Pela minha mãezinha. É golpe, sim!

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Que o Brasil é um país complexo, enorme não só no aspeto da dimensão geográfica, mas também pelas diferenças que alimentam a sua gigante engrenagem política, creio ser conhecimento de todos, mas, há dias, outras enormidades brasileiras escancaram-se ao mundo: o analfabetismo político e a hipocrisia.

No passado domingo, 17 de abril – quase que me esquecia ser véspera do dia em que se comemoram internacionalmente os monumentos e sítios – o Brasil veio a revelar, mais uma vez, a fragilidade de sua democracia (património incontornável das nações).

A anedótica sessão na Câmara dos Deputados brasileira em que foi votada a legitimidade do processo de impedimento da Presidente da República, transmitida em direto, inundou o domingo de melancolia. Deveriam ter a fineza de, ao menos,  escolherem outro dia da semana … Mas, naquele domingo, tivemos circo. Um triste e angustiante espetáculo que, não fosse trágico, seria cómico.

Da quinhentena de votantes, 80 por cento demonstravam, pela justificativa apresentada, ou desconhecer o motivo que os tinha levado até ali, ou má-fé, puro e ignóbil oportunismo.

Só para lembrar: a sessão do famigerado domingo tinha por finalidade avaliar se Dilma Roussef teria ou não cometido crime de responsabilidade na presidência do país. Entretanto, longe das razões fundamentadas e ponderosas, o que mais se ouviram foram homenagens arcaizantes como justificativas na hora da alocução dos votos. Nos 30 segundos de fama, olhos ávidos pela câmara instantânea, inúmeros deputados, inflamados,  justificaram na seguinte toada o “Sim” ao Impeachment: “Pela minha família, esposa, filhos, netos e bisnetos”, “Pela paz de Jerusalém” (sim, houve quem dissesse isso!), “Pela Nação de Israel (juro, não estou a gozar), “À minha tia Eurídice, que cuidou de mim quando era pequeno”, “Por você, mamãe”…

Acrescente-se à patente falta de preparo e formação, o analfabetismo político do grosso dos parlamentares que compuseram aquela sessão, que primou pela  hipocrisia, o que pode ser exemplificado pela deputada que freneticamente gritava “Sim, sim, sim”, após ter justificado seu voto a favor do impedimento da presidente brasileira com menções à honestidade exemplar do marido, o qual, em menos de 24 horas, haveria de ser preso por corrupção.

Eu, confesso, não achei graça. Talvez fosse mais feliz, tivesse eu rido daquela balbúrdia, talvez não tivesse a cabeça tonta até agora, se contra a minha natureza relegasse tudo ao escárnio. No entanto, para isso, era preciso que o estômago não me fraquejasse diante da constrangedora prestação dos legisladores brasileiros, da dolorosa piada em que eles transformaram meu país. Tivesse eu indiferença suficiente para ficar, impávida e alienada, perante a reedição do golpe, desta feita com o “esquadrão” dos justiceiros da baixa política. Quem me dera (em rasgo pessoano) perder a metafísica, ó Esteves!

O ponto alto da sessão, como não poderia deixar de ser, foi do defensor da violenta ditadura militar que durou duas décadas e foi responsável por milhares de assassinatos de pessoas que não se calaram diante da repressão. Em clara e abjeta provocação a Dilma Roussef, o deputado Jair Bolsonaro teceu louvores ao coronel que torturou a presidente enquanto jovem. Se ainda havia dúvidas que o processo de impedimento em curso é Golpe de Estado, o pronunciamento de Bolsonaro dissipou-as completamente.

O circo de horrores parecia não ter fim e vejam que nem mencionei o gangster que presidia a sessão. Adiante, que a luta apenas recomeça. Pessoanamente…

“Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.”

 

Márcia Souto, Escritora

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