores do Pegu.

Ao longo de três horas, Chatrichalerm Yukol consegue trazer para a tela o esplendor da antiga Ayuthaia, os usos e costumes da época, as sangrentas batalhas de onde sobressaíam os elefantes, verdadeiras máquinas de guerra a juntar a outras mais metálicas, introduzidas no Sião pelos mercadores e mercenários portugueses. Eram eles que supervisionavam o manejo dessas mesmas armas que acabariam por alterar radicalmente o sistema rudimentar de defesa da época.

A comunidade lusa no antigo Sião, que remontava a 1516, no seguimento do primeiro acordo de amizade, comércio e navegação entre Portugal e a actual Tailândia, ia muito para além da actividade comercial. No Campo Português habitavam vários milhares de luso-siameses que constituíam a elite do exército do Sião, dedicando-se a várias outras artes e ofícios, o comércio com Macau era florescente e os jesuítas, apesar da feroz resistência dos monges, tentavam converter o maior número de pessoas.

O narrador d’A Lenda de Suriyothai é um anónimo tailandês e as únicas referências a portugueses em todo o filme consistem na frequente aparição de arcabuzeiros, artilheiros e guardas pessoais do soberano em traje militar ocidental, tanto no campo siamês como no birmanês, na menção a um grupo de «mercenários portugueses ao serviço do rei Ramayanda» (ouve-se algum português com sotaque brasileiro), na oferta que a princesa faz de vinho português a um hóspede, na presença de um padre (jesuíta?) que exerce as funções de médico e, finalmente, no nada abonatório destaque para a chegada de um navio português, em 1533, que para além do habitual «carregamento de provisões e de peles de veado trouxe consigo varíola», a qual se espalharia por todo o reino, causando inúmeras mortes.

Para realizar o filme, Chatrichalerm Yukol, também conhecido como Than Mui, passou cinco anos a fazer pequisas documentais, que o levariam à Birmânia, ao Laos, a Macau e a Portugal.

Fora supostamente um episódio relatado no livro Os Portugueses na Tailândia, da autoria de Monsenhor Manuel Teixeira, que levara Chatrichalerm Yukol a avançar com o projecto, tendo o cineasta ido propositadamente a Macau para falar com esse investigador. Trata-se do episódio em que a rainha Suriyothai se mostra disposta a morrer esmagada por elefantes para conseguir evitar uma batalha que se anunciava entre os eternos exércitos rivais: o birmanês e o tailandês. Episódio que o realizador (e a maioria dos tailandeses) desconhecia, e que, não obstante, é retratado em moldes distintos n’ A Lenda de Suriyothai, pois aí a rainha, montada num elefante, morre em combate contra os opositores birmaneses.

Ao realizar A Lenda de Suriyothai, Chatrichalerm Yukol pretendeu mostrar ao mundo a história da Tailândia numa perspectiva global, pois considerava importante saber como eram as relações do Sião com os outros países. Nesse contexto, o realizador fez questão de envolver diversos estrangeiros no projecto. Fosse a nível da realização, fosse nos aspectos técnicos respeitantes à iluminação e à banda sonora. Só faltou mesmo um consultor português, um historiador ou algo no género.

Joaquim Magalhães de Castro. Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa, escreve neste espaço às quartas-feiras.

IIM LOGOTIPO - 2015 (2)

 

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