O Sopro de Pak Tai:Mendes, Monteiro e a ilha de Cheju

 

FOTO Sopro desta semana

Conhecida na antiguidade por nomes tão diversos como Do-i, Supla, Tamora, Tamna e Takra, a actual Cheju (actualmente transliterada como “Jeju”), “a ilha dos dezoito mil deuses”, continua a ser um mundo à parte no universo sul-coreano e o destino predilecto dos casais em lua-de-mel.

As primeiras referências europeias à Coreia surgem numa carta enviada em 1548 ao Vice-rei do Estado da Índia pelo jesuíta Nicolau Lanciloto, residente no Japão. Nessa carta, o italiano – formado no Colégio de São Paulo, em Macau – afirmava que os japoneses comerciavam “com outra gente abaixo da China para leste, chamada Coreia» e que para lá levavam também prata e peles de martas “porque há grande quantidade delas na mesma ilha, e também levam abanos; e trazem de lá panos de algodão”. Décadas depois, em 1571, um outro jesuíta, o português Gaspar Vilela, também ele educado “em assuntos sínicos” naquela que foi a primeira universidade da Ásia Oriental, informava o seu superior de que, a dez dias de caminho do Japão, por via marítima, “existe um reino chamado Corái”, admitindo até que tentara visitá-lo, “há quatro anos”, mas que, “por causa das guerras que havia no caminho”, acabara por desistir da ideia.

Na primeira metade do século XVI, com uma frequência cada vez mais notória de comerciantes portugueses na Ásia, em geral, e, em particular, no Mar do Leste da China, era inevitável que alguns deles acabassem, mais tarde ou mais cedo, por entrar em contacto com o território da actual Coreia, até porque, com a chegada oficial dos portugueses ao Japão, em 1541 – e Fernão Mendes Pinto reclama essa honra para si e dois dos seus companheiros –, esse reino passara a estar na sua rota marítima comercial.

Esse marco histórico supramencionado – a chegada dos europeus a solo coreano – foi-nos noticiado por Antonio Prenestino, jesuíta italiano a residir no Japão, que, numa carta datada de 1578 e enviada a um colega da Companhia que vivia na Índia, nos diz que “no ano de 1577 os homens do capitão Domingos Monteiro, devido a um tufão, pisaram a terra da ilha de Cheju, sendo logo todos mortos”. Prenestino não explica, contudo, qual era a missão desse capitão e por que razão ele e os seus homens foram mortos. Tão-pouco há provas documentais coreanas que atestem o acontecimento.

Na verdade, o primeiro europeu a ser mencionado nos anais coreanos, com o nome de Ji-Wan-Myeon-Je-su, foi João Mendes, comerciante de Macau, que viajava num barco japonês, do Camboja para Nagasáqui, quando deparou com uma violenta tempestade que o obrigaria a mudar de rota, tendo-se aproximado mais da costa do que seria desejável, visto que na altura o Japão e a Coreia estavam em guerra. Foi a 14 de Junho de 1604, ao que consta ao largo da actual cidade de Tongyeong. Na sequência da batalha naval que entretanto se travou entre japoneses e coreanos – e que passaria para a história como a batalha de Dangpo – João Mendes seria preso, juntamente com outros quarenta e nove membros da tripulação. Passaria algum tempo no país, sendo posteriormente enviado para Pequim, desconhecendo-se qual o seu destino. Só várias décadas depois, em 1627 e em 1653, há registo da visita de outros europeus ao dito “Reino da Manhã Serena”, e, de novo, é Cheju o local de chegada. Mais exactamente, a ilhota de Kapado, que é, aliás, vizinha da ilhota de Marado, nomes que não deixam de ser bastante curiosos, pelo menos para um falante de português, e cuja sonoridade é muito mais japonesa do que coreana. Ambos os homens eram holandeses. O primeiro tinha por apelido Weltevree, e o outro, Hendrick Hammel, estaria acompanhado de 37 homens, que, como ele, tinham sobrevivido a um naufrágio.

Pelos vistos, Hammel não só teve melhor sorte do que Domingos Monteiro e João Mendes, como ficaria, até hoje, com os louros de ter sido o primeiro ocidental a chegar à Coreia. Pelo menos, é essa a informação fornecida nos folhetos distribuídos aos visitantes que chegam aquele país.

Não creio que todos estes factos históricos, nem mesmo os créditos erradamente atribuídos ao holandês, fossem assunto que interessasse a Lee Keun, um pescador de quarenta e poucos anos que ali conheci e que aproveitava as horas mortas de domingo à tarde para merendar ostras e peixe cru com os colegas, sentados em pequenos bancos de plástico no paredão frente ao mar.

– Devia visitar Yongduan. Fica perto – sugerira ele, apontando com o dedo indicador para a massa rochosa a algumas centenas de metros. Yongduan, “rocha da cabeça do dragão”, era um dos símbolos mais queridos de Cheju e recebia visitas diárias de milhares de turistas. Conta a lenda que o dragão do palácio real, que habitava as profundezas do mar, quis alcançar o céu. No momento exacto em que surgiu à tona da água, o seu corpo petrificou-se e ali ficou. O tronco e os membros do bicho lendário, representados por uma massa de basalto, ficaram para sempre submersos, à mercê das marés, mas a cabeça, com talvez uns dez metros de comprimento, manteve-se erguida, numa eterna tentativa de atingir o impossível.

IIM LOGOTIPO - 2015 (1)

Joaquim Magalhães de Castro, Escritor e Investigador da Expansão Portuguesa

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s